A opinião é do jornalista Dojival Vieira, editor de Afropress, que chegou a S. Paulo no sábado (26/11), depois de participar do I Seminário Nacional de Jornalismo Cultural promovido pela Universidade Eduardo Mondlane, de Maputo, Moçambique.
O jornalista chegou a S. Paulo procedente de Joanesburgo, em vôo da South African Airways, no final da tarde, depois de uma viagem de cerca de 10 horas, iniciada às 7h da manhã no Aeroporto Internacional de Maputo.
Para o editor de Afropress, a experiência foi extremamente rica, em todos os aspectos, e o ajudou a entender o que se passa hoje no continente africano. “A África tornou-se o centro e pólo de atração do mercado capitalista interessado em ampliar suas fronteiras, diante da maior crise desde 1.929. Esse quadro, em que um novo colonialismo se ensaia, é extremamente rico e desafiador para os africanos”, afirmou.
O Brasil, junto com a China, lidera a corrida para a África e empresas brasileiras como as Construtoras Odebrecht, Queiroz Galvão, a Vale do Rio Doce e Petrobrás exploram riquezas no continente, inclusive, em Angola e Moçambique, onde estão instaladas há alguns anos.
De acordo com levantamento do Itamaraty o Brasil tem embaixadas em 37 das 54 nações africanas, das quais 19 inauguradas durante os dois governos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
As trocas comerciais do Brasil com o continente pularam de US$ 5 bilhões (cerca de R$ 8,7 bilhões), para US$ 26 bilhões, em 2008 – quase metade dos US$ 56 bilhões do comércio entre Brasil e China em 2010.
Este ano, só nos primeiros seis meses, as trocas entre Brasil e África chegaram a US$ 29,5 bilhões.
Neo-colonialismo
Segundo o jornalista, historicamente, o continente foi vítima da exploração e da pilhagem colonialista, desde os primeiros mercadores, passando pela escravização de toda a sua força de trabalho – parte dela trazida à força para o Brasil – durante quatro séculos, terminando com a divisão do continente em territórios de influência pelas potências na Conferência de Berlim, em 1.885, para a pilhagem de suas riquezas naturais.
“Hoje quando o mercado capitalista, que agora se ergue em escala planetária, volta os seus olhos sobre a África, mais do que nunca é fundamental que os africanos estejam atentos para que não se repita a história que é conhecida de exploração, espoliação e pilhagem das riquezas africanas e do seu povo, sem nenhuma contrapartida”, acrescentou.
O contato e a troca de experiências com estudantes da Escola de Comunicação e Artes e com jornalistas dos veículos de comunicação de Maputo (Rádios, Jornais e TVs), segundo o jornalista abriram perspectivas muito concretas de cooperação.
“Os povos moçambicano e brasileiro tem afinidades em todos os campos, inclusive, por compartilharem a mesma língua. Me reconheci nas características do povo moçambicano, que apesar de 26 anos de guerra (10 pela independência e 16 de guerra civil) é extraordináriamente receptivo e acolhedor se mantém confiante no seu futuro”, salientou.
Jornalismo Cultural
O Seminário realizado entre os dias 21 e 26, com o apoio da Embaixada da Espanha, reuniu acadêmicos espanhóis, brasileiros e moçambicanos e jornalistas ligados a divulgação cultural e a comunidade da Escola de Comunicação e Artes.
Entre os palestrantes, jornalistas destacados da vida cultural de Moçambique como João Fumo, do Jornal Notícias, Belmiro Adamugy (Jornal Domingo), Policarpo Mapengo (O País), Jorge Oliveira, da Gazeta de Artes e Letras, e secretário geral da Associação dos Escritores Moçambicanos, Antonio Ndapassoa (Rádio Moçambique) Rosa Langa (Rádio Moçambique) e Frederico Jamisse, do Jornal de Domingo.
Também participaram dos painéis, o jornalista Ouri Patamutondo (Rádio Moçambique) Eric Charas (Jornal A Verdade On line), e o escritor e jornalista Nelson Saúte.
O Seminário foi aberto na segunda-feira (21/11) com a presença do reitor Orlando Quilombo e do embaixador da Espanha, Eduardo López Busquets.
Paralelamente, um grupo de jornalistas e estudantes de Jornalistas participaram de oficinas sobre Jornalismo Cultural, que tiveram como facilitador Rúben Caravaca. Alunos do Curso de Jornalismo, fizeram a cobertura entrando no ar ao vivo pela Rádio Universitária da Universidade.
Avaliação
O diretor da Escola, professor Natanael José Ngomane, que fez doutorado na USP e viveu oito anos no Brasil, fez um balanço positivo do Seminário.
“O estudante que chegou na segunda-feira para esse seminário não é o mesmo estudante que termina hoje este seminário. Ele tem mais luzes. Luzes que apontam não apenas para a imprensa escrita, ou para a imprensa radiofônica ou televisa, mas sobretudo luzes que apontam para os novos meios da mídia, as redes sociais, o face book, os blogs, internets, e-mails, incluindo o telefone celular. E isso prá nós é uma revolução”, afirmou.
Ngomane acrescenta que, além do aprendizado, os debates ocorridos durante a semana contribuirão para os que futuros jornalistas adquiram o domínio das modernas tecnologias.
“Toda gente sabe que a África é o continente mais atrasado em termos tecnológicos e científicos do mundo, mas, ao mesmo tempo, nós sentimos que esta é a época da época da Africa porque todos esses meios que eu falei já existem. E a Africa, ao lado da Asia, é o continente onde a internet é acessada mais vezes através do telefone celular, ou seja há condições. Esse seminário nos ensinou isso. O que nos resta agora? Começar a mostrar resultados. Efetivamente, nós podemos processar e divulgar, fornecer informação a comunidade para que ela por si mesma possa também processar e dar passos mais rápidos para o desenvolvimento do país. Acho que fundamentalmente isso que tornou o seminário positivo”, sublinhou.
Os professores João Miguel, coordenador Acadêmico, e Pascal Nkula, diretor do Curso de Jornalismo, consideraram que o Seminário foi fundamental para abrir os horizontes dos jovens estudantes de jornalismo moçambicano.