Uma explicação curta e grossa. O golpe na Turquia não teve sucesso – 1.600 militares estão presos. 

Antes de qualquer análise a Rede Radio Mamaterra e o SOS Racismo Brasil, se preocupa com a integridade física e a vida destes soldados. Somos contra golpes de qualquer espécie e a favor da vida humana e das liberdades democráticas. 

O governo de Erdogan é um governo despótico. Comanda a censura à imprensa, prende jornalistas. Sufoca toda a oposição. Faz uma guerra interna sem tréguas contra o povo Curdo, que só quer autonomia. 

Fechou os olhos ao Estado Islâmico nos últimos anos, ao permitir que usassem o território turco para guerrear arqui-inimigos como a Síria, e agora sofre ataques do Exército Islâmico, que já conhece a área. Erdogan com o EI, repetiu a fábula do sapo e do escorpião.

Erdogan com o seu regime realizou aos poucos uma limpeza no Exército, ao substituir generais constitucionalistas e defensores de um Estado laico por generais religiosos e fundamentalistas, e quebrou a espinha dorsal das Forças Armadas, que desde 1930, seguindo os princípios do pai da República turca, Ataturk, defendiam a estrita separação entre religião e Estado.

Em todos os golpes anteriores aos dos últimos dias, as Forças Armadas, atuaram com mãos de ferro. Torturas e desaparecimentos constavam da ordem de dia dos regimes militares.

Quando há mais de uma década, Erdogan chegou ao poder, reinavam ventos democráticos na Turquia. Ele prometeu aperfeiçoar a Constituição e ouvir a todos, com a bandeira de criar uma democracia plural com respeito aos direitos humanos.

Fez o contrário. Pouco a pouco, controlou o Judiciário, calou a imprensa, fomentou e aumentou as perseguições políticas. Criou um movimento popular religioso fundamentalista que passou a controlar a vida de todos os turcos, através de achacamentos feitos pelas suas milícias fascistas, das quais a mais famosa, que atua até entre os milhões de migrantes na Europa, é a " Lobos Cinzas". 

Liquidar fisicamente ou fazer calar através de tortura e ameaças, adversários do regime de Erdogan, virou uma prática além fronteiras. As Forças Armadas turcas atuaram durante todo este tempo de forma dúbia. Mais colaboraram com a destruição da constituição democrática, do que a protegeram.

As Forças Armadas turcas participaram, na verdade, da política de repressão e limpeza eugênica e ideológica, de toda o oposição turca. As Forças Armadas turcas foram o sapo que carregou, sobre o rio da democracia, o escorpião do fascismo fundamentalista religioso.

Tentaram um golpe ou uma virada de curso, tentaram tarde. Isolados levantaram os braços em sinal de rendição. Não se renderam à força dos aviões e tanques do governo de Erdogan.
 

Às 2 horas da manhã os muazins gritaram de seus minaretes contra o golpe militar e conclamaram o povo a irem para as ruas defenderem o Estado Despótico de Erdogan. As Forças Armadas se renderam às forças do povo que se colocou debaixo dos tanques de guerra.

A imprensa e os líderes internacionais dirão que os Estado Democrático foi salvo. Erdogan já anunciou a limpeza total das Forças Armadas. O fará com apoio da opinião pública turca e o beneplácito dos governos do mundo.

A repressão que se desencadeia contra a oposição civil, não ganhará manchetes. A Turquia corre o sério risco de se tornar um Estado Teocrático com verniz de democracia. Os milicos turcos golpistas, apenas aceleraram os planos de Erdogan. Carregaram o escorpião que agora, neste momento, se reproduz em cada esquina da Turquia e sua diáspora populacional.

Na verdade, se os militares golpistas vencessem, não significaria muita mudança. Pois a visão de um Estado de ordem repressiva e de manter um povo quieto, através de propaganda, cooptação e repressão de quem discorde, sãos as marcas dos dois, tanto dos milicos, quanto de Erdogan e os líderes religiosos aliados dos dois lados.

No Brasil, que vive um momento gritante de cegueira analítica ao dividir o mundo entre esquerda e direita, muita gente vai comparar, o que se passa na Turquia, com nossa história de golpe ou não golpe, no campo ideológico das disputas do século XX entre as esquerdas e direitas mortas.

Para iniciarmos uma conversa sobre o que se passa no momento na Turquia, precisamos olhar a luta entre obscurantismo da idade média, e o confronto que eles fazem, com a vida com diversidades do século XXI.

Os conceitos clássicos da direita e da esquerda, não arranham nem de longe a guerra real que o mundo está vivendo, em que um traque em Nice e Istambul, sentimos e vivemos como uma bomba em nossas esquinas. Pois cada um conhece o agente do obscurantismo, que habita certo vizinho conhecido, a quem se dá bom dia todo dia na padaria. Vizinho que na primeira oportunidade vai usar a faca para cortar a garganta de nosso pensamento.

 

Marcos Romão, da Mamapress