Campinas/SP – Uma Companhia de Dança Negra Contemporânea, que tem como objetivo expandir e divulgar o ensino e as técnicas de dança negra, principalmente entre as crianças, criada pelo coreógrafo Carlos Kiss, de Hortolândia, é mais conhecida fora do que no Brasil. Kiss, que também é pedagogo com formação na Universidade de Campinas (Unicamp) já viveu em Portugal, onde cursou a Faculdade de Motricidade Humana, da Universidade Técnica de Lisboa, morou algum tempo em Helsinque, na Finlândia e dançou em países como Alemanha, Espanha, Taiwan, Hong Kong, África do Sul.

“Sou bailarino profissional danço desde os 5 anos. A minha memória da dança vem do tempo em que eu queria ser batuqueiro da Escola de Samba de meu bairro São Bernardo, em Campinas, e como era pequeno spó podia ser passista. Chorei muito na avenida, porém quando vi o incentivo do público, batendo palma, para que eu continuasse a sambar, nunca mais quis tocar nada, só dançar”, relata.

Na semana passada ele deu oficina sobre "Danças Negras – do Tradicional ao Contemporâneo", que continuará nos dias 23 e 30 deste mês no SESC Pinheiros e falou à Afropress sobre o trabalho que desenvolve, especialmente, com crianças.

 

Na oficina ele ensina criação coreográfica por meio de improvisação solo, compartilhada em duplas e em grupos, sempre ao ritimo da percussão, permitindo aos participantes experimentar exercícios cênicos a partir das técnicas abordadas na dança negra. Atabaques, berimbaus, xiquerês e congas compõem os movimentos de dança do oeste da África.

A última apresentação internacional da Carlos Kiss, Cia. De Dança Negra Contemporânea aconteceu na Turquia no ano passado. O espetáculo é apresentado por 10 pessoas – dois percussionistas que coordenam a parte musical (Wellington Soares e Maikson Lima) e dois a parte infantil (Vinicius e Guilherme Soares. Como bailarinos, além de Kiss, Priscila Coscarella, Silvia Zeferino, Kayla Nefertiti e Maria Nelly Gouveia.

Leia, na íntegra, a entrevista de Carlos Kiss à Afropress.

Afropress – Como é que surgiu a oportunidade da apresentação na Turquia?

Carlos Kiss – Foi através de um pesquisador que assistiu a minha palestra na Universidade de Artes de Taipei, em Taiwan, em 2012, e surgiriu que eu apresentasse este trabalho neste Simpósio na Turquia. Reformulei o trabalho, a comissão científica aprovou. 

Afropress – Qual é a característica maior do seu trabalho?

CK – Ênfase nas técnicas de dança negra contemporânea, através de pesquisas das danças do Oeste e Sul da Africa, dança contemporânea e nas danças brasileiras de origem negra. A invisibilidade do artista negro nos meios de comunicações e nas ações de fomento à arte e a apropriação da arte negra por artistas brancos, transformando a arte negra em uma atividade comercial exclusivamente feita por branco no Brasil.

Afropress – Quantas pessoas integram o seu grupo, quem são e de onde?

CK – Somos em 10 pessoas, em nossos espetáculos. São dois percussionistas que coordenam a parte musical – Wellington Soares e Maikson Lima – e dois percussionistas a parte infantil – Vinicius e Guilherme Soares, que tocam desde que nasceram. Todos são Ogãs, são de famílias negras tradicionais do bairro de São Bernardo, em Campinas. Na parte de bailarinos, além de mim, participam Priscila Coscarella, que também dirige alguns de nossos espetáculos, Silvia Zeferino, Kayla Nefertiti e Maria Nelly Gouveia, bailarina negra formada na UNICAMP no final dos anos de 1990, colabodora desde o início da Cia. Temos alunos em fase de preparação e esperando a oportunidade de participar do elenco principal.

Afropress –  O grupo já fez excursões ao exterior? Para onde e quando?

CK – Em 1984 criei o Grupo Revolução Artes e Educação, que tinha como objetivo pesquisa e montagens de teatro e dança e com atividades como movimento negro, inspirado no Teatro Experimental do Negro. Em 1997, criei a CARLKISS DANCE – Companhia de Dança Negra Contemporânea, na Finlandia, para facilitar a comunicação com os grupos internacionais, remetendo o nome da Companhia ao coreógrafo. Já nos apresentamos na Finlandia, (1997-98) Portugal, Suécia, Espanha (1998, 1999, 2009), África do Sul (2001), Estados Unidos (2000) Taiwan (2012) e para 2014 estamos nos preparando para fazer Portugal e mais dois ou três países europeus a confirmar.

Afropress – O seu grupo de dança parece ser mais conhecido fora do que dentro do país. Por que esse silêncio no Brasil?

CK – Creio que seja principalmente por minha posição politica ideológica. Meu trabalho é independente e autônomo, dou enfase a trabalho técnico, artístico, mas sem me omitir de minha função social que é dialogar, debater, criticar este sistema racista institucional que temos no Brasil. As forças políticas partidárias não admitem ninguem fora de suas correntes escravagistas e controladoras. Falo de todas. Pois se você está atrelado a algum partido ele tem como te controlar, fazer acordo etc.

E este trabalho de pesquisar, debater o sistema racista institucionalizado, faço questão de transformá-lo em artigos científicos e publicá-los. Este tipo de arte e produção científica é perigoso para o sistema e por este motivo tentam nos deixar invisíveis. Ontem em um debate na UNICAMP, versei sobre estas questões e como a Academia tenta nos enquadrar e nos acorrentar. Falei para um platéia majoritariamente branca, como eles se apropriam de nossa arte, cultura, tecnologia e depois nos exclui. Falei da nossas religiões de matrizes africanas em que os sacerdotes, pelo menos na minha região, são majoritáriamente brancos e para você se iniciar em nossas próprias religiões de matrizes africanas  é extremamente alevado o custo financeiro; indiretamente nossa comunidade vai sendo excluída.

 

Não estou discutindo fé, crença. Estou discutindo religião, poder, política. Olha a capoeira! Virou uma atividade universitária e para universitário. Este ano, por exemplo, este mesmo trabalho aprovado na Universidade Ankara, Turquia, foi rejeitado por dois congressos de dança, pelo seminário realizado pela São Paulo Companhia de Dança, que alegou falta de fundamentação teórica e, recentemente, pelo VII seminario da Faculdade de Dança Angel Vianna, segundo a seguinte alegação: “Gostaríamos de deixar claro que a curadoria dos trabalhos não foi por caráter qualitativo e sim por afinidade de assuntos para a composição das mesas”.

É evidente a provocação que este artigo instiga, incomoda os valores enraizados na elite brasileira e a dança é elitista. Fico feliz em ver comunidade do interior resgatando junto com sua comunidade nossa arte negra. Ninguem quer tocar neste assunto, perde parceria. Eu prefiro perder parceria, do que perder nosso futuro.

Afropress – Há outros grupos fazendo trabalho semelhante? Em caso afirmativo, quais?

CK – Sim. Talvez, não com o estilo que trabalhamos, mas com os mesmos objetivos e que também estão na invisibilidade e a Afropress tem a responsabilidade de dar visibilidade a este grupo e os grupo à Afropress, se aproximar destes grupos e criar uma agenda estadual ou nacional de eventos e atividades negras, semanalmente, durante todo o ano.

Afropress – Quais são os planos do grupo para se tornar mais conhecido no Brasil?

CK – Continuar divulgando nosso trabalho na periferia, academia, teatros e festivais. Desde sempre levamos a dança negra e nossas produções cientificas onde há espaço e onde não há, abrimos. Como festivais, por exemplo. Vencemos o Mapa Cultural em Campinas. Fomos o único grupo latino americano selecionado para se apresentar Na Global Dance Summit 2012 na China.

Afropress – Fale um pouco de você, e da sua estória e quando começou seu interesse pela dança? Você já vive profissionalmente da dança?

CK – Sou bailarino profissional e pedagogo formado na UNICAMP. Danço desde os 5 anos, a minha memória da dança vem do tempo em que eu queria ser batuqueiro da Escola de Samba de meu bairro São Bernardo, em Campinas, e como era pequeno só podia ser passista. Chorei muito na avenida, porém quando vi o incentivo do público, batendo palma, para que eu continuasse a sambar, nunca mais quis tocar nada, só dançar. Esta memórias me remetem a um passista fabuloso, que foi mestre sala, Wandão. Nós tentavamos acompanhar seus passos, era como se ele flutuasse, quando ele chegava na quadra, já abriam espaço para ele.

Estas lembranças são um agradecimento a ele e a sua magia. Depois disso, estudei clássico, dança contemporânea, afro, regionais, danças orientais com Raquel Trindade, uma grande mestra, assim como foi seu pai Solano. Fui para a Europa e África, estudei muitas técnicas. Estas experiências compõem a minha proposta de Dança Negra Contemporânea. Vivo da dança, através de aulas, workshop e apresentações. Tenho artigos publicados no Brasil, Portugal, Taiwan, Estados Unidos, Finlandia, Cuba, Turquia, sobre dança, alguns com parcerias com importantes Academicos como Luis Enrique Aguilar e Angela Soligo, ambos da UNICAMP. Parcerias com Ballethnic de Atlanta – USA e o Grupo Suiço-Senegales ACAO.

Afropress – Faça as considerações que julgar pertinentes, inclusive, sobre a polêmica em torno do Prêmio Funarte de Arte Negra e a política de apoio a arte negra dos Governos.

CK – Este tipo de polêmica do Edital da Funarte, evidencia a sistema racista institucional que temos no Brasil. O Governo é branco, a Justiça é branca, a dança é branca, a arte negra é branca. Significa que, em um edital específico para arte negra, segundo as denúncias bem fundamentadas pelo Spirito Santo [o músico carioca que fez a denúncia de irregularidades] nas quais, alega que premiados não são negros e outros não tem currículos suficientes, são gravíssimas. Foram denúncias públicas, que o Ministério Publico demora a se posicionar. Primeiro requisito de seleção é currículo, anos de estrada na arte, comprovado e em atividade.

Neste requisito já se eliminariam vários questionamentos. Mas em um sistema racista institucionalizado, há necessidade de se criar brechas e não se admite erros no processo. As cotas nas universidades que foram adotadas tivemos problemas semelhantes. Os brancos estão tão acostumados com a impunidade que se inscrevem como negros, mesmo tendo olhos azuis. Esta mesma certeza ocorreu no Edital Funarte. No entanto, não podemos acreditar que são ações individuais, mas um processo político para desacreditar e  para acabar com estes editais específicos para negros e depois nos acusar de sua inviabilidade, a a inviabilidade destes editais é de quem frauda e não de quem denuncia.

Creio que a admissão de 40 projetos empatados, é acenar para um acordo e vamos deixar para lá. Talvez dizer, que os sete projetos com as notas rebaixadas foram injustiçados e para compensar este equívoco, surgirá a proposta de premiá-los tambem, e todo mundo esquece o ocorrido. Estas situações ocorrem em âmbitos regionais, onde os contemplados tem sua valorização nas parcerias com governos municipais, estaduais e federais e não mais o artista.

 

Da Redação