Brasília – As portas de três apartamentos do Bloco B da Casa do Estudante Universitário (CEU) da Universidade de Brasília, ocupados por estudantes africanos da Guiné Bissau, foram incendiadas por grupos racistas por volta das 4h da madrugada desta quarta-feira. A Polícia federal já tem os nomes de alguns suspeitos e investiga o caso. A UnB tem cerca de 150 estudantes africanos como alunos, de vários países do continente.
Durante a tarde, um ato de protesto reuniu cerca de 300 estudantes, africanos e brasileiros, que lotaram o auditório para exigir providências do reitor Timothy Mullholhand. “A universidade sofreu um atentado. Temos de enfrentar essa questão e os nossos esforços serão no sentido de buscar a convivência pacífica entre todos os alunos”, disse o reitor, admitindo colocar câmeras para vigiar a Casa, que terá o reforço de seguranças.
Atentado
Os moradores acordaram com o cheiro forte de fumaça, que tomou os corredores e levou pânico. Na ação racista também foi empregada uma bomba de fabricação caseira. Os criminosos tiveram ainda o cuidado de esvaziar os extintores de incêndio do primeiro e segundo andar para impedir que o fogo fosse debelado. Todos os apartamentos, onde vivem os estudantes africanos tiveram as portas marcadas com cruzes vermelhas.
“Eu só levantei porque meu amigo alertou sobre a fumaça. Desesperados, pulamos a janela e fomos procurar pelos extintores. Nenhum funcionava, só um do terceiro andar”, contou o aluno do Curso de Administração de Empresas, Samory de Souza, da Guiné Bissau, que divide o apartamento 106 com mais três amigos.
As estudantes senegalesas Racky Sy (foto) e Wolette Thiam, respectivamente dos cursos de Letras e Arquitetura, contaram os momentos de pavor. “Sem dúvida nenhuma isso foi motivado pelo racismo e pelo preconceito”, diz Racky, que mora com a amiga no apartamento 105, que teve toda a porta consumida pelo fogo. As duas alunas reclamaram da falta de segurança na Casa do Estudante. “Aqui não tem segurança. De madrugada você não acha ninguém e, quando acha, estão dormindo profundamente”, diz Racky.
Rotina
Os atos racistas contra os estudantes africanos tem ocorrido com freqüência. No mês passado as paredes dos corredores foram pichadas com frases ofensivas. Os alunos acusam a direção da UnB de tentar contemporizar. “Registramos a queixa na administração. Eles foram lá quando não havia ninguém e pintaram as paredes. Eles nos disseram que a imagem da instituição tinha que ser preservada e que problemas assim tinham que ser resolvidos amigavelmente”, disse Wollet.
Numa outra oportunidade, segunda ela, pessoas ligadas à administração disseram que as queixas eram um exagero. “Eles disseram que estávamos exagerando e que a gente morava aqui de favor. Um deles chegou a dizer que nada garantia que os próprios alunos africanos fossem os autores das pichações”, desabafa.
Os moradores dos apartamentos que tiveram as portas queimadas suspeitam que os autores dos incêndios sejam estudantes que moram no mesmo bloco. Eles informaram os nomes dos suspeitos à Polícia Federal, que investiga o caso.
Segundo o presidente da Associação de Moradores da Casa do Estudante Universitário, Geraldo Marques dos Santos Júnior, nunca tinha acontecido algo tão grave. “Desta vez a ameaça de morte quase foi consumada. Em um dos apartamentos, o botijão de gás fica do lado da porta. Podia ter acontecido uma tragédia”, afirmou.
Marques acrescentou que se tratou de uma ação racista. “Chega. Foi o limite. Temos que combater o racismo e o preconceito que existe dentro da UnB”, concluiu.
Providências
O Ouvidor da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Luiz Fernando Martins da Silva, acompanhou o caso durante todo o dia. À tarde, esteve com o reitor da UnB, Timothy Mullholhand, e recebeu os estudantes africanos na Seppir.
De lá seguiu com eles para a Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão do Ministério Público Federal e para o Núcleo de Enfrentamento da Discriminação do Ministério Público do DF. Tanto na Procuradoria quanto no NED foram instaurados inquéritos.
“Há uma comoção porque é um problema muito grave. Não dá prá saber se é um ato isolado, se um ato de grupo. Eles estão mais calmos porque estão acompanhando a ação do Estado”, concluiu.
O delegado Francisco Serra Azul, da Delegacia de Repressão a Crimes contra o Meio Ambiente e o Patrimônio Histórico (Delemaph), disse que já foram coletadas as impressões digitais no local do crime.Também foi recolhido o material inflamável usado para atear fogo às portas dos dormitórios e está sendo analisado pela perícia.

Da Redacao