S. Paulo – A direção política da Educafro (Educação e Cidadania de Afro-descendentes e Carentes), a maior rede de Pré-Vestibulares comunitários do país, constituída por jovens ativistas, que nos últimos anos ocuparam posição protagonista nas mobilizações contra o racismo, no Brasil, anunciou o rompimento com o fundador da entidade, o Frei David Raimundo dos Santos (foto), “por não concordar com o método e modelo de gestão impostos”.
As lideranças, entre as quais os coordenadores geral e político da Educafro – respectivamente Heber Fagundes e Douglas Belchior – dizem numa Carta Pública, que o frei “além de inquestionáveis talentos e liderança” “carrega vícios como a centralização, o apego à hierarquia nas relações, e visão de que a democracia e os embates de idéias causam os conflitos e divisões de poder”.
É a primeira vez em 20 anos que a liderança do frei é aberta e publicamente questionada por membros da Educafro. As divergências entre lideranças que passaram a adquirir consciência política nas próprias ações da organização e os métodos centralizadores do Frei David não são novas. Contudo, vinham sendo, até agora, administradas dentro do Sefras – Serviço Franciscano de Solidariedade, um departamento da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, organismod a Igreja Católica.
Procurado por Afropress, o coordenador político, Douglas Belchior preferiu não entrar em detalhes sobre o processo de rompimento. “Por ora, o que tínhamos a dizer está na Carta”, afirmou. Afropress não conseguiu localizar Frei David para falar sobre o caso e deixou recados no seu telefone celular.
Saída
Na Carta “Aos militantes de Núcleos da Educafro e Universidades”, em que comunicam a saída da “sede da Educafro”, além de chamarem Frei David de centralizador, afirmam que ele tem uma visão distorcida sobre a democracia. Relatam que a incompatibilidade com os métodos do Frei ficou evidente no retorno do mesmo à sede da direção executiva em S. Paulo.
David estava há cerca de um ano em Luzerna, no interior de Santa Catarina, para onde teria sido deslocado por motivo de saúde, em circunstâncias que nunca ficaram totalmente esclarecidas.
“Percebemos a incompatibilidade entre o que acreditamos e sonhamos, com a prática trazida de volta por Frei David. Infelizmente, ele e seu futuro corpo funcional deverão passar por cima da construção democrática e da horizontalidade dos últimos dois anos. As decisões tomadas coletivamente em nossos retiros de Sumaré (2007) e Guararema (2008) serão rechaçadas”, diz a Carta.
Segundo os dirigentes da Educafro as divergências sobre a condução dos trabalhos e os métodos centralizadores e autoritários do Frei se tornaram inconciliáveis. “Nossa formação contestadora e nosso compromisso com a luta popular e com a causa do negro não nos permitem renegar a construção coletiva e o diálogo. Entendemos que o poder, tanto na Educafro como em qualquer movimento de massa, já é naturalmente dividido por todos os que desse movimento participam. O povo da Educafro ganha ao avaliar o caráter pedagógico, construtivo e provocador de nossa saída. Permaneceremos nesta luta, com mais ânimo, com mais força e com muito axé!”, concluem.
Além dos coordenadores gerais e político anunciaram a saída e assinam a Carta, a coordenadora administrativa, Vanessa Nascimento, e os coordenadores do Núcleo Pedagógico e Jurídico – respectivamente Clayton Menezes e Clayton Borges. O documento também é assinado por várias lideranças intermediárias da organização, que atuam como assistentes.
Veja, na íntegra, a carta pública das lideranças da Educafro
“Com respeito e humildade, informamos e justificamos, por esta carta, nossa decisão de sair da Direção e dos trabalhos da Sede da Educafro, por não concordar com o método e modelo de gestão impostos por Frei David. Nossas discordâncias são principalmente de cunho ideológico.
Nesses anos de construção da Educafro, várias pessoas se destacaram, entre elas Frei David, que foi o fundador e um dos que se dedicaram radicalmente a essa causa. Prova disso foram os acontecimentos no Senado entre os meses de novembro e dezembro de 2008.
No entanto, milhares de pessoas (em centenas de núcleos) também se doaram radicalmente para que a Educafro fosse hoje o movimento de vanguarda que é. Entre estas pessoas, estamos nós ex-integrantes/dirigentes da Sede.
A decisão da saída de todo o grupo é fruto de situações acumuladas nestes anos, de conflitos ideológicos com Frei David e seu método de trabalho. A cada ciclo, outros companheiros(as) tomaram a mesma decisão de maneira individual.
Com o deslocamento de Frei David para Santa Catarina, no início de 2007, a Sede permaneceu sem sua figura mais emblemática ou contou com sua atuação à distância. Ele carrega consigo, além dos inquestionáveis talentos e liderança, vícios como a centralização, o apego à hierarquia nas relações e visão de que a democracia e os embates de idéias causam os conflitos ou divisões de poder.
A partir de 2007, sempre ao lado dos frades sucessores (Frei Antônio Leandro e Frei Valnei Brunetto), estabelecemos uma nova dinâmica no relacionamento entre Sede – Núcleos – Bolsistas. A democratização das relações norteou os trabalhos. Citamos, por exemplo, a prioridade dada à formação cidadã; encontros com universitários; o resgate do Conselho Geral da Educafro (CGE) formado por 10 coordenadores(as) eleitos(as); aproximação com o movimento negro e atenção às linhas políticas propostas pelo Sefras. O que fizemos nestes últimos dois anos foi motivar e valorizar o protagonismo das pessoas que “fazem a Educafro em sua essência”. Tudo isso está registrado nas publicações.
Levamos com intensidade a luta do negro para todas as dimensões da luta popular. Compreendemos que a luta contra o racismo e por Cotas/Ações Afirmativas precisa estar aliada à luta social contra as estruturas que geram todas as desigualdades do mundo capitalista. Há muitas discordâncias com Frei David neste aspecto político.
Desde seu retorno ocorreram tentativas de conciliação, porém, percebemos a incompatibilidade entre o que acreditamos e sonhamos, com a prática trazida de volta por Frei David. Infelizmente, ele e seu futuro corpo funcional deverão passar por cima da construção democrática e da horizontalidade dos últimos dois anos. As decisões tomadas coletivamente em nossos retiros de Sumaré (2007) e Guararema (2008) serão rechaçadas.
Nossa formação contestadora e nosso compromisso com a luta popular e com a causa do negro não nos permitem renegar a construção coletiva e o diálogo. Entendemos que o poder, tanto na Educafro como em qualquer movimento de massa, já é naturalmente dividido por todos os que desse movimento participam. O povo da Educafro ganha ao avaliar o caráter pedagógico, construtivo e provocador de nossa saída.
A Educafro é o povo que se organiza de maneira autônoma, pura de coração, singela e resistente nos núcleos. Sem os núcleos e o sem os milhares de militantes que os organizam, não existe Educafro. É necessária e urgente a valorização de quem efetivamente constrói o movimento.
Agradecemos aos companheiros/as de outras lutas e aos frades da Província Franciscana, continuadores da obra de Francisco de Assis, que por inúmeras ocasiões nos receberam e apoiaram durante esses 10 anos. Reivindicamos São Francisco de Assis, em seu desprendimento!
São Paulo, 23 janeiro de 2009
Heber – Coord. Geral,
Douglas – Coord. Político,
Vanessa – Coord. Adm,
Jorge – Jornalista,
Adriano – Coord. Pedagógico,
Cleiton Meneses – Assistente SeUni,
Cleyton Borges – Coord. SeNuc/Jurídico,
Nádia – Assistente SeNuc,
Flávio – Assistente SeUni,
Maíra – Assistente SeUni,
Juliana – Núcleo de Mulheres Negras,
Daniel – Estagiário de TI,
Félix – Estagiário de TI,
Suellen – Assistente Adm,
Noemi – Assistente SeNuc,
Jarlene – Estagiária/ Núc. Mulheres Negras,
William – Assistente SeUni,
Thayan – Assistente Seppaa,
Vinícius – Manutenção de rede,
Amanda – Assistente Adm.

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