Afropress – Como recebeu a escolha para substituir o doutor Hédio à frente da Secretaria, e virar a primeira mulher negra na história de São Paulo assumir este cargo?
Eunice Prudente – Muito contente mas, muito preocupada. Primeiro, pela seríssima liderança do doutor Hédio Silva Jr., uma pessoa que conseguiu alinhar conhecimentos, formou-se jurista, doutor em Direito mas não se esqueceu do seu ativismo pelos Direitos Humanos em pleno Movimento Negro.
Recebi com alegria, mas preocupada, sabendo da gravidade das questões que já estou enfrentando.
Afropress – Quais serão suas prioridades à frente da pasta?
Eunice – Meu compromisso primeiro é dar continuidade aos projetos que estão sendo implementados pela Secretaria da Justiça em torno da questão das comunidades remanescentes de quilombos, alcançar todas as formas discriminatórias, principalmente o racismo, a discriminação racial.
As prioridades são no sentido de socializar. Socializar uma responsabilização para com a reeducação de crianças e adolescentes. A Febem tem classe social e tem cor e eu quero enfrentá-la! Enfrentar esta situação! Todos que estão ali são nossos filhos! A forma já prevista por uma advogada, muito hábil, muito preparada que é a doutora Berenice Giannella, nós queremos continuar. Há que descentralizar. Essas crianças e adolescentes precisam ser reeducados nas suas cidades, nas suas regiões, próximas da sua cultura, das suas origens e, principalmente, das suas famílias. Portanto, descentralizar o atendimento a esses internos da Febem é uma bandeira.
Sou conhecedora de resistências e da falta de informação por parte de muitos que são contrários à esta idéia mas, chamo à atenção para a responsabilidade política e social de todos nós para com essa questão que é nossa! É educação, só que no caso esses adolescentes que são iguais a nossos filhos, aos nossos sobrinhos, praticaram atos danosos e precisam agora serem reeducado mas são pessoas, seres humanos dotados de dignidade.
Unidade da Febem nem é cadeia pública, não há motivo para rejeição muito pelo contrário a comunidade tem que abraçar este seu lado mais espinhoso.
Afropress – Como é que a Secretaria pode atuar para reduzir os índices de violência, que atingem principalmente a população negra?
Eunice – Levando a informação. E para isso temos os nossos CIC´s – Centros Integrados da Cidadania. Os projetos da Secretaria que têm lá profissionais, muitos oriundos do Movimento Negro, muito bem preparados, já com esta disposição. E também denunciar, denunciar todas as formas discriminatórias, denunciar a discriminação racial. Um posicionamento firme contra as formas discriminatórias é o ponto de partida para se alcançar a questão de violência e buscar extingui-la.
Afropress – Como a senhora pretende atuar no sentido de estimular a participação da mulher negra na vida política? E como avalia este quadro?
Eunice – O quadro, graças, sem dúvida alguma, à ação dos movimentos sociais, Movimento Negro, Movimento Feminista é melhor. Nós temos, inclusive, hoje instituições que são feministas e que reúnem mulheres negras. Eu acredito que uma maior ou melhor participação da mulher negra já é uma realidade, mas pode ser melhorada com uma atividade mais firme, e lá está um espaço político mais firme da Secretaria da Justiça para que essas mulheres, essas lideranças, principalmente do Movimento Negro, Feminista, levem essas idéias às mulheres.
Já temos cotas nos partidos políticos para uma participação mais representativa, mais ativa para as mulheres. É preciso que esta informação chegue também às cidadãs negras. Eu acho que isso é muito importante!
Eu pessoalmente não tenho filiação partidária, não tenho perfil para legislador mas conheço muitas mulheres negras que o tem.
Afropress – Como a senhora vê a presença do Movimento Negro hoje em São Paulo e no Brasil?
Eunice – Eu penso como um dos aspectos mais positivos da nossa convivência. O Movimento Negro, sempre foi um movimento social muito importante. Eu o vejo como quase 400 anos de atividade quilombola. Depois em um momento da cidadania do negro, é este Movimento Negro que informa, que enfrenta a discriminação racial e que leva e exige de outros movimentos sociais, movimento dos trabalhadores, movimento feminista, etc, que lembrem da questão racial e, vejam: o Movimento Negro é um movimento social antigo, sempre presente na nossa sociedade e sempre chamando a atenção de todos para o Estado de Direito, para cidadania, para uma ação dos governos que existem para isso, para proteger e defender os cidadãos, inclusive contra a discriminação racial. Então, o Movimento Negro, no Brasil, é um movimento social esclarecido, bastante ativo, construtivo. Se estou hoje à frente desta secretaria, é sem dúvida alguma é resultado de ações políticas do Movimento Negro.
Afropress – Sobre as ações afirmativas, a Secretaria deu bastante ênfase na gestão do doutor Hédio. A senhora pretende dar continuidade ao trabalho ou tem novas idéias para implementar?
Eunice – Dar continuidade. Considero plenamente constitucional a prática de ações afirmativas, pretendo dar continuidade, chamar atenção e ocupar este espaço político da Secretaria para efetivar as universidades públicas, principalmente as do Estado de São Paulo, as cotas, para estudantes oriundos das escolas públicas, para estudantes afrodescendentes entre outras providências. Dar continuidade e colocar já em execução o que já foi pensado e criado.
Afropress– A senhora pretende de alguma forma participar da campanha política do doutor Hédio?
Eunice – Não. Infelizmente como Secretária da Justiça, como integrante do Governo não posso participar e não devo. É proibido em lei qualquer ativismo político partidário mas desejo do fundo do coração muito sucesso àquele honrou e representou tão bem a etnia afrodescendente perante o Governo do Estado de São Paulo.
Afropress– A senhora estava à frente do Procon e o trabalho que fez, teve uma leitura muito diferenciada, principalmente no aspecto da diversidade. Gostaria que a senhora fizesse um balanço entre o que foi apresentado no Procon e o que está trazendo para a Secretaria de bagagem.
Eunice – Sem dúvida alguma muita experiência, mas é verdade que lá na Fundação Procon, em primeiro lugar, a entrega dos cargos de confiança para os funcionários de carreira da Fundação. Isso, desde que chegamos lá fomos, aos poucos passando os cargos, inclusive as diretorias. São seis diretorias, apenas uma por algum tempo ainda vai ficar com uma pessoa que não é de carreira, mas as demais todas para os funcionários de carreira e também nos cargos de confiança observar a diversidade étnica do nosso país. Isto está de fato ocorrendo no ocorrendo na Fundação Procon e também pretendo trazer para a Secretaria.
Afropress– Uma grande bandeira foi a luta contra a publicidade discriminatória. A senhora tem alguma maneira de incrementar este trabalho, trazendo a Secretaria também por uma política pública?
Eunice – Sim. Como a publicidade positiva em pouco tempo informa, educa quando ela é negativa como é o caso da publicidade abusiva discriminatória, ela deseduca e traz um prejuízo social significativo pelo contingente, pelas coletividades determinada ou indeterminada que ela consegue alcançar e deseducar em pouco tempo.
É preciso combatê-la, sim, e na Secretaria vamos dar continuidade e todo apoio à Fundação Procon que tem agora também essa bandeira de enfrentar a publicidade discriminatória e cuidar de danos morais oriundos deste tipo de publicidade danosa.
Afropress– A senhora tem uma história pioneira na Academia, conquistou cargos importantes em São Paulo e esta posição tem sido muito festejada, principalmente entre as mulheres negras. Qual a mensagem que a senhora deixa para essas pessoas que também estão tentando alcançar uma posição social compatível, que seja de igualdade racial?
Eunice – Que encontramos obstáculos pela frente, e que encontramos enquanto mulheres negras essas formas discriminatórias, é uma realidade. Acreditar que o Brasil é uma democracia racial já é um ponto para trás, retrocesso. Temos que acreditar em uma realidade, que estamos em uma sociedade discriminatória a participação nos movimentos sociais, principalmente fortalecer o Movimento Negro é imprescindível para qualquer cidadã negra que queira fazer uma carreira profissional e depois também a tenacidade; não pode desistir. É preciso ter auto-estima, confiar, ser uma cidadão exigente, exigir o respeito, denunciar a discriminação. Essa é minha mensagem!
Afropress– A senhora disse que não tem pretensões políticas mas ocupa um cargo na gestão pública. Como é que a senhora está passando esta responsabilidade que o governador Cláudio Lembo delegou à senhora?
Eunice – Passando no sentido de assumir os problemas que estão à volta da nossa sociedade. Neste momento nós temos a questão da terra, a questão da criança e do adolescente infrator, a questão do consumidor. São muitas questões políticas à serem enfrentadas, é preciso trabalhar o administrador público que é esta minha posição, precisa executar as leis, precisa ser honesto, honestidade é fundamental no trabalho sobretudo neste grande Brasil, com tantos acontecimentos nos envolvendo. Sobretudo, deixar bastante transparente a atuação de todos os trabalhos e atividades da Secretaria da Justiça. É preciso que todo povo saiba o que se está fazendo, é preciso que todo o povo saiba quantos cargos em comissão existem, quem está à frente destes cargos. É preciso que todos tenham conhecimento do orçamento como vem sendo executado, da situação de contratos administrativos; então a transparência da atividade de um administrador público é um dos meus compromissos com o governador Lembo.