Aproveitando as férias escolares de outono, Andréa foi ao Brasil mês passado para um seminário em São Paulo e visitar um pouco o país. Levou consigo sua filha caçula. Depois de São Paulo, foi ao Pantanal, a Salvador e, por fim, ao Rio de Janeiro. Lá ficou hospedada em casas de amigos no Flamengo, num desses edifícios de classe média meio abastada, que se acha importante. Ali também encontrou com a cunhada, irmã de seu marido, pois logo após seguiriam de volta juntas à Berlim.
Desde o primeiro dia notou que eram olhadas de forma estranha toda vez que entravam no elevador ou quando passavam pelo porteiro do edifício. Ela, a princípio, não entendia muito bem o que estava acontecendo. Mas um dia a ficha caiu: uma tarde quando cruzou com o porteiro, esse lhe pediu uma “palavrinha” e disse que apartir daquele dia, “a empregada” e “a filha da empregada” tinham que ter acesso só ao elevador de serviço. Andréa olhou para o porteiro e falou: “Eu não tenho empregada e aquela senhora, a Dra. Maria, é minha cunhada; e a menina é a minha filha… Com licença!!!…
A partir daí, foi notando comportamentos estranhos em pessoas, às vezes sutis, outras vezes mais acentuados, em vários lugares onde ia com a filha e a cunhada angolana: seja na rua, em shops, supermercados, restaurantes, bancos em que entravam para trocar dinheiro, em conduções etc.
A gota d´água aconteceu quando foi a uma festa, levadas pelos amigos onde estavam hospedadas. A cunhada não poderia ir porque tinha encontro com amigos angolanos que moram no Rio, pois dois dias depois iriam viajar para Berlim.
Andréa chegou com a filha e momentos depois começou a reparar, que toda vez que ela estava por perto, as pessoas às vezes só comentavam assuntos sobre favela, menores perigosos nas ruas da Zona Sul etc… E também que algumas mulheres começaram a falar sobre adoção de crianças brasileiras por estrangeiros. Algumas deixavam no ar sutilmente, querendo saber sobre a sua “menina adotada”. Até que uma senhora, não agüentando mais, e parecendo encarnar a curiosidade latente que estava no ar, chegou a ela e perguntou:
– A “pretinha” aí você adotou aqui no Brasil ou lá África? Como pode, você loura e bonita desse jeito… não deveria escolher uma criança mais clarinha?
Andréa não acreditou no que ouviu. E tomada de uma súbita raiva, respondeu em alto e bom som:
– A “pretinha”ali quem pariu foi o meu ventre e com muito orgulho; e não troco a minha “pretinha” ali por nenhuma de vocês aqui… E com licença!…
Levantou-se, falou com os amigos que ia embora e partiu com a sua “pretinha”.
Em, Berlim, antes de ir para Angola com a família para um ano de trabalhos na África, telefonou-me para se despedir. Ainda sob o impacto do que tinha acontecido, suas últimas palavras antes da despedida do “bis später” (até mais tarde), falou-me:
– Eu não sabia que o Brasil está assim não, Ras Adauto… Eu pensei que era outra coisa…
Pois é, o Brasil, em certas áreas sociais, está assim… Racista!!!!!

Adauto de Souza Santos (Ras Adauto)