O Mês da Consciência Negra é um tempo de refletir, denunciar e lutar. Mas além do aniversário da morte de Zumbi, é no mês de novembro que também se vive o Dia Mundial Vegano. Acontece que quando esses dois temas se juntam, nem sempre dá bons resultados.

E, na verdade, a maioria das vezes que vi pessoas falando dos dois assuntos juntos nos últimos tempos, era para denunciar episódios de racismo no meio do movimento vegano. Mas eu acredito que dá para ir além nessa combinação. Deixando de lado o meu receio de entrar nesse campo minado, trago aqui um pouco do que venho pensando, a fim de somar. Não como um especialista nesse assunto, mas enquanto sujeito negro brasileiro e vegano.

(Para quem nunca ouviu falar sobre veganismo, eu deixarei algumas sugestões de leitura ao longo do texto, mas trata-se basicamente de uma proposta, de um modo de vida que não se baseie em exploração ou crueldade contra animais, seja na alimentação, vestuário, lazer, ou qualquer outra área da vida.)

Apesar de todos os retrocessos que o país vive hoje, é perceptível também o avanço de um pensamento crítico e antirracista entre os negros. Esse processo não é linear, é contraditório, e não é o foco desse texto, mas reconhecer isso é importante, pois é a partir daí que o movimento vegano pela libertação animal começa a receber críticas que não estava acostumado receber. Uma delas é pelo racismo que algumas de suas bandeiras e ações possuem.

Entre elas estão as ações para criminalização de religiões de matriz africana e afro-brasileira que possuem ritos envolvendo animais. Outro exemplo são as comparações entre negros escravizados no passado e vacas ou porcos confinados hoje, sem qualquer cuidado em saber o que as pessoas que participam destas religiões e nem daquelas que são atravessadas pela história da escravidão no Brasil acham disso.

É fácil entender essa baixa empatia e ausência de diálogo. Tudo fica mais claro quando você busca saber quem é que geralmente são os adeptos do veganismo no Brasil: pessoas de bom poder aquisitivo, brancas em sua maioria, e geralmente de bairros mais “nobres”. Quando pensamos que o veganismo é praticado no Brasil há muitos anos e que em nenhum momento esse movimento procurou dialogar com outros segmentos da população, entendemos como foi também se formando como nicho de pessoas com as mesmas características socioeconômicas e, quando isso acontece, o risco de posturas violentas para com outros grupos populacionais e movimentos sociais fica ainda maior.

O exemplo mais recente de que tenho notícia foi quando, na Audiência Pública sobre a proibição das vaquejadas, a ex-modelo e atriz global Alexia Deschamps gritou aos vaqueiros para que se calassem, pois ela pagava Bolsa-Família para os nordestinos.

O fato é que episódios como esse produzem um sentimento de indignação muito forte por quem é alvo desse tipo de violência, acirra os ânimos e dificulta o debate. Essa falta de diálogo e acirramento resulta em tantos problemas que não conseguimos sequer parar e pensar: “Calma aí. Veganismo não é sobre hostilidade contra grupos humanos, é sobre respeito às vidas dos animais. Essas pessoas que trouxeram posturas racistas, hostis, elitistas contra grupos humanos não estão sendo veganas, estão sendo preconceituosas mesmo”.

O veganismo é, antes de qualquer coisa, uma ideia, um princípio. O que as pessoas que se dizem defensoras de uma ideia fazem, não necessariamente tem coerência com ela. Nada de novo sob o sol. Nenhuma exclusividade do movimento vegano. Mas o que me levou a escrever esse texto então? Foi perceber que o antes era pra mim motivo de orgulho passou a se tornar motivo de constrangimento, sobretudo nos espaços dos movimentos negros.

Por trás desse constrangimento vinha a ideia de que ser vegano passou a ser coisa de gente racista, e que isso não era para pessoas negras. Isso vinha me causando um desgosto muito profundo, porque sempre lutei contra a quebra de grilhões. Fossem eles os da escravidão histórica, do trabalho escravo que ainda persiste no nosso país e no mundo, do encarceramento penal, e por isso era mais do que coerente para mim ser contra acorrentar animais em qualquer situação.

Sempre me senti bem com essa ideia, pois sinto que essas se interligam pelo fim da violência e do não reconhecimento do outro e seus direitos. Para mim, a consciência negra que adquiri e a consciência vegana se fortaleciam mutuamente, num processo de busca de expansão da minha consciência como habitante desse planeta terra que divido com tantos outros seres semelhantes e diversos de mim.

Mas a realidade não é essa que está na minha mente. O movimento vegano continua sendo elitista, praticando racismo e outras formas de violência também, e o mês continua sendo novembro, o Mês da Consciência Negra. E é no mês dessa consciência que quero pensar a partir de um viés racial. O que me inspirou a escrever esse texto foi a notícia vibrante de que um refugiado do Congo abriu um restaurante vegano de comidas tipicamente congolesas.

Isso abriu na minha mente um portal de reconexão com os nossos costumes africanos estilhaçados na diáspora. Fiquei também me lembrando das falas de Angela Davis, que vi pessoalmente em Brasília, e que vejo nas gravações na internet, chamando seu público a tímidas reflexões a respeito, e nesse outro vídeo, falando explicitamente de sua escolha vegana.

Ouço os discos dos pan-africanistas do Dead Prez e suas letras sobre antirracismo, anti-especismo e anticapitalismo de forma extremamente articulada, assim como vibrei quando a vi a entrevista de Ellen Oléria no Programa do Jô, falando de sua decisão de se tornar vegana logo após a final do The Voice. Recentemente ela deu uma entrevista extremamente simples e profunda ao canal Empoderadas, e o veganismo era apenas um dos diversos temas importantes dos quais ela tratou, e todos eles fluíam como assuntos de importância para uma mulher negra e artista como ela.

E o meu mentor, que não é um acadêmico, mas sim o DJ KL Jay, dos Racionais MC’s, que me inspira todos os dias com seu lema “ Estamos Vivos! ”, também é vegano. Nessa entrevista aqui ele fala um pouco mais sobre isso.

Ao longo de mais de uma década nessa tentativa de praticar o respeito, a empatia e a compaixão com quem está ao meu redor, sejam pessoas em sua diversidade, ou sejam animais em sua diversidade, independente do ismo que isso seja chamado, o que eu percebi é que, assim como nossos problemas estão interligados, a solução para eles também está. Ou nas palavras da escritora Alice Walker, em uma entrevista para a Vegetarian Times, ainda em 1989: "Os animais do mundo existem para seus próprios propósitos. Não foram feitos para os seres humanos, do mesmo modo que os negros não foram feitos para os brancos, nem as mulheres para os homens".

Imagem: Capa do livro “Sistah Vegan: Black Female Vegans Speak On Food, Identity, Health, and Society”. A autora, Breeze Harper, é uma feminista negra norteamericana, também organizadora da conferência “The Vegan Praxis of Black Lives Matters”, realizada em 2015, entre outros projetos.

   

Leonardo Ortegal