Para não dizer que não falei das flores, registrei um momento de um casal de índios, sentadinhos numa mureta do Aterro (local onde foi realizado a Cúpula dos Povos) e senti um clima romântico no ar.
Minha imaginação fértil lembrou logo de Romeu e Julieta, Ceci e Peri, Orfeu e Eurídice e outros amores impossíveis!!!. É sério!!!! Estava na cara que se tratava de um casal de “famílias” diferentes.
Ele, todo colorido de cocar e tudo. Ela tinha somente o rosto pintado discretamente (eu diria até que em tom nude!) e carregava como adorno, uma pena solitária nos cabelos em tons de vermelho. Fiz amizade e descobri que “ele” é Pataxó (do sul da Bahia) e “ela” Mura (de Manaus).
Não me disseram seus respectivos nomes, mas posaram para uma foto. E o Pataxó mostrou que tem “pegada”. Tratou de se aconchegar à dama com agilidade e delicadeza, na medida certa!
Antes que eu esqueça, registro: soube de alguns índios DESAVISADOS, que foram parar no Bloco Cacique de Ramos (Berço do Samba, ponto de encontro de gente bamba, em Ramos – Zona Leopoldinense do Rio de janeiro). Caíram no Samba e posaram para a imprensa, ao lado do prefeito da Cidade (que produziu o encontro!). E ai? Chupa essa manga!!!!
Nem tudo foi colorido na Rio+20. A maioria da população carioca, que insiste em mirar suas preocupações no próprio umbigo, ficou “verde de raiva”. Com os engarrafamentos no trânsito, chefes intolerantes com os atrasos, serviços públicos que não funcionaram, com as diversas manifestações da sociedade civil organizada do Brasil inteiro, enfim!
Agora, tente imaginar a cor do povo na ocasião dos próximos eventos (Copa do Mundo e Olímpiadas). Eu arrisco o “roxo”! Quem gostou mesmo foram os empresários da rede hoteleira, restaurantes, até o Saara curtiu!
Continuando nas cores, em várias ruas do centro do Rio, predominou o lilás, cor que simboliza o feminismo. Era a Marcha Mundial de Mulheres que culminou num ato emocionante, no Largo da Carioca. Ecoou pela cidade o protesto com vários sotaques e idiomas, no dia 18/06: “Contra mercantilização da vida e em defesa dos bens comuns”/ “liberdade, saúde & autonomia. Chega de violência e lesbofobia!”.
As cores do panafricanismo também estavam presentes (verde, amarelo, vermelho e preto), eram as mulheres negras para que o mundo não se esqueça do racismo, do sexismo e, sobretudo, de nossas irmãs quilombolas.
Há quem não goste do termo “musa”. Há ainda as que rejeitam o título. Mas, preciso dividir com vocês o que notei nesta Marcha, como também nesses 11 dias de Rio+20: a ausência de um contingente maior da juventude. Eis que ouço uma voz dizendo – “Tia”! – era minha/nossa sobrinha de coração, Lívia Almada.
Olhei pra ela e me emocionei com o seu visual descolado, os olhinhos brilhando, cheia de atitude e coragem. Com a simplicidade natural de ser livre, estava pintada prá guerra (aliás, ela retocava o tempo inteiro, as palavras de ordem pintadas pelo corpo!). Lindo, né? São essas coisas que fazem tudo valer a pena. Parabéns, querida mamãe e Candace, Sandra Almada. Portanto, Lívia, você é minha Musa!!!!
Nem tudo foi cores, flores e amores no que podemos afirmar ser a maior Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável. No sábado, dia 17/06, por volta das 10h, na Cúpula dos Povos, no aterro do Flamengo, o que poderia ser o Quiosque de gastronomia afro-brasileira, aliás, a locação do espaço custou R$ 1.800 (Hum mil e oitocentos reais) fora o investimento em mantimentos diversos que foram transformados em quitutes pelas mãos da nossa “Lucinha da Pedra do Sal” e foram parar no lixo!!!!! Isso mesmo!
Numa ação rápida e truculenta da Vigilância Sanitária do Rio de Janeiro, todo o farnel preparado por Lucinha, para a nossa alegria e desta grande guerreira que, com seu empreendedorismo, viu no investimento a chance de mostrar os sabores do Brasil para o mundo e garantir o sustento de sua família.
A produção do evento, depois de muito “disse-que-disse”, parece que vai ressarcir os prejuízos da mulher negra, guerreira e quilombola…. Na dúvida, tratamos de acionar a CEPPIR (Coordenadoria Especial de políticas de Promoção de Igualdade Racial do Rio de Janeiro) – Lelette Couto) e SUPIR (Superintendência de Igualdade Racial do Estado do Rio de janeiro – Marcelo Dias), que lá estiveram, disponibilizaram as respectivas estruturas para resolver o caso pra lá de racista e sexista!
Enquanto no Forte de Copacabana, acontecia o evento HUMANIDADE 2012 , 7.000m2 de área ocupada para a produção do evento milionário e muito interessante, com mega patrocínio e ampla cobertura da imprensa, o que eu acho ótimo! (Só gostaria que tivessem a mesma idéia para as praias de Ramos, Ilha do Governador, Paquetá… toda Baía de Guanabara que ” agoniza mas não morre!”), no centro da cidade, mas precisamente, no Sambódromo, palco do maior espetáculo a céu aberto da terra, serviu de “alojamento” para milhares de representantes da sociedade civil , do Brasil inteiro, entre os quais, indígenas, mulheres, religiosos e quilombolas (Serra do Salitre, Patrocínio de Minas, Pedra do Sal, Brejo dos Crioulos, Quilombo dos Macacos, Campo Formoso, Invernada dos Negro, Serra do Joá, Porteiras, Calungas, Morro Alto, Fidélix, Caçangó…. alguns representantes de comunidades quilombolas que haviam chegado até Domingo, 18/06, as 23h).
Mais um momento de emoção me dominou. Me lembrei dos meus 16 anos, quando comecei a participar pelo Brasil afora, em seminários, congressos, ou em qualquer coletivo que se repensasse os humanos direitos, sobretudo, os dos homens e mulheres negras.
Senti um misto de tristeza e cansaço quando vi centenas de mulheres (a maioria indígenas e quilombolas) deitadas no chão, ao relento (nem todos tinham “barracas de camping” e sequer, colchonetes – que foram providenciados às pressas).
Mergulhei no passado e fui parar nos porões das senzalas onde viveram nossos ancestrais. Minha cara não deveria mesmo estar muito boa enquanto seguia caminhando, estarrecida, ao lado da irmã Cassia Liberartori.
Até que me deparei com uma linda mulher, Dona Yêda (na sequência, ela se apresentou como Rainha Ginga do Quilombo do Morro Alto – Rio Grande do Sul) que liderava um grande grupo de quilombolas. Reclamaram da falta de higiene das instalações, a falta de água potável, acessibilidade aos portadores de necessidades especiais.
Havia ali muitas mulheres idosas, a quilômetros de distância de suas casas, lutando por “um futuro” melhor, esbanjando vitalidade e obstinação. Saí dali renovada com a garra e sabedoria daquelas mulheres. Ô, sorte!!! É por isso que sou AKOBEN!!!!
Escrevo prá informar, prá “desanuviar” o coração. Contudo, como profissional, me solidarizo com a produção do evento. Sei bem o que é ter que realizar com pouquíssimos recursos e, pior, recursos prometidos e não cumpridos .
“A Rio+20 passará para a história como uma Conferência da ONU que ofereceu à sociedade mundial um texto marcado por graves omissões que comprometem a preservação e a capacidade de recuperação socioambiental do planeta, bem como a garantia, às atuais e futuras gerações, de Direitos Humanos adquiridos.” (Trecho do documento assinado por Thomas Lovejoy, ex-Minista Marina Silva e outras lideranças – publicado em www.dgabc.com.br)
Vou ficando por aqui….
Antes, registro o meu SALVE para a galera do QUI GERAL, MAMATERRA, ZEZYNHO ANDRADE, RAS ADAUTO, IERÊ FERREIRA, ROMÃO, DELANIR CERQUERA e geral que estavam com olhos negros de “butuca” em tudo”!
Um SALVE , especial, para a linda homenagem aos nossos “Mais Velhos” representados por Mãe Meninazinha D`Oxum, Mãe Nilce D`Oya, Mãe Beata de Iemonjá, Mãe Torody, Mãe Edeuzuita, Babi Zezito D`Oxum, Mãe Márcia D`Oxum, Ogan Bangbala (aos 92 anos!), no encerramento da Rio+20, Galpão da Cidadania e Armazém da Utopia, programação oferecida pelo MINC e FCP.
Orixá é natureza!

Adriana Baptista