Tenho feito uma campanha individual de cara limpa, e assim tenho ido em todas as manifestações que minha saúde me permite, pois desde o dia 20 de junho peguei uma alergia a este "gás especial" que estão lançando, que mesmo ontem quando passava pela Beira-Mar de ônibus, o gás que veio de Lapa para o mar e chegou dispersado no ônibus, pois só senti o cheiro, me impediu de dormir a noite toda.

Estava nesta marcha em 68, éramos a turma de secundaristas de Niterói. Não tínhamos cara nem fama para sermos fotografados. As famosas tiveram uma coragem enorme em mostrar a cara naquele momento.

Foi um ato demonstrativo de desobediência civil, pois todo o povo brasileiro estava na clandestinidade e poderíam perder seus empregos ou serem boicotados nos teatros e televisões se fossem fotogrados, como aconteceu com muitos.

Lamentavelmente nossos famosos de hoje, salvo raras exceções não mostraram sua caras nas ruas do dia 20 de junho para cá. Talvez estejam aturdidos como os governos estão, com toda esta revolta no país que até agora vivia do faz de conta que eu lhe atendo, que eu faço de conta que eu sou atendido.

Reduzir e dicotomizar democracia e manifestações versus mascarados, que além de serem minoria, estão claramente infiltrados. É não perceber a necessidade e a vontade que o povo brasileiro está tendo por mudanças.

Que a brincadeira “bandido” versus “bandido” feito a cada manifestação entre a PM e meia dúzia de mascarados está servindo de justificativa para a polícia baixar porrada em todo mundo é um fato. Mas creio que para nós, velhos de esquerda, isto é um efeito secundário de nossa omissão, pois devemos sim nos debruçar nas razões de porque o nosso povo brasileiro que está indo às ruas, está cada vez mais sendo impedido pelos aparatos de repressão com ajuda intencional ou não do blacks blocs.

A ausência de "caras limpas" famosas e intelectuais nas ruas, abriu espaços para os extremos. Este para mim é o tema. A velha esquerda intelectual necessita sair da torre de marfim, ver menos Globo News, ir para as ruas e conversar com trocadores de ônibus, motoristas de táxi, empregadas domésticas e etc, vão ouvir uma uníssona voz: "se esta garotada parar estamos ferrados e os políticos não vão mudar nada".

É preciso que todos saibam o que foi este ato de pessoas famosas mostrarem suas caras nas passeatas de 68.

Milhares estavam sendo obrigados a entrar na cladestinade, por falarem e protestarem. Mostrar a cara foi um ato de solidariedade aos clandestinos e perseguidos que nem lá puderam ir.

É uma perversidade intelectual usar esta foto como instrumento de repressão aos milhões de "clandestinos" nas favelas do Rio de Janeiro, que não podem mostrar suas caras nem em entrevistas.

 

Marcos Romão