S. Paulo – A frustração de setores expressivos do ativismo com o acordo que resultou na aprovação do Estatuto da Igualdade Racial, desfigurado e transformado em alvo de marketing, está provocando uma inédita reação no Movimento Negro Brasileiro que passou a defender com mais ênfase o voto negro e anti-racista nas eleições de 03 de outubro deste ano.
O exemplo mais eloqüente disso são as duas iniciativas programadas para a primeira quinzena de agosto, quando efetivamente começa a campanha, com a veiculação da propaganda eleitoral gratuita na TV.
Segundo o Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil – 2007/2008, do Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais, e Estatísticas das Relações Raciais (LAESER), coordenado pelo economista Marcelo Paixão, da UFRJ, dos 513 deputados eleitos nas eleições passadas, apenas 11 eram negros – 10 homens e uma mulher – e 35 pardos, 33 homens e duas mulheres.
No total, os negros (pretos e pardos) foram apenas 46 deputados – 43 homens e três mulheres, o equivalente a apenas 9% dos deputados eleitos. Em 2.006, pretos e pardos representavam 49,5% da população brasileira. Atualmente, segundo dados do IBGE, são 51,3% da população brasileira.
Para onde vai o voto?
O Movimento Negro Unificado (MNU) e mais entidades como a CONLUTAS, o MST, a Intersindical, o Tribunal Popular, o Círculo Palmarino, o Coletivo de Entidades Negras, a FORJUNE, e a Abraço – Associação de Rádios Comunitárias, além da Frente Negra e Popular em Defesa dos Territórios Quilombolas, promovem no dia 13 de agosto na sede da APEOESP, centro de S. Paulo, debate sobre “Prá quem vai o voto negro e popular (Nulo, útil ou na esquerda?).”
Na primeira semana, será a vez da Educafro, a Rede de Cursinhos Pre-Vestibulares, dirigida pelo Frei David Raimundo dos Santos, que promove debate com candidatos negros, na sede da entidade, à Rua Riachuelo Centro de São Paulo.
Para terem chance de receber apoio dos ativistas, os candidatos terão de assumir os compromissos contidos na Carta-Compromisso com a População Afro-Brasileira.
Entre os compromissos estão o da reserva de vagas para pobres e negros nas universidades públicas, e a defesa de projetos com cota mínima a ser definida segundo o IBGE, para afro-brasileiros nos cargos de confiança dos Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, bem como em todos os escalões da Administração Pública.
Sub-representação
Segundo o Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil do Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais, e Estatísticas das Relações Raciais (LAESER), 87% dos parlamentares eleitos em 2.006, eram brancos; 0,8% amarelos e 3,3% não se auto-classificaram. Nenhum parlamentar se assumiu indígena.
No caso das mulheres, o Relatório aponta apenas uma mulher negra, correspondendo a 0,2% e duas pardas 0,4%. No total, pretas e pardas representavam apenas 0,6% dos deputados, para uma população correspondente a 24,8% da população.
Vazio nos Partidos
No Senado, a situação não era diferente: 76 dos 81 senadores eram brancos (93,8%), somente quatro pardos e apenas um negro. Senadores pretos e pardos eram apenas 6,2%. Todas as 10 senadoras eram brancas (12,3%).
O Relatório das Desigualdades também aponta a sub-representação negra nos partidos: No PMDB, 93,3% é de brancos;no PT, 83,1%, PSDB, 92,4%, no PFL (DEM) 86,2%, no PTB, 95,5%, PDT, 87,5%, no PPS 81,8% e no PSB, 96,3%.
Mais preto no branco
A exemplo do que fez há quatro anos com o lema “Mais preto no branco da política”, a Afropress, passa a abrir espaço para a campanha nacional pela eleição de parlamentares negros e anti-racistas nas eleições de 3 outubro.
O objetivo é aumentar a representação parlamentar negra e de deputados comprometidos com a defesa do combate ao racismo, a adoção de ações afirmativas e cotas na Educação e no mercado de trabalho, a denúncia da intolerância religiosa e da escalada de violência que atinge a juventude negra nas periferias das grandes cidades.
Semanalmente será reservada matéria especial sobre eleições com entrevistas com candidatos negros e anti-racistas, comprometidos com a defesa da igualdade e com o aprofundamento da democracia no Brasil.

Da Redacao