Corrupção é, nos últimos tempos, a expressão midiática número 1, no Brasil! Observando a sua dinâmica, não seria descabido, considerar que de forma simples ou complexa, a corrupção se apresenta na sociedade moderna, como numa espécie de cupido da felicidade sócio-econômica, que a todo momento vai lançando as suas flechas de forma cega, indiscriminada e imperceptível.

Trata-se e um fenômeno cujas impulsões, estão contidas nos pecados capitais da existência humana, materializadas de seguida com a existência do dinheiro. 

Mergulhando na análise da corrupção, lembrei-me de quando em 1992, eu vivendo na Itália, era também, como todos que nela estavam, convulsionado por esse fenômeno.

A agitação e o clima de burburinho nacional eram grandes. O então Presidente da República, Francesco Cossiga, transmitia aos cidadãos, discursos queixosos, tão inflamados de indignação, que eram classificados de piconatte, (picaretadas).

Com a mesma indignação misturada e revolta, o povo se pasmava ao saber, que as ¹“onorévoles figuras, que dirigiam o país, ou que tinham altas responsabilidades a nível econômico e social, metiam nos bolsos, dinheiros recebidos de empresários. Se horrorizava da surpresa, de que no final das contas,  aquela gente consideradaper bene”², tomavam tangenti”³, tal e qual, como os mafiosos!

Fora exatamente de uma situação destas, que eclodiu um dos processos judiciais e políticos mais clamorosos da Itália moderna e que teve como palco principal, não rústicas sociedades meridionais, como Nápoles, Sicília ou Calábria – retiros da Máfia – mas a moderna e européia  sociedade setentrional, com Milão no centro.

Estava-se em fevereiro de 1992, Luca Magni, proprietário de uma pequena empresa de limpeza de Monza, cansado de pagar subornos, decidiu pedir ajuda às autoridades. Combinado com os “Carabinieri” e o Procurador, o empresário, com um microfone e uma câmara escondida, dirigiu-se ao escritório de Mario Chiesa – um engenheiro e expoente do Partido Socialista Italiano, com ambição de tornar-se Presidente da Câmara de Milão – para entrega de um suborno: 7 milhões de liras (moeda da época), a metade de uma propina exigida do empresário.

O valor total, obtido da empresa era de 140 milhões e o político, recebia assim os seus 10%. Ou seja 14 milhões.

Logo que o político colocou o dinheiro numa caixa, dizendo-se disposto a parcelar a transação, os agentes irromperam o compartimento. Chiesa pegou noutros maços de dinheiro e se refugiou num banheiro, tentando desembaraçar-se de cerca de 37 milhões de uma propina anterior, atirando para dentro do vaso, mas óbviamente, em vão! Como era de se esperar, a notícia ecoou nas primeiras páginas dos jornais e dos telejornais.

Bettino Craxi que era o presidente do Partido Socialista, o de Chiesa, ficou revoltado e tentou lavar as mãos, declarando que “em 50 anos de administração, Milão, jamais tivera um único político, processado por aqueles crimes”. Negou a existência de corrupção à nível nacional e definiu o seu militante,  como um mariuolo isolato, um malandro isolado!

Começava assim o Mani Pulite. Esta expressão, que literalmente se traduz por “Mãos Limpas”, designou uma controversa época da Itália dos anos 90, caracterizada por uma série de inquéritos judiciais, conduzidos a nível nacional, a destacadas figuras da política, da economia e de instituições italianas.

As investigações expuseram um sistema de corrupção, extorsão e financiamento ilícito a partidos nas mais altas escalas do mundo político e financeiro, que foi denominado deTangentopoli (cidade da propina).

Nela estiveram envolvidos, ministros, deputados, senadores, empreendedores e o ex-presidente do Conselho, Bettino Craxi. O inquérito fora inicialmente conduzido por Antonio di Pietro liderando uma equipe de magistrados, que desenvolveram  o restabelecimento da integridade das instituições.

Essa cruzada acabou revolucionando de tal maneira a cena política, que levou ao desaparecimento ou a um forte redimensionamento dos partidos históricos, como a Democrazia Cristiana, Partido Comunista e Partido Socialista Italiano.

Começaram a surgir confissões inesperadas de muitas figuras e as prisões dos participantes da corrupção se multiplicaram muito. San Vittore, a prisão milanesa, para onde eram encaminhados os acusados  de “tangentopoli”  ficou conhecida com a cadeia dei dottori.

A imagem dos políticos ficava assemelhada à dos mafiosos. Alguns implicados, não resistiram à vergonha de estar atrás das grades e suicidaram-se.

A arrogância de Craxi, não lhe evitou de ser sentenciado. Involuntariamente assume o crime, ao afirmar que: “Jamais contribuições financeiras obscuras ou ilegais, aos partidos ou políticos, podia ser uma coisa que ninguém soubesse”. Não aceitaria a condenação. Em 1993 fugiu para a Tunísia, onde (como dizia), “exilou-se” e aí morreu de infarto em 2000, curiosamente 3 dias depois de ter dado uma entrevista, mantendo a tese da injustiça pela acusação de corrupção .

Silvio Berlusconi, seu amigo pessoal, reclamando a tempestade judicial e política que acontecia, decide  entrar na arena política. As eleições eram iminentes e com os partidos principais abalados, o grande magnata lombardo funda a Forza Itália, o novo partido italiano.

Utilizando o grande bastião mediático que o seu império dispõe e o apoio dos setores políticos de direita, como a Lega Nord organização que reivindicava a independêcia do norte de Itália, denominada República Padana de Umberto Bossi, se torna o mais forte e ganha as eleições em março de 1994.

A tendência corrupta, que cínica ou silenciosamente, acompanhava uma aceitável vida “normal” na Itália daquela época, ficou inibida. A imoralidade desta postura passava a fazer parte dum pecado social tão depreciativo que até as ações do tradicional crime organizado, deixaram de ser tão impiedosas. Pareciam  adequar-se à sensibilidade coletiva do momento. No entanto, o movimento mafioso foi se intersectando com órgãos e figuras de cariz legal e tornando “legal”, os seus affari.

O rescaldo político, saído de Mani Pulite, provocou um marasmo inevitável na sociedade política. Acanhamento, cautela e receio, eram características mais presentes na dinâmica política que existia.

Por outro lado, o governo recém-nascido e liderado por um alto empreendedor, amigo de Craxi, figura vip na corrupção nacional, foi se adequando às redes legais, tecendo outras linhas que,  gradualmente, faziam reduzir a eficácia dos mecanismos judiciais de Mani Pulitepara julgar os atos de corrupção.

Um exemplo foi um decreto do ministro da Justiça do governo de Berlusconi que favorecia prisões domiciliares, nas fases cautelares,  para a maior parte dos crimes de corrupção, que foi depreciativamente, chamada de decreto salvaladri.

A cruzada de Di Pietro continuou até 1994. Em novembro desse ano eu deixo a Itália, mas continuando atento, sabia, que no mês seguinte, o Juiz de Mani Pulite,  demitia-se da magistratura. Porém, não o fez sem antes ter enviado a Berlusconi, uma solicitação de comparecimento,  pela suspeita de corrupção, por causa de propina paga à Guardia di Finanza (Autoridade Fiscal).

Foram feitas outras alterações na lei que, em determinado momento Di Pietro, agora sem a toga, fica  exposto às conjuras e complôs.  Decorridos 6 meses , é colocado no registro dos indagados, pela hipótese de crime de extorsão. Foi inocentado de todas acusações.  

Agora, 23 anos passados, Di Pietro, apenas professor de Direito e mantendo a mesma determinação e aspereza dos seus juízos, declara com o peculiar humor do italiano rústico, que a corrupção na Itália está mais crescida, desenvolvida com formas sutis e mais refinadas que o circuito financeiro universal, tem necessariamente de desenvolver. Quello che no si può fare dentro casa, si fa fuori casa! (O que não se pode fazer dentro de casa, faz-se fora de casa). Metaforizava assim, quando se aludia existência dos paraísos fiscais e  os retiros offshore, criados pelo mundo ocidental para ludibriar as regras legais dos seus países.

O Brasil vive com “Lava Jato”, a sua Tangentopoli. Apesar das circunstâncias óbvias duma realidade social e econômica propícia às subversões; apesar da sofisticada comunicação, que torna mais rápida e mais intensa todo o tipo de informação sobre este fenômeno e da originalidade cultural brasileira, assente na flexibilidade entre o rigor e a tolerância que dá o seu timbre suigeneris na corrupção nacional.

A efervescência social e os efeitos desta tempestade terão as mesmas nuances. O pecado social mantém a constante presença e irresistível atração, rondando a sociedade a todo o momento.

A ambição e outros pecados capitais, que lhe sustentam, irrigarão sempre os indescritíveis canais da vida do país e será inevitavelmente efetivado, consubstanciado pelas condições concretas e pelas oportunidades da sua ação. 

¹honradas;  ²De bem;  ³Suborno (propina) 

 

 

 

Mário Dd Santos