Salvador – O Corregedor-Adjunto da Polícia Militar da Bahia, tenente coronel Manuel Souza Neto, designado pelo comando da corporação precisamente para investigar a denúncia de tortura contra a Mãe de Santo, Bernadete Souza Ferreira, no Assentamento D. Hélder Câmara, em Ilhéus, no dia 23 do mês passado, deixou claro no que dará a sindicância interna instaurada: em nada.
Segundo o coronel, para quem “todo mundo na Bahia é católico, mas gosta de um sambinha também”, “tanto a intolerância religiosa quanto a tortura não serão comprovadas de jeito nenhum”.
Na visita ao Assentamento onde ouviu a vítima e mais oito testemunhas, o coronel provocou indignação porque fez pouco caso dos sofrimentos da vítima e foi além: negou até mesmo a existência de formigueiro, onde a líder religiosa foi lançada.
“Não teve ninguém colocado em formigueiro. Aliás, nem tem formigueiro. O que existe é uma grama rasteira com algumas formigas”, decretou.
Até o momento, o único inquérito que tramita na Delegacia de Ilhéus é contra a própria Mãe de Santo, acusada de desacato. Para apurar a tortura, não há nenhuma investigação. A promotora Geovana Souza Barbosa, de Ilhéus, disse em contato telefônico com o Ouvidor da SEPPIR, advogado Humberto Adami, que pedirá a abertura da investigação pela Polícia Civil e não descartou a adoção de outras providências que considere necessárias para apurar os fatos e punir os culpados.
Ela disse a Adami que ainda não ouviu a líder religiosa, o que pretende fazer na próxima semana, além de testemunhas.
Reunião política
Na reunião que aconteceu nesta quinta-feira (10/11), pela manhã, em que a Mãe de Santo acompanhada de lideranças do Movimento Negro, na sua maioria, ligadas ao PT e a partidos da base de sustentação do governo Jacques Wagner, foi recebida pelo governador, os participantes adotaram um discurso político, ao invés de exigir providências efetivas como a prisão preventiva dos acusados que, segundo a própria vítima, passaram a intimidar as testemunhas.
A reunião aconteceu à portas fechadas e sem acesso da Imprensa, e vozes independentes, como Secretário Nacional da Diversidade Humana da UGT – União Geral dos Trabalhadores – Magno Lavigne, não foram convidadas.
Os advogados constituídos pela Mãe de Santo, Dojival Vieira e Adalyce Gonçalves, também não foram convidados para a reunião porque segundo o marido da líder religiosa e militante do PT, Moacir Pinho de Jesus, “a reunião não era jurídica, e sim política”.
Discursos políticos
À saída, o governador Jacques Wagner (foto), ignorou providências concretas – como a prisão dos sete policiais acusados de tortura -, e fez uma declaração política. “Eu chamei, convidei a Bernadete, o Moacir, que é quem estava diretamente envolvido para deixar claro para eles e para a sociedade baiana que nós não toleramos qualquer processo de discriminação, nem cometido por alguma pessoa física, particular, e muito menos toleramos se for por uma pessoa representando o estado ou cometendo qualquer tipo de intolerância”, disse o governador.
O comandante da Polícia Militar,coronel Nilton Régis Mascarenhas, anunciou que tomará a decisão sobre a sindicância interna – já antecipada pelo Corregedor-Adjunto -, em oito dias.
O coronel assumiu, estranhamente, a posição de magistrado. “O poder decisório é do comandante geral e eu vou falar nos autos”, afirmou. “Se forem culpados, os agentes serão punidos. Tem a perícia, tem outros fatos que interessam a decisão, além da reunião que eu fiz com todos nos dias 28 e no dia 29. Eu tenho realmente um cenário do fato e vou dentro de uma data já prevista vamos ter de tomar decisão e essa decisão vou tomar em cima dos autos”, afirmou ao Jornal A Tarde, de Salvador.
Indignação
Por sua vez, o coronel Corregedor-Adjunto, além de decretar – diante da própria vítima, que foi ouvida com mais oito testemunhas – não ter havido intolerância religiosa, saiu-se com pérolas desse tipo: “Estamos na Bahia. Aqui todo mundo é católico, mas gosta de um sambinha também. Não tem intolerância religiosa. Isso não vai ser provado de jeito nenhum”, afirmou.
O coronel também desmentiu que tenha havido tortura: “Não teve ninguém colocado em formigueiro. Aliás, nem tem formigueiro. O que existe é uma grama rasteira com algumas formigas”.
“Sou bacharel em Direito. Não existe impedimento legal porque eles estavam numa operação”, afirmou ao repórter Alexandre Lyrio, do Correio da Bahia, sobre o fato de os PMs terem invadido uma área sob jurisdição do INCRA, sem mandado judicial.
As declarações do militar provocaram a revolta da vítima – que é militante sem terra e integra o Diretório do PT de Ilhéus. “Quem quiser pode vir aqui ver o formigueiro e ouvir as testemunhas. As marcas das mordidas estão nas minhas pernas”, protestou Bernadete.
Veja matéria do Correio da Bahia e a reportagem, em vídeo, do Jornal A Tarde.
http://www.correio24horas.com.br/noticias/detalhes/detalhes-1/artigo/corregedor-descarta-intolerancia-religiosa-no-caso-da-ialorixa-agredida/
http://www.atarde.com.br/videos/index.jsf?id=5648553

Da Redacao