Barretos/SP – Uma comissão formada por lideranças representativas de Barretos tentará abrir um canal de diálogo com o interventor da Santa Casa de Misericórdia, Eduardo Petrov, para pedir o arquivamento do do processo administrativo contra a médica anestesista Carolina Bernardes e deixe que a Polícia e o Ministério Público apurem a denúncia contra o obstetra Fernando de Carvalho Jorge, acusado da prática do crime de injúria racial.

Além da comissão, será lançada uma campanha nacional para que todas as pessoas solidárias à médica enviem e-mails e utilizem as redes sociais, denunciando o caso e pedindo ao interventor o fim das perseguições à Carolina.

Essas foram as principais decisões do Ato de Desagravo e Solidariedade a médica vítima de injúria racial, que marcou as comemorações do Dia Internacional da Mulher Negra, Afro-Latina e Caribenha, realizado na Casa do Advogado, por iniciativa de ativistas negros e antirracistas da cidade, organizados pelo Instituto Matilde Machado (IMAMA).

O processo administrativo, anunciado por Petrov (foto abaixo) à imprensa local, foi uma recomendação de uma Comissão de Sindicância formada por pessoas da confiança do interventor e está sendo visto como uma retaliação à denúncia feita pela anestesista e, segundo os ativistas presentes “é mais um ato do teatro armado para desviar a atenção e transformar a médica de vítima em ré”. Carolina é a única médica negra de Barretos, cidade em que negros representam 34% da população.

O ato, coordenado pela advogada Laís Fernanda Honório, da Coordenação da Diversidade Sexual da OAB/Barretos, foi iniciado às 9h contou com a presença de cerca de 50 pessoas, entre os quais, os pais de Carolina Bernardes, José e Suzete Bernardes. Bastante emocionados eles agradeceram a manifestação de solidariedade.

Também estiveram presentes e fizeram parte da mesa, a professora Elisa Lucas Rodrigues, chefe da Coordenação de Políticas para as Populações Negra e Indígena da Secretaria de Justiça e Defesa da Cidadania de S. Paulo e o editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira; de um representante das religiões de matriz africana, Pai Rangel, e da vereadora e delegada Gláucia Moláz, além da própria Carolina.

Solidariedade

A médica agradeceu as manifestações de apoio e solidariedade e disse que quer apenas Justiça e o direito de continuar exercendo o seu trabalho em paz.

Segundo a professora Eliza Lucas a solidariedade manifestada por ativistas barretenses durante o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha "a médica e mulher negra que sofreu discriminação de um colega médico" foi um momento emocionante”: “O grupo se propôs a engrossar fileiras em uma manifestação de repúdio às atitudes racistas, que aconteçam não só com a doutora Carolina, mas com qualquer cidadão barretense. Não é possível ver a nossa cidade em manchetes, que mostram o quanto o racismo ainda é intenso no município. Não é possível que os oprimidos se calem diante dos opressores”, afirmou Elisa, que é de Barretos.

A chefe da Coordenação da Secretaria da Justiça (foto abaixo) agradeceu a participação da advogada Laís Fernanda Honório, coordenadora da Diversidade Sexual da OAB local, “que além de ceder o espaço da Casa do Advogado, esteve presente no apoio, e também a vereadora Gláucia Molaz Simões, que também é delegada de Polícia na cidade, e ao líder religioso, Pai Rangel, representante das religiões de matriz africana.

Segundo o advogado e jornalista Dojival Vieira, editor de Afropress, que foi a Barretos a convite dos organizadores do ato, tanto a sindicância quanto o processo administrativo são “uma farsa grosseira, um teatro, uma encenação em retaliação a coragem da médica de denunciar a agressão sofrida". O jornalista manifestou solidariedade em nome da equipe de colunistas e colaboradores que há 10 anos mantém a Afropress e pediu ao interventor uma atitude de grandeza.

“Não estamos mais no século XIX, quando transformar vítimas desse tipo de crime em réus eram práticas corriqueiras. Estamos no século XXI. Não fica bem a uma cidade, da importância de Barretos, ocupar manchetes dos principais jornais do Brasil inteiro por um caso em que se tenta transformar a verdadeira vítima, que é a doutora Carolina, em ré. O único crime praticado foi a injúria racial previsto no parágrafo 3º do art. 140 do Código Penal Brasileiro. Cabe ao interventor [Eduardo Petrov] apenas deixar que a Polícia e o Ministério Público apurem esse crime e punam o responsável nas penas da Lei”, afirmou.

Dirigindo-se à médica, o jornalista acrescentou: “Doutora Carolina, lembre-se sempre que você não está só, e que milhares de pessoas no Brasil acompanham o seu caso e estão com você na luta por Justiça”, concluiu.

Da Redacao