Cessou o som simpático e festivo do tambor, tocado ao crepitar reluzente da fogueira, embalando velhas fábulas. O assunto sério mobilizou, acirrou posições, gerou polemica, estimulou debates, enfrentamentos, discórdia. No fim – nesse primeiro momento, o das definições – ficou tudo claro e preparado para o confronto: para a esmagadora maioria dos africanos “é incorreto” ser gay! – Aborto? Nem pensar! E a condenação por assassinato merece pena de morte sim senhor. O segundo momento veio marcado pelo distanciamento entre os pontos de vista manifestos pelos eleitores e as políticas oficiais adotadas por governos e lideranças religiosas. Para arrematar, sobressaiu o confronto no interior da igreja anglicana, envolvendo fieis “liberais do Norte” e o “Sul Global”. Saiu faísca para todo lado: “a caminho da Luz”, quem não gostou danou-se! E há quem não tenha gostado nada, nada, nada…
Na África do Sul, se a Constituição e o discurso político oficial protegem as “minorias sexuais” da discriminação, se dá legalidade ao aborto e mantêm a proibição à pena de morte, tudo isso ocorre à revelia do eleitor sul-africano – contra a opinião que deveria refletir.
O Conselho de Investigação em Ciências Sociais da África do Sul (CICS) conduziu em 2004 um estudo nacional em que entrevistou 5000 sul-africanos adultos com a intenção de sintetizar as “atitudes sociais” dos sul-africanos e “descobriu” que as políticas sociais adotadas pelo governo, no que se refere a assuntos de ordem moral, são “mais progressistas” do que “a opinião geral do eleitorado”: 78% dos sul-africanos maiores de 16 anos de idade acham as “relações sexuais entre pessoas adultas do mesmo sexo ‘sempre incorretas’”. Apenas um em cada 15 entrevistados aceita tais relações com normalidade.
O estudo revela significativas diferenças espaciais e raciais entre as opiniões morais dos sul-africanos em relação à homossexualidade: 64% dos descendentes de pais racialmente mistos, 70% dos brancos, 76% dos descendentes de indianos e 81% dos negros – segundo a classificação racial adotada ainda durante o regime de apartheid – desaprovam a homossexualidade. Geograficamente, os residentes de Estados rurais como o Limpopo e Easten Cape mostraram os índices mais elevados de desaprovação: 90%. Em Free State e Wester Cape – onde se situa a considerada “capital homossexual” da África do Sul, Cape Town – a percentagem total de desaprovação é de quase 75% da população.
E pensando no futuro, é significativo notar que as estatísticas não mostram grandes discrepâncias de opinião nos quesitos “idade” e “gênero”.
Maioria igualmente significativa rechaça o aborto: 56% dos adultos consideram-no “sempre incorreto”, mesmo nos casos em que se descobrem anomalias graves na futura criança. Apenas 21% admitem a possibilidade de aborto nessa condição especifica. Nos casos em que “a família tenha poucos recursos e não possa permitir-se mais filhos” a resposta é ainda mais contundente: 70% dos entrevistados acham “totalmente inaceitável” justificar o aborto pela pobreza. No entanto o aborto é permitido desde 1994 pela “Lei de Interrupção da Gravidez”.
A re-introdução da pena de morte – suprimida há apenas 10 anos – também se converteu em discussão política que envolve diversos partidos políticos da oposição. Segundo o estudo do CICS, 75% do eleitorado sul-africano é “fortemente a favor” ou “a favor”, com base na idéia de que se deve ter a pena morte como castigo cabível a um condenado por assassinato, um voto mais arraigado entre os brancos, as mulheres e os residentes no meio urbano.
Desmond Tutu, um dos sul-africanos mais destacado, antigo arcebispo da Cidade do Cabo e galardoado com o Premio Nobel da Paz, é das personalidades mais envolvidas nesse imbróglio. Referiu-se à homofobia como um “crime contra a humanidade” e “tão injusta” como o apartheid. Fez estas declarações durante a apresentação, no último mês de Julho, do livro “Sexo, amor e homofobia” na sede da delegação britânica da Anistia Internacional. Tutu redigiu o Prólogo do livro de autoria de um grupo de direitos humanos. “Lutamos contra o apartheid na África do Sul, apoiamos as pessoas em todo o mundo, porque as pessoas de raça negra estavam sendo condenadas por algo que não podiam entender: pela cor da nossa pele”, escreve o religioso. “Passa-se agora o mesmo com a orientação sexual”, acrescenta.
No livro, a Anistia Internacional divulga histórias de homossexuais de todo o mundo. Inclui, por exemplo, a história de Poliyana Mangwiro, uma lésbica que liderou a Organização “Gays e Lésbicas do Zimbábue” contra os protestos do Presidente Robert Mugabe que alega que “a homossexualidade contraria as tradições africanas”. O infortúnio de Simon Nkoli, um ativista sul-africano do ANC também aparece no livro. Consta que depois de amargar quatro anos na cadeia durante o regime de apartheid dedicou-se à luta pelos direitos dos homossexuais na África do Sul. Agora é o seu próprio povo que não lhe deixa em paz. Um exemplo de vida obviamente pouco dada ao sossego.
O livro inclui histórias de ódio, medo e perseguição relatados desde países como a Nigéria, Egito, Sudão, Mauritânia, entre outros. Para Tutu, estas “forças destrutivas” são um mal. “Um pai que inculca numa criança que o racismo é um dano à comunidade em que vive e danifica nossas esperanças de um mundo melhor; um pai que ensina a uma criança que há apenas uma orientação sexual válida e que qualquer outra é malévola, nega a nossa humanidade e a si mesmo”, escreve Tutu.
O religioso sul-africano explicou que não teria podido lutar contra a discriminação promovida pelo apartheid e não faze-lo também na luta contra a discriminação sofrida pelos homossexuais. “Estou orgulhoso de que na África do Sul, quando conseguimos a oportunidade de elaborar a nossa própria Nova Constituição, os direitos humanos de todos ficaram explicitamente reforçados em nossas Leis”, sublinhando a sua esperança de que tal ocorra também em outros países africanos. Saliente-se que a África do Sul é o único país do mundo onde é garantida constitucionalmente a igualdade de direitos de todos os matrimônios, independentemente da orientação sexual. É esse quadro legal que contrasta frontalmente com a opinião da maioria esmagadora dos eleitores sul-africanos e com a quase totalidade dos países africanos onde a homossexualidade é descriminada pela própria lei.
“Em todo o mundo, lésbicas, gays, bissexuais e transexuais ainda são perseguidos. Tratamo-los como parias e rechaçamo-los das nossas comunidades. Fazemos com que duvidem que também são filhos de Deus e essa deveria ser a última blasfêmia. Culpamo-los pelo que são” denuncia o arcebispo. Mas contra Desmond Tutu, predomina uma visão generalizada entre os seus próprios pares eclesiásticos. “As igrejas dizem que a expressão do amor numa relação monogâmica heterossexual inclui o físico, o tato, o abraço, o beijo, o ato genital. A totalidade das nossas demonstrações de amor faz crescer a cada um de nós, faz-nos cada vez mais divinos e compassivos. Se este é o caso para os heterossexuais, que razão haverá para que não seja o mesmo caso para os homossexuais?”, desafia Tutu.
O desaguisado nada pacífico acabou submetido a apreciação celestiais. Também surpreendidos e desafiados pelo tema e pelo acirramento das posições, os representantes de Deus na Terra reunidos sob a bandeira da Igreja Anglicana discutiram, zangaram-se, licenciaram-se da compostura. Tem gente mandando o outro ver se “estou na esquina”. O conflito ameaça dividir de vez a Comunidade Anglicana Global.
Njongonkulu Ndungane, o arcebispo da região sul da África – que representa Angola, Lesotho, Namíbia, Moçambique, Santa Helena, África do Sul e Suazilândia – defende abertamente a inclusão de homossexuais na Comunidade eclesiástica o que lhe coloca, como a Desmond Tutu, na primeira linha do conflito com outros lideres africanos.
Ndungane decidiu liderar a defesa contra um manifesto homofobo escrito pelos arcebispos da Nigéria, República Centro Africana e Ruanda onde exige uma discussão menos hostil sobre “a sexualidade humana”. Essa questão, mais exatamente o papel dos gays e lésbicas na Igreja Anglicana, ameaça, desde 2003, dividir a comunidade entre “liberais do Norte” – leia-se países desenvolvidos – e “conservadores dos Países em Vias de Desenvolvimento”, onde a África do Sul de Ndungane se destaca como exceção.
A igreja de Truro, em Fairfax – um subúrbio de Washington – reuniu, em Julho deste ano, mais de sessenta lideres internacionais para discutir essa “sexualidade humana”. Na altura a controvérsia centrava-se na eminência da Convenção Geral da Igreja Episcopal dos Estados Unidos promover o cônego Gene Robinson – o primeiro homem abertamente gay – à categoria de bispo anglicano. A controvérsia virou preocupação diante da possibilidade de que durante a Convenção Internacional Anglicana se pudesse aprovar a “bendição das uniões entre pessoas do mesmo sexo”.
O “lobby conservador” foi conduzido pelos arcebispos Peter Akinola da Nigéria, Bernard Malango da República Centro Africana, Emmanuel Kolini do Ruanda, Yong Ping Chung do Sudoeste de Ásia e Peter Jensen da Austrália, autores do tal manifesto em nome do “Sul Global”.
Pois enquanto ainda se digeriam os efeitos da contenda, o arcebispo da Igreja Anglicana do Uganda, Henry Lucas Orombi, anunciou que a sua igreja decidira devolver todos os financiamentos e ajudas obtidas de Agencias americanas depois que tivesse sido “consagrado como bispo um homem que mantém uma relação homossexual ativa” nos Estados Unidos da América. “Por favor, não nos enviem mais dinheiro”, rogou o arcebispo repugnado. E rompeu, “a comunhão” com a Igreja Episcopal Anglicana dos EE.UU. “até que se arrependam das suas ações”.
Estabelecida a guerra, o arcebispo Orombi liderou um movimento de aproximação e estreitamento de relações com a ala eclesiástica norte-americana que também se opõe ao acolhimento da comunidade gay no ceio da comunidade anglicana. Na seqüência promoveu a “independência espiritual” da Igreja ugandesa através do estímulo da independência econômica em relação às igrejas ocidentais mais ricas e favoráveis aos homossexuais. Desde Novembro de 2003 por exemplo, não é permitido às congregações anglicanas ugandesas receber concessões ou doações vindas dos EE.UU..
Esse movimento pró-independência é descrito como “renascimento leste-africano da Igreja do Uganda em direção à Luz”.
Orombi pediu “respeitosamente” à Agencia de Desenvolvimento Episcopal que “não envie mais nenhuma concessão a nenhuma igreja ou instituição da diocese de Uganda, “agradeceu” as ajudas recebidas em 2001, 2002 e 2003, “antes da consagração como bispo de um homem que mantém uma relação homossexual ativa” e expressou apoio aos membros conservadores da Igreja Anglicana dos EE.UU. que também romperam relações com a direção “herética” da igreja.
Temendo as conseqüências, os “hereges” enviaram missões de boa vontade em direção ao Uganda. Mas qual quê?…

Francisco César Almeida