Campinas/SP – O coordenador de Organização do Movimento Negro Unificado (MNU), Reginaldo Bispo, saiu em defesa da proposta lançada pelo jornalista Márcio Alexandre, coordenador geral do Coletivo de Entidades Negras (CEN) de uma Conferência do movimento negro e antirracista, independente do Governo e de partidos, com pauta própria, e que se contraponha a oficial convocada pela SEPPIR, entre os dias 05 e 07 de novembro deste ano, em Brasília.

Na proposta de Márcio Alexandre (ver matéria “Conferência paralela é a única alternativa para MN, diz dirigente – edição de 31/05), o encontro a se realizar no mesmo espaço e momento da oficial, deve ter como pauta avaliar o próprio papel da SEPPIR e fazer um balanço das propostas aprovadas pelas duas Conferências anteriores e que não foram encaminhadas.

Bispo, porém, faz uma ressalva. “Concordo com o Márcio, com algumas restrições: por que não fazer uma Conferência ou Encontro independente do Governo sem nenhum dinheiro público, bancada pelos sindicatos e pelas próprias organizações negras? Ou porque não reivindicar as deliberações e os compromissos assumidos pelo Governo brasileiro em Durban, como o financiamento público desse encontro, mas sob a direção do MN, ao invés de um Seminário dentro da Conapir?”, questionou.

Segundo ele, seria a forma do Movimento Negro “assumir a direção da Conapir, sem as habituais manobras do Governo e seus protegidos”.

Ele acusou a prática de fraudes na II Conferência realizada em Brasília em 2010, denunciando que a SEPPIR credenciou número muito maior de delegados e investiu ilegalmente do direito de voto pessoas apenas para garantir a aprovação do Estatuto da Igualdade a qualquer custo. “Com a nossa intervenção, todos puderam ver que mesmo com as fraudes quase metade do plenário estava contra a proposta do Governo”, afirmou. À época da II Conferência, o ministro era o deputado federal pelo Rio, Edson Santos

Bispo, que é membro da autodenominada Fração MNU de Lutas, Autônomo e independente do MNU, disse que a III Conferência é uma manobra eleitoral do Governo e acusou as forças, que ele chamou de “braços partidários do PT” de impedirem a organização autônoma do movimento.  

“Sem nenhum medo de errar, tenho convicção de que a convocação da Conferencia neste momento é mais uma manobra eleitoral, cujas decisões serão esquecidas depois das eleições, com videotape certo daqui a quatro anos. Quem viver verá”, enfatizou.

Depois de fazer uma análise das forças partidárias e não partidárias ativas no movimento negro e as posições que tem assumido no debate, o dirigente do MNU se disse pessimista quanto a possibilidade de um movimento negro e antirracista desatrelado do Governo. “É impossível contar com a independência e autonomia dos mesmos para traçar planos e projetos para exigir do governo soluções para os problemas do povo negro”, acrescentou.

Veja, na íntegra, a entrevista do coordenador de organização do MNU, ao jornalista Dojival Vieira, editor de Afropress.

Afropress – Como vê a proposta feita pelo jornalista Márcio Alexandre de realização de uma Conferência paralela à oficial para discutir a pauta de interesse do movimento social negro e avaliar o próprio papel da SEPPIR?

Reginaldo Bispo –  Concordo com o Marcio, com algumas  restrições: Porque não fazer uma Conferencia ou Encontro independente do governo sem nenhum dinheiro público, bancado pelos sindicatos e pelas próprias organizações negras?  Ou porque não reivindicar as deliberações e os compromissos assumidos pelo governo brasileiro em Durbam, como o financiamento publico desse encontro, mas sob direção do MN, ao invés de um Seminário dentro do Conapir?

O critério de convidados e de representantes institucionais e de governos foi motivo de fraude na II Conappir, credenciando um numero muito maior do que estabelecia o regimento estabelecia, e pior, foram investidos ilegalmente do direito ao voto para aprovação do Estatuto da igualdade a qualquer custo. Foi graças a um militante do Quilombo X da BA, que conseguiu o microfone e o repassou a Coordenadora Nacional do MNU, que podemos colocar a posição do nosso Congresso, impedindo a manobra de aprovação do mesmo sem discussão. Com a intervenção, todos puderam ver que mesmo com as fraudes, quase metade do plenário estava contra a proposta do governo. A alternativa seria o MN assumir a direção do Conappir, sem as habituais manobras do governo e seus protegidos.

Concordo que a pauta deve ser a de interesse dos participantes, e que a avaliação dos dois primeiros Conapir e da Seppir deve fazer parte.

Afropress – Como avalia a realização dessa Conferência, convocada pelo Governo, sem qualquer avaliação do que foi cumprido nas duas anteriores?

RB – Mais uma vez, em véspera de eleições gerais, sem que as deliberações anteriores tenham sido implementadas. E que as poucas tentativas, representaram um retrocesso diante das conquistas do MN, como as Cotas de Dilma, que são um retrocesso frente as conquistas do MN, estudantes e funcionários nas universidades federais, ou do Estatuto da Igualdade que nasceu inócuo e hoje é reconhecida sua falência de origem, desacreditado e repudiado pela maioria de negras e negros.

Sem nenhum medo de errar, tenho convicção de que a convocação da Conferencia neste momento é mais uma manobra eleitoral, cujas decisões serão esquecidas depois das eleições, com videotape certo daqui a 04 anos. Quem viver verá.

Afropress – Quais as forças do movimento negro que impedem a organização de um movimento social autônomo e desatrelado do Estado?

RB – É difícil falar em forças do MN, hoje.  A Conaq, a  Conen,  e a ANLU, maioria do MNU, são braços partidários do PT, assim como a Unegro do PCdoB,  representam o governo em nosso meio. O CEN do Marcio, esta mais para ONG, eu teria dificuldade de classifica-los, pois as ONGS oscilam de posição em diferentes períodos e conforme as benesses do estado.  

Além da Fração MNU de Lutas, Autônomo e Independente (em 06 ou 07 estados), setores do CONNEB, no RJ, o Quilombo X e o Coletivo Akofena na BA, Frente Popular e Quilombola no RS, a Uneafro-SP, há também coletivos universitários e inúmeros grupos juvenis culturais e de Hip Hop independentes em vários estados. O Circulo Palmarino,  ligados ao PSol ou o Quilombo Raça e Classe, do PSTU, que fazem oposição ao governo, se integrando a luta que por decisão partidária,  há muita diversidade entre os que se negam cumprir papeis governistas, o que dificulta ações conjuntas.  

Os seguimentos religiosos e culturais em sua maioria, responde ou estão vinculados a cargos de governos, gabinetes parlamentares, e às estruturas sindicais e de partidos. É impossível contar com a independência e autonomia dos mesmos para traçar planos e projetos para exigir do governo soluções para os problemas do povo negro.

Afropress – Como organizar uma Conferência autônoma, ou retomar a idéia do CONNEB?

RB – Outra divergência com Marcio Alexandre: Para construir uma proposta séria, é preciso ideal, compromisso, empenho e responsabilidade. Além das pessoas que só fazem se o governo estiver junto, tornando-se refém de saída, há casos dos que nem assim se empenham, pois não acreditam. Seus partidos e governos não deixam e vai por ai.

Isto ocorreu no CONNEB, e o Marcio sabe do que estou dizendo, fazíamos parte da Subcomissão de Comunicação, e foi muito difícil trabalhar com as entidades que participavam da mesma. O mesmo ocorreu nas outras Comissões, enquanto um ou outro trabalhava, os outros cruzavam os braços.

Sem um acordo e compromisso muito bem definido entre os participantes, no que diz respeito aos objetivos e à organização, acho muito difícil que a iniciativa avance. O que faz com que não acredite ser possível esta construção com todo mundo. 

O Conneb está se rearticulando com a proposta inicial, boicotada e sabotada pelos setores partidários e governistas. Esperamos que se constitua em um polo aglutinador de um Projeto Político e de Organização de parte do MN, com ideias e propostas bem definidas, capaz de aglutinar os setores favoráveis a autonomia e independência na organização e na luta dos negros brasileiros

Afropress – Faça as considerações que julgar pertinentes.

RB – Diz o ditado: Gato escaldado tem medo de água fria!

Com tantos episódios infrutíferos, de manobras e traições, diante do quadro virulento, agravado e crescente em todos os setores, do racismo nas instituições do estado e da sociedade, não sensibilizando governos, políticos, justiça, organizações e grande parte da militância negra.

Resta-nos conclamar todos aqueles que querem com compromisso e responsabilidade, à unidade em torno de um programa para superar esse quadro:

-A defesa da vida, contra o extermínio da juventude e contra o genocídio do povo negro!  

-Titulação de todos os territórios quilombolas em aliança à luta dos indígenas pela demarcação dos seus territórios!

-Prioridade na implementação da Lei 10.639 em todos os cursos fundamentais e médio!

-Contra o racismo religioso e ambiental!

-Defesa das ações afirmativas com compromisso dos jovens com o desenvolvimento do nosso povo!

-Reparação Histórica e Humanitária com recursos do Pré-sal!

-Projeto Político de Nação Multicultural e Plurirracial, do Povo Negro para todos os brasileiros!

-Defesa incondicional do cumprimento das leis constitucionais antirracistas, como garantia da preservação da vida, do trabalho, de moradia, cultura, cidadania e dos direitos humanos de negras e negros!

-Perdão das dividas, apoio a Unidade e Reparação dos Povos africanos pelas nações colonialistas e escravistas!

-Construção de uma Organização Política Negra, Autônoma e Independente.

Essas devem ser as premissas de um acordo que se sobreponha a todas as demais e pontuais propostas  divergentes e discutíveis, que norteariam qualquer programa político-eleitoral.

 

Da Redacao