De lá pra cá, a despeito da resistência que atravessou todo o período colonial, dois impérios e avança por esta República construída sobre os escombros do escravismo, a luta por um Brasil sem racismo se deu de forma fragmentada; dependeu, em vários momentos, da ousadia de lideranças – umas maiores, outras menores; foi da Frente Negra, fechada em 1.937 pelo Estado Novo de Getúlio Vargas, ao MNU, em 1.978, marcando a retomada da luta no pós-ditadura.
A tradição de divisão e falta de unidade nos desarmou para enfrentar e derrotar o racismo cordial brasileiro – um inimigo sagaz e renitente que se mantém nas relações sociais, econômicas, políticas e culturais e que explica o fato de o Brasil ser o país de maior desigualdade no planeta.
Somos nós, o povo negro, uma maioria numérica. É impossível pensar o Brasil sem a nossa presença (e isso até mesmo brancos racistas, admitem), porém, ainda não conseguimos transformar essa maioria numérica, em presença social organizada, portanto, em força política capaz de impor sua própria agenda, e se tornar um interlocutor com peso nas decisões junto ao Estado – esse mesmo Estado republicano, que nos nega direitos e nos mantém à margem.
Quem comete o equívoco de privilegiar a relação e a ocupação dos espaços em Partidos, os que priorizam a ocupação de espaços em governos, estão abdicando de uma agenda própria, soberana, capaz de nos inserir em todos os espaços na sociedade pela porta da frente, como cidadãos portadores de direitos e não como massa marginal subalterna.
A realização de um Congresso Nacional, capaz de se constituir em espaço para a discussão e unidade em torno de um programa mínimo de lutas, e que resulte na mobilização nacional de todos os negros e negras e a escolha de uma direção nacional legitimada para falar em nosso nome é um enorme desafio. Só o início da discussão em torno desse tema, já merece ser saudado como um avanço.
Entretanto, é preciso que, desde logo, se defina que tipo de Congresso queremos. Queremos um Congresso-ônibus, onde todos (as) tenham espaço para explicitar suas posições, debater suas divergências, independente de quais sejam? Ou queremos um Congresso-kombi, onde cabem apenas a meia dúzia de pessoas, supostamente os portadores da verdade?
Essas questões são pertinentes, porque já é visível uma tendência ao “hegemonismo” observada na Plenária de S. Paulo, e confirmada na Assembléia do Rio, de setores, tanto do MNU quanto do bloco CONEN/UNEGRO, de confundir tempo de militância com direito adquirido para impor direção.
É como se tivessem uma espécie de carta branca, mandato delegado, não se sabe por quem para tomar decisões; uma espécie de tolerância-zero ao contraditório – base para convivência respeitosa em qualquer espaço que se pretenda democrático.
Se não, como se pode explicar que tenham sido reservados espaços para análises de conjunturas apenas a dirigentes da CONEN/UNEGRO/MNU, ignorando-se solenemente a existência de outras visões, de outras análises de outras posições?
O Movimento Brasil Afirmativo – articulação de lideranças negras e anti-racistas de base surgida em S. Paulo, e responsável pela convocação da Parada Negra – apresentou documento para o debate, com análise que advoga independência de partidos, autonomia em relação ao Estado e uma agenda soberana, capaz de aglutinar amplos setores da sociedade, inclusive os não negros, em torno de um programa de lutas para botar abaixo o edifício do racismo no Brasil. Foi ignorado.
A proposta das datas da sessão de abertura e de encerramento do Congresso, no entanto, foram incorporadas, sem que tenha sido feita qualquer menção da sua origem; e mesmo sabendo-se que, tanto a CONEN/UNEGRO, quanto o MNU, defendiam datas distintas – O MNU propunha o Congresso para novembro deste ano e a CONEN/UNEGRO para julho do ano que vem. Ou seja: incorpora-se a proposta, porém, omite-se a sua autoria, eis a repetição da velha prática autoritária.
A tendência ao “hegemonismo” é preocupante porque já é conhecida; não é nova, nem recente. Trata-se do velho oportunismo travestido de esperteza.
Tempo de militância, respeitabilidade dessas organizações e seus integrantes, não significa procuração para que ajam e atuem, em nosso nome; mais ainda: para que ignorem a contribuição de quem quer participar de forma construtiva, fazer o debate, disputar posições.
Admitir a continuidade de tais práticas seria o mesmo que aceitar – voltando ao exemplo do Congresso-ônibus – que um grupo se aposse da direção, sem estar habilitado e passe a traçar rumos e definir caminhos. Tais expedientes nada mais são do que resquícios de uma cultura autoritária e decadente que precisa ser denunciada como estamos fazendo, e rechaçada pelas lideranças mais responsáveis.
É a hora de dirigentes exercerem o papel que deles se espera com a sabedoria que devem ter os que se pretendem líderes. Paciência para ouvir; disposição ao diálogo com todos.
O Congresso dos Negros e Negras deve comportar todas as diferenças. É preciso convocar os intelectuais negros, os educadores e pesquisadores que tem uma contribuição importante no debate; os militantes das Organizações Não Governamentais, os Fóruns de Mulheres Negras, a juventude. A pluralidade sempre foi a marca do movimento negro brasileiro, que é o mais antigo do país.
Sem isso, não haverá Congresso dos Negros e Negras do Brasil, muito menos teremos um programa de unidade, menos ainda uma direção nacional legitimada para dirigir as grandes lutas que estão por vir. E estaremos perdendo mais uma oportunidade histórica. Mais uma.
Com a palavra os dirigentes que estão sucumbindo à tentação autoritária de tomar a direção do Congresso-ônibus. Sem procuração.