Ribeirão Preto/SP – O presidente do Centro Cultural Orunmilá, de Ribeirão Preto, Paulo César Pereira de Oliveira, que recentemente deixou o PSDB em protesto pelo que considera descaso do Governo do Estado com a população negra, enviou Carta Aberta aos membros do Colegiado, do qual faz parte, formalizando a proposta da renúncia coletiva e propondo que após o ato “entreguem a chave do Conselho” no Palácio dos Bandeirantes.
Segundo ele, o Conselho está sucateado e não há nenhuma possibilidade de reformá-lo e vinha servindo como “um aparador de demandas” do Governo do Estado que não tem qualquer política pública para os 12,5 milhões de negros paulistas. “É hora de nos reunirmos, renunciarmos coletivamente e entregarmos a chave para o Lobo (José Henrique Reis Lobo, Secretário de Relações Institucionais de Serra, a quem o Conselho está subordinado) para que ele guarde num cofre para os próximos 500 anos”, afirmou. A indignação dos conselheiros começou depois que Lobo disse que “ações afirmativas só em 500 anos”.
Paulo César disse que toda a delegação de Ribeirão Preto virá para a Conferência Estadual de Promoção da Igualdade Racial – preparatória da Conferência Nacional – para transformá-la numa grande manifestação, não só contra o Governo do Estado, mas também contra certas posturas do Governo Federal com as quais discorda.”O momento é esse para uma resposta à altura. É hora de fazermos política negra para além dos Partidos”, afirmou.
Segundo ele, todas as lideranças negras de Ribeirão abandonaram o PSDB. “Em Ribeirão Preto não fica nenhum negro no PSDB. Não apenas eu saí, muitas outras lideranças representativas também pediram sua desfiliação”, acrescentou.
Veja, na íntegra, a Carta Aberta encaminhada aos conselheiros que se reúnem nesta sexta-feira, 05/06
Após ler no Afropress a matéria “Serra bota Marrey para abafar crise no Conselho de negros”, fui dormir e acabei sonhando.
Sonhei com africanos acorrentados no porto de Huyda esperando o embarque;
Sonhei com mulheres negras se jogando com seus filhos no atlântico para não serem escravizadas;
Sonhei com os meninos chamados manequinhos que serviam de brinquedos e para iniciação sexual dos sinhozinhos;
Sonhei com as mulheres negras sendo estupradas por seus senhores;
Sonhei com os negros que suicidavam, sonhando com a volta à mãe África através do ORI, sacrificando a própria vida na luta contra a escravidão, tendo as suas cabeças cortadas;
Sonhei com os negros sendo chicoteados no pelourinho;
Sonhei com os negros que, no pós-abolição, erraram por vários caminhos sem poder entrar nas cidades sob o risco de serem presos pela lei da vadiagem;
Sonhei com as nossas crianças que tiveram a maioridade penal abaixada de 14 para 09 anos, em 1891, logo após a Lei Áurea, por causa das teorias racistas de Nina Rodrigues segundo as quais teríamos tendência precoce para o crime;
Sonhei com os sambistas sendo perseguidos pela polícia, como no samba do delegado Chico Palha “ele não prendia, só batia, ele não prendia…”;
Sonhei com os nossos religiosos africanos tendo seus tambores rasgados e sendo conduzidos à polícia ou a hospitais psiquiátricos;
Sonhei e revi as chacinas que vitimam nossos jovens negros da periferia cotidianamente;
Por fim, sonhei com a reunião do CPDCN no próximo dia 05/06 (sexta-feira). Em meu sonho, que já não parecia o pesadelo das imagens anteriores, éramos um colegiado de negras e negros altivos, libertos, novos quilombolas, que renunciaríamos a essa posição de subalternidade, que ao invés de irmos em procissão fúnebre reverenciar o secretário de justiça, assinaríamos uma carta renúncia coletiva e entregaríamos a chave da sala do conselho, a quem nos aconselhou a esperar 500 anos para que alguma ação fosse feita para reparar nossa história de ignomínia.
Senhores conselheiros, senhoras conselheiras, AMANHÃ EU CONHECEREI OS SEUS SONHOS !
Ribeirão Preto, 04 de Junho de 2009.
Paulo César Pereira de Oliveira

Da Redacao