Salvador – A Polícia Militar da Bahia, que é conhecida como uma das mais violentas e truculentas do Brasil, acaba de fazer jus a má fama: a cozinheira Almerinda Santos das Neves, de 34 anos, teve o olho esquerdo vazado a golpes de cassetete, quando participava do Festival de Música e Artes do Olodum (Famadum), que aconteceu no fim de semana de 22 de janeiro, no Pelourinho, Centro Histórico de Salvador.
Na tarde desta segunda (30/01), Almerinda, que é negra, saiu do Hospital do Subúrbio onde foi socorrida e foi à Corregedoria da Polícia Militar em Salvador, acompanhada do advogado José Raimundo dos Santos Silva, para prestar queixa.
Silva disse que entrará com ação de indenização por danos morais contra o Estado e acompanhará a investigação criminal e as gestões por parte do Ministério Público, a quem compete fazer o controle externo da atividade policial, segundo a Constituição Federal.
Perda da visão
Almerinda teve rompimento de um osso da face, do globo ocular e das pálpebras, além da perda da visão esquerda. Apesar e ainda muito abalada, ela disse que consegue reconhecer o policial que a agrediu, visto nas cenas gravadas e exibidas pela TV Bahia distribuindo golpes à esmo na platéia.
“Estou com quatro pontos na pálpebra esquerda e com dificuldade para enxergar com o olho direito. Trabalho em um buffet, com fogão industrial, e estou afastada, não sei como vai ser, se vou poder voltar. Tenho um filho de 12 anos que depende de mim para tudo”, afirma.
O caso está registrado na 1ª Delegacia, localizada no bairro dos Barris e até o momento ninguém foi ouvido.
Violência gratuita
O argumento usado pela PM é de que “os policiais estavam controlando a bagunça”. A cozinheira contou que até agora não entendeu a agressão gratuita. “Eu estava dançando, percebi o policial chegando, senti o golpe, apaguei e só fui acordar no hospital”, afirmou.
O capitão Pita, do Departamento de Comunicação Social da PM baiana, admitiu que o agressor poderá ser identificado por meio das imagens feitas por um cinegrafista amador, cuja identidade está sendo preservada, e que foram exibidas pela TV Bahia, afiliada da TV Globo.
A Polícia Militar informou que 150 agentes trabalhavam na ocasião e que uma sindicância será aberta para investigar o caso. “Vamos verificar efetivamente o policial militar que tenha cometido essa possível infração e, uma vez identificado, abriremos um processo administrativo disciplinar através de nossa Corregedoria. O policial militar, sendo realmente o acusado identificado, será punido disciplinarmente pela PM e pode chegar ser demitido da corporação”, afirma o coordenador de Planejamento de Operações do 18° Batalhão da PM, Adilson Santana
Tradição de truculência
A PM da Bahia tem uma longa tradição de truculência e costuma abafar casos semelhantes. Em outubro de 2010, a Mãe de Santo Bernadete Souza Ferreira foi espancada, arrastada pelos cabelos e, mesmo incorporada, foi jogada num formigueiro no Assentamento D. Hélder Câmara, em Ilhéus.
Com a repercussão do caso na mídia, o governador Jacques Wagner, do PT (foto) chegou a se reunir com a então Secretária da Igualdade Racial, e hoje ministra chefe da SEPPIR, Luiza Bairros, e setores do movimento negro baiano para anunciar providências.
Passados um ano e três meses, os agressores não foram punidos nem administrativamente pelo comando da corporação e o Inquérito Policial foi concluído sem que nenhum dos acusados tenha sido indiciado.
Veja o vídeo:
http://g1.globo.com/videos/bahia/t/todos-os-videos/v/inquerito-para-apurar-denuncia-de-agressao-durante-show-e-instaurado/1790787/

Da Redacao