Mestre de um comércio baseado em extrema crueldade, foi, no entanto, sempre tido até mesmo por adversários como homem afável e generoso, a ponto de hoje ser objeto de culto pelo enorme clã dos Souzas, que se espalha de Gana ao Gabão com representantes também no Senegal, na Costa do Marfim, na Europa, Estados Unidos e Canadá.
A intrigante história desse mercador de escravos ganhou agora novas cores com o livro que lhe dedicou o poeta e historiador Alberto da Costa e Silva, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras e ex-embaixador do Brasil em Portugal, na Nigéria e na República do Benim. Baseado em extensa bibliografia, Francisco Félix de Souza, mercador de escravos procura destrinchar o que há de verdadeiro e verossímil do lendário na história desse personagem ainda hoje venerado por quase toda a comunidade agudá daomeana que o tem por ancestral fundador.
Nascido a 4 de outubro de 1754, d. Francisco, assim até hoje tratado, é lembrado todos os anos por aqueles que se consideram seus descendentes e, nas palavras do autor, não se passa um punhado de dias sem que alguém vá rezar em seu túmulo em Daomé. Segundo Costa e Silva, por uma dessas comuns metamorfoses da memória, a imagem do traficante de escravos foi substituída pela do grande patriarca e protetor dos ex-escravos regressados do Brasil.
Isso não deve causar estranheza porque não poucos exterminadores de índios dão seus nomes hoje a monumentos, ruas e rodovias no Brasil. E não são raras as famílias consideradas quatrocentonas que se orgulham de ancestrais que enriqueceram com atividades menos nobres. Sem contar que, por trás dos ideais da conjuração mineira de 1789, o que havia mesmo era o interesse de ex-arrematantes de contratos de se livrarem das dívidas que haviam acumulado ao colocar no bolso o dinheiro dos impostos que recolhiam em nome da Coroa. Nada como tempo para mitificar as ações dos homens.
Se formos levar mais longe este exercício de memória, não podemos esquecer que foram os comerciantes de grosso trato, que negociavam principalmente carne humana, que asseguraram a sobrevivência (e o luxo) da corte do príncipe regente d. João em sua chegada ao Rio de Janeiro. E, como lembra Costa e Silva, que os ingleses primeiro fizeram dinheiro com o comércio de escravos para, depois, investir em plantações nas Caraíbas e no Sul dos Estados Unidos, em navios cargueiros, no comércio de bens alimentícios e financiar a revolução industrial.
A diferença é que, ao contrário dos ingleses, aqueles que enriqueceram com o tráfico de escravos no Brasil e na África, talvez porque viessem de uma metrópole já atrasada à época, não aplicaram seus recursos em novos tipos de atividade econômica, preferindo imobilizá-los em mosteiros, igrejas e na ostentação e no desperdício. Essa constatação pode explicar o atraso que hoje separa os países de língua portuguesa das nações de língua inglesa.
Apesar da inteligência de primeira grandeza que lhe atribuem, Francisco Félix de Souza não foi um homem muito além do seu tempo, pelo menos entre aqueles que viviam no mundo lusófono e cercanias. Tinha 94 anos de idade quando morreu, ou 81, segundo outros cálculos e, embora tivesse sido riquíssimo, estava endividado.
Certamente, acumulara um patrimônio elevado em escravos, esposas, currais de gado miúdo, chiqueiros, capoeiras e tulhas de inhame, mandioca e milho. Mas, por causa das pressões inglesas, deixou-se quase arruinar, provavelmente, segundo Costa e Silva, porque não sabia fazer outra coisa que não fosse traficar gente. Se investiu em outras atividades, foi na compra de navios para transportar escravos e, já parte final de sua vida, em plantações de dendê.
Baseado em fontes impressas, Costa e Silva supõe que Francisco Félix tenha deixado a Bahia por volta de 1800, indo diretamente a Badagry, de onde, após alguns desacertos comerciais, mudou-se, primeiro, para Popô Pequeno e, depois, para Ajudá, onde obteve emprego na fortaleza portuguesa de São João Batista de Ajudá. Logo chegou a comandar a fortaleza, mesmo sem a autorização formal dos portugueses, e passou a atuar como intermediário comercial naquele que era o mais importante centro exportador de escravos do golfo de Benim.
Diz Costa e Silva que a vida de Francisco Félix na África nem sempre foi fácil até amargou meses de cárcere, à época de um golpe de estado. Mas, depois, o dadá, o rei de Daomé, deu-lhe o título de chachá, que poderia significar chefe dos brancos e vice-rei de Ajudá. Francisco Félix passou a ser conhecido como Chachá, mas não se sabe ao certo a origem do título. Seria, segundo versões, corruptela de já, já!, ou seja, agora mesmo, imperativo de que abusaria no trato com os subordinados.
Foi assim que Costa e Silva reconstituiu este retrato de Francisco Félix de Souza, reunindo versões contraditórias ou lendárias. Pesquisador cuidadoso, aproveitou-se também de sua experiência pessoal como diplomata que testemunhou em 1960 a independência da Nigéria e conheceu Etiópia, Gana, Togo, Camarões, Angola., Costa do Marfim, Zaire, Gabão e outras nações africanas para dar coerência a um relato a que acrescentou ainda a visita que fez em outubro de 1995 a Daomé para participar da festa de instalação do novo sucessor no título de Chachá, o VIII, Honoré Feliciano Julião de Souza.
Autor de livros ainda recentes, mas já considerados clássicos da historiografia africana como A enxada e a lança: a África antes dos portugueses, de 1992, e A manilha e o libambo, de 2002, Alberto da Costa e Silva dá, com Francisco Félix de Souza, mercador de escravos, outra decisiva contribuição para o conhecimento das relações de Brasil e Portugal com a África, mostrando como funcionava do outro lado do Atlântico o tráfico de escravos. E o leitor recebe uma biografia escrita, num português irrepreensível, com rigor e transparência, resultado de anos a fio de investigação.
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FRANCISCO FÉLIX DE SOUZA, MERCADOR DE ESCRAVOS, de Alberto da Costa e Silva. Rio de Janeiro, Nova Fronteira/Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 208 págs., 2004. E-mail: [email protected] _________________________________

Adelto Gonçalves