“AB UNO DISCE OMNES”
O director Otto Czernin, da revista Magazine de Lisboa, lançou-me o desafio de escrever uma crónica “com um outro olhar” Moçambicano, sobre o Portugal de hoje. Tarefa um pouco ingrata mas aliciante.
“Ab Uno Disce Omnes” (Por um, aprende a conhecê-los todos) – Palavras com que o herói Eneias se referia às perfídias dos gregos – (in Poema épico ENEIDA, II, 65, do Poeta Latino, Virgílio, aliás Publius Virgilius Maro, c.70 / 19 a.C.).
Evidentemente não se trata de imputar perfídias a Gregos ou a Troianos, nem a Portugueses nem a Moçambicanos.
Sem pretender meter a foice em seara alheia poderia no entanto ver o Portugal d’hoje apelando aos meus genes (ADN – ácido desoxirribonucleico) das avoengas hereditárias paterna, (Algarvia, Aljezur) e materna (Abrantes, Alferrarede – Olho de Boi). Isto para dizer que no geral, como Afro-Lusófono em Portugal; estou em casa. Daí a legitimidade em “meter o pau” como dizem os nossos irmãos brasileiros, nos aspectos mais negativos e na desgarrada sentimental de um Fado comum, na aproximação dos afectos e mesmo nos desafectos.
Grosso modo um dos aspectos mais negativos que se me é dado a verificar no quotidiano a todos os níveis, no imaginário colectivo e me aflige, é a crença que Portugal (92.065 Km2), é um País “pequeno”. Todavia o Benelux (73.940 Km2) é mais pequeno e composto por três Países: – Holanda (40.844 Km2), Bélgica (30.510 Km2), Luxemburgo (2.586 Km2), e, seus habitantes não têm esse “complexo” de pequenez geográfica e como Povo, dentro de um contexto Europeu. Portugal não é um País pequeno. É sim um País Rico no calor afectivo das suas gentes, na paisagem, gastronomia, sobretudo no Norte de Portugal, superando todos os preconceitos herdados da saudade do Império Colonial perdido. Quiçá, semelhante ao complexo Austríaco da perda do Império Austro-Húngaro (por extensão a Prússia, a Silésia (sul da Polónia) e Liechtenstein, numa Grande Germânia), séculos XIX / XX.
Um País com a História de Portugal (911 / 859 anos) escrita a ferro e fogo, sangue e lágrimas, mesmo na imposição a outros Povos de seus desígnios de Quinto Império, é um País que deveria ter um caminho mais consentâneo com o seu pioneirismo na abertura dos Sete Mares à Europa Mercantilista. E será num exorcismo dos aspectos mais tenebrosos do seu passado que Portugal poderá no presente ter uma atitude menos preconceituosa por um lado e por outro, menos paternalista -, resquícios dum passado recente colonial. Dentro destas premissas um Moçambicano veria com mais optimismo o Portugal d’ hoje.
Shalom!

João Craveirinha