4 de junho de 2013 – Em "Amor à vida": César tem histórico de traições, filha bastarda e armou casamento para o primogênito. Médico ou monstro? César tem ficha suja e passado negro – Postado por Lenix Barbosa. 

Fonte:

http://www.msnoticiasnews.com.br/?act=ReadNews&codi_materia=80828

Algumas expressões me chamam a atenção de uma forma tão provocadora que eu não me contenho, fico com a necessidade de compartilhar, de discutir, de refletir. Em relação à frase “César tem ficha suja e passado negro”, meu questionamento e intriga tem a ver com o termo negro, que no contexto está associado à atos desqualificados praticados por César.

Pode parecer que minha indignação é infundada, visto que há uma tendência a naturalizarmos certos tipos de falas, sem nos darmos conta de que podemos estar reproduzindo terminologias carregadas de preconceito, um lastro que a nossa história deixou e que custa a ser apagado.

Os estereótipos[1] construídos para que o processo de escravidão do povo negro, uma das piores perversidades cometida pela humanidade, fosse aceito, visto como natural, serviu para manutenção de um sistema fundado no dualismo: superior-inferior, que qualificava povos brancos como superiores e povos negros como inferiores. Tais teorias objetivavam estabelecer a dominação de maneira justificável e foram criadas e propostas por setores da sociedade, como a Igreja e a academia, a partir da necessidade de colonização e exploração de nações e povos.

Henrique Cunha Jr. nos informa que,

Todas as igrejas cristãs européias participaram das agressões contra os povos africanos depois da iniciativa da Igreja Católica. (…) os motivos da Igreja Católica não eram apenas religiosos. A igreja lucrava com a exploração do escravismo. Bispos na Europa participaram do tráfico de cativos. A Igreja mesmo teve muitos escravos em várias partes do mundo. O texto bíblico foi deturpado e utilizado por varias igrejas cristãs para justificar a sua posição com relação ao escravismo dos africanos. Os falsos argumentos eram retirados de interpretações de passagens bíblicas para dizer que os negros não tinham alma ou que eram os povos destinados pela Bíblia a serem escravos.

Cabe informar que em 1994, o Ministério da Educação divulgou um estudo que atestava que os livros didáticos estimulavam o preconceito. (…) Estudiosos como Fulvia Rosemberg (1985) e Ana Célia Silva (1988) mostram que, nas poucas vezes em que apareciam, os negros estavam associados a figuras demoníacas, desumanizadas, ou eram mostrados realizando tarefas subalternas e desvalorizadas. Um dos mais importantes veículos de reprodução do estereótipo, do preconceito e do racismo na escola é o conteúdo dos livros de História.  (BENTO, 2006)

Neste sentido, a ideologia do racismo se tornou uma espécie de conveniência, pois atendia, de forma inquestionável, aos anseios de grupos que almejavam conquistar, única e exclusivamente, o poder. Apesar de tais idéias serem datadas, no Brasil, do século XIX, os métodos de inculcamento, utilizados sob a forma de discurso, tiveram tanta força que perduram até os nossos dias. Destarte, cabe aqui uma análise feita por Clyde W. Ford[2]:

Há um momento tocante no filme Malcolm X em que mostram um dicionário a Malcolm, na prisão, com a definição da palavra negro. Sente-se que ele percebe de imediato o imenso fardo carregado pelos afro-americanos relacionando semântica e valores culturais; toda definição de negro é negativa, enquanto toda definição correspondente de branco é positiva. Substitua qualquer dos sinônimos para a palavra negro encontrado no dicionário para a expressão “povo negro”. Assim, você terá uma idéia do poder oculto nos termos que usamos ao nos referirmos a nós mesmos e aos outros. Mas nós, como Malcolm X, fechamos o dicionário e aceitamos as definições, deixando de perguntar por que será que negro e branco carregam pesos tão diferentes.

Considerando que a luta do movimento negro, iniciada desde a captura em África, é árdua, legítima e cada vez mais qualificada, podemos contar com estudos acadêmicos, em diversas áreas, que contribuem para o enfrentamento e combate ao racismo, a partir da desconstrução de mitos, estratégias para lidar com situações em que esta violência é manifestada, reconhecimento de que a vítima desta agressão pode ter diferentes reações, inclusive, ser tomado por um estado de imobilidade e desenvolver um processo de somatização do sofrimento.

Retomando a questão do termo negro, das falas estereotipadas, pensamos ser pertinente chamar a atenção para o que Hanna Arent nos informa:

No homem, a alteridade e a distinção tornam-se singularidades, e a pluralidade humana é a paradoxal pluralidade dos seres singulares. No mesmo sentido, a ação é representativa da vida, e sem palavra e sem ação, a vida está literalmente morta para o mundo; deixa de ser uma vida humana, uma vez que já não é vivida entre homens, pois é com palavras e atos que nos inserimos no mundo humano, e esta ação é como um segundo nascimento. (2001,p.189)

Destarte, penso que temos uma grande responsabilidade, sobretudo, quando transmitimos uma informação utilizando veículos de comunicação que conquistaram credibilidade, pois podemos, mesmo sem nos dar conta, reproduzir falas e discursos carregados de preconceito e assim, estar contribuindo para a perpetuação de um mal. De acordo com Oliveira[3]: Na ação e na linguagem (que é discurso) é que os homens se revelam. Revelam suas identidades pessoais e singulares.

Referências bibliográficas do texto.

1 – De acordo com a professora Cida Bento, o estereótipo é algo que funciona quase como um carimbo, a partir do que a pessoa é vista através de uma marca, pouco importando como realmente ela seja; 2 – O Herói com Rosto Africano, São Paulo, Summus, 1999, p.34; 3 – Identidade do jovem negro e metrópoles: enunciados da diáspora em São Paulo e Paris. Oliveira, Regina Marques de Souza, in A cidade e o negro no Brasil – Cidadania e território. Reinaldo José de Oliveira (org.), São Paulo, Alameda, 2013.

 

 

 

 

Adriana Szmyhiel