S. Paulo – A sala 813 no 8º andar do suntuoso Fórum João Mendes, no centro de S. Paulo, foi o cenário nesta quinta-feira (16/10) de uma luta que começou há quase 4 anos e não tem data prá terminar: de um lado, a poderosa rede de Supermercados Extra, uma das bandeiras do Grupo Pão de Açúcar, primeiro no ranking do comércio varejista do país; de outro, Célia Regina de Oliveira Vicente e Laudi Pereira Dourado, duas mulheres negras e pobres, da Zona Leste, periferia de S. Paulo.

Dona Célia é avó do menor M., hoje com 17 anos, e Laudi, mãe de W., agora com 16. Os dois  foram acusados de furto, por seguranças do hipermercado, quando ainda se encontravam na fila do caixa. Os garotos foram conduzidos a uma salinha e lá garantem terem sido agredidos físicamente, depois de obrigados a tirar a roupa. Também foram xingados de "negrinhos sujos", segundo contaram a Polícia, em depoimento no Inquérito que tramitou no 10º DP da Penha. 

O caso aconteceu no dia 13 de janeiro de 2011 e ganhou destaque na grande mídia, o que fez com que o empresário Abílio Diniz, um dos donos do Pão de Açúcar, se manifestasse. "A empresa rejeita qualquer atitude discriminatória", escreveu Diniz no seu twitter.

Ação

As duas mulheres entraram com ação de indenização por danos morais contra a poderosa rede, que se distribui por 15 Estados, nas regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste, Nordeste e Distrito Federal. O Grupo Pão de Açúcar (GPA) teve faturamento no ano passado estimado em R$ 64,4 bilhões, de acordo com dados da Pesquisa Ranking Abras 2014. 

Com roupinhas simples e calçando sandálias de dedo, dona Célia e Laudi se deslocaram da Zona Leste, acompanhadas do advogado Alexandre Mariano para serem ouvidas em audiência que demorou quase três anos para ser marcada. Elas não se conformaram com a decisão do hipermercado de indenizar apenas um dos menores agredidos – o menor T., a época com 10 anos.

O Extra pagou R$ 260 mil a família de T. por intermédio de um acordo extra-judicial, com o pai Diógenes da Silva, porém, nega-se a indenizar os demais, que passaram pelos mesmos constrangimentos e agressões, de acordo com depoimentos no Inquérito Policial. "Ora, porque nós não temos direito, se aconteceu a mesma coisa com os três", comentam enquanto conversam com o advogado.

Na audiência de ontem, a juíza Tonia  Yuka Koroku, da 13ª Vara Cível, perguntou se havia possibilidade de acordo entre as partes. O advogado Guilherme Luvizotto, representando o Extra, disse que não, não havia proposta e nova data foi marcada: 18 de novembro, às 14h30. Será mais um round de uma luta desigual. O advogado de dona Célia e de Laudi diz que o resultado da briga com o Extra vai demorar porque pelos padrões da Justiça brasileira, uma ação desse tipo pode durar de cinco a 10 anos.

As duas não se incomodam e dizem que voltarão: "Não vamos desistir", garantem, enquanto atravessam os amplos corredores do Fórum em direção aos elevadores, arrastando as sandálias havaianas, sem a menor noção do poder que estava representado do outro lado da mesa.

Como foi

Em janeiro de 2.011, M. e W. decidiram ir até a loja do Extra na Marginal Tietê, na Penha, acompanhados de T., à época com 10 anos. A idéia dos três era comprar refrigerantes até entrarem no radar dos seguranças como suspeitos: adolescentes negros numa loja buscando saciar a curiosidade com os produtos nas gôndolas, não havia dúvidas, estavam prestes a realizar pequenos furtos, raciocinaram seguranças treinados para ver em qualquer menino negro um suspeito em potencial.

No caso de M. e W., a acusação nem tinha razão de ser porque ainda estavam na fila do caixa quando foram retirados. T., cujo pai Diógenes da Silva, foi o primeiro a fazer a denúncia, provou que pagara pelo que havia comprado apresentando uma nota fiscal no valor de $ 14,65, que foi juntada ao Inquérito.

Segundo o advogado Alexandre Mariano, a atitude do hipermercado é totalmente imcompreensível. “Não se pode entender que a empresa tenha pago para um e queira ignorar os dois menores, que foram igualmente vítimas de violência por parte de seguranças”, afirma.

Mariano considerou positivo o fato de a juiza Koroku ter negado o pedido do Extra, que pretendia retirar do processo o contrato do acordo extra-judicial com a família de T. Foram os advogados da empresa que quebraram as cláusulas de confidencialidade do acordo, pedindo inicialmente que fosse juntado ao Inquérito Policial.

Dona Célia e dona Laudi não querem saber das tecnicalidades do processo, mas não tem dúvidas das razões para sair quantas vezes for preciso da Zona Leste até o Fórum da João Mendes: querem do Extra, pelo menos o que foi pago no acordo a família do menor T., em março de 2011, e adiantam que não estão preocupadas com o tamanho do gigante que estão enfrentando: "Só queremos Justiça. Só isso", concluem.

 

 

Da Redacao