Impossível não iniciar esta nova fase da Afropress com uma saudação aos internautas e ao próprio Dojival Vieira: Mo juba! Esta expressão yorubá, que nos coloca em posição de deferência ao nosso interlocutor, pode ser traduzida como ‘Meus respeitos’ ou “Minhas reverências".

É o sentimento de respeito, não só pela realização do projeto de reformulação do portal, mas com a constatação de que manter um veículo de comunicação com a qualidade e credibilidade, conquistadas pela Afropress ao longo dos anos, não é tarefa fácil. Menos ainda quando sabemos que uma mídia independente e crítica se torna um ‘calo no sapato’ para alguns poderosos – acostumados a manipular (e)leitores, ouvintes e expectadores, através dos conteúdos selecionados para seus noticiários, movimentados com fartas e vigorosas verbas de publicidade.

Não é exagero dizer que desde o século XIX, com a fundação da Imprensa Régia, nossos mandatários escolhem muito cautelosamente os veículos (e seus donos) para realizarem investimentos. Nossa imprensa foi criada para ser uma portadora de convicções ideológicas e de defesa de interesses da Igreja, do Império e dos bons costumes. Em todo este tempo, nada mais natural que os veículos que se propõem a continuar defendendo ferranhemente esses interesses – econômicos ou políticos – sejam agraciados com benesses, hoje traduzidas em verbas de mídia e patrocínios.

Claro que isto não é uma acusação. É apenas uma constatação histórica. O jogo do poder – que no Brasil pode ser traduzido em votos para manutenção do ‘status quo’ dos grupos que ditam as regras e modelos para a sociedade – não pode excluir os veículos de comunicação. É por isso que a Afropress é tão importante. Só que pelos motivos inversos.

 Sem me atrever a discorrer sobre as inovações tecnológicas que experimentamos no portal  – frutos do investimento pessoal de seu editor-chefe e idealizador – afirmo que participar como colunista neste novo momento da Agência é, além de uma honra, uma enorme responsabilidade. Por que digo isso: estamos na contra-mão da história. Enquanto a grande maioria dos veículos de comunicação usufrui de fartas verbas de mídia dos governos e conglomerados empresariais, a equipe da Afropress mantém-se a parte dos compromissos inerentes ao toma-lá-dá-cá das negociações entre o que se ‘recebe’ no comercial e o que se ‘dá’ nas linhas editoriais.

Esta posição de se manter distante dos ‘grandes’ interesses – não é fruto do acaso. Ela é um processo de construção, solidificada durante a atuação política da equipe. Não abrimos mão de ser independentes e incompráveis – um neologismo possível para a atuação profissional dos jornalistas, advogados e colaboradores da Afropress. Pactuamos com a afirmação e valorização da diversidade e com a denúncia (e crítica) às desigualdades e ao racismo institucional, ambiental e original que assolam o Brasil. Estamos atualizados, possuímos um novo lay-out? Sim! Mas, não devemos nada a ninguém.

Nosso compromisso nasce exatamente desse sentimento de respeito à história daqueles que verdadeiramente merecem reverências: nossos milhares de leitores/internautas. Respeito aos princípios fundamentais pela luta por equidade entre as muitas cores deste continental país e a reverência necessária aos antepassados, representados pelas milhares de etnias africanas e  indígenas  – escravizadas ou não – que colonizaram essa pátria nem sempre gentil.

 

 

Rosiane Rodrigues