O Nei Lopes, sempre brilhante polemista, mandou brasa em um artigo no “O Globo” e também em sua página na Internet. Cheio de razão o Nei, como também um professor da UFRJ, cujo nome agora me foge, que afirmou que o preto sofre discriminação social até a juventude e depois recebe a carga da discriminação racial, de pele mesmo. Precisa essa constatação, que eu assino em baixo sem nenhuma dúvida.
Falo de cadeira, pois em muitos momentos da vida senti com muita força o peso do racismo. É aquela coisa hipócrita. Ninguém lhe diz na cara que você não vai pegar o emprego melhor por causa da cor. Há voltas e desculpas, não se assume a canalhice, mas o gongo soa mesmo.
O professor afirma que quando o negro se dispõe a disputar algum degrau mais em cima ele começa a incomodar realmente. Se ele consegue superar as primeiras barreiras, ou seja, escola pública ruim, falta de dinheiro para material, carência de espaço adequado para estudar,aí já é um herói. Se vai para uma faculdade, pega um diploma, ou tem um talento especial e disputa de igual para igual com um branco, então a coisa pega…
Não tem exagero não. É assim que funciona a sociedade. É barra pesada, gente. Mas como é que é? Esse negro não conhece o seu lugar?
Desde os dezoito anos, quando comecei minha vida profissional, que fiz essa experiência. Cansei de me apresentar para bons empregos e perder a vaga para um branco menos qualificado. A coisa só se consertou um pouco quando entrei no ramo da propaganda como redator. Como era uma aptidão rara, criar anúncios e campanhas, não deu para me barrarem. Se ainda hoje, 50 anos depois, ainda é difícil encontrar um publicitário negro, imaginem naquela época…
A vida andou melhor para mim, o salário era bom, mas quando ensaiei uma subida profissional, aí o bonde encrencou de novo. Eu já havia chegado ao topo como redator e queria passar para o atendimento, o lado financeiro, o contato com os clientes, onde realmente rola o poder de decisão e o dinheiro de fato. Mas não deu. O gerente da agência argumentou que era melhor eu ficar ali mesmo na criação, escrevendo e tal, afinal esse era meu talento, etc,. etc.
Acabei saindo do ramo e montando meu negócio próprio de jingles. Foi um acerto porque afinal eu não ia daquela mesa de canto de jeito nenhum.
Anos atrás, num desfile de escola de samba, em meu comentário na Rádio Tupi eu critiquei a comissão de frente da Mangueira. O enredo era sobre o negro, e a tal comissão trazia negros ilustres, como Haroldo Costa, Djavan, Grande Otelo e atletas famosos. Todos geniais e luminares na arte e no esporte. Argumentei que gostaria de ver na comissão de frente, não talentos de exceção, mas sim negros médicos, engenheiros, gerentes de banco, financistas e, porque não, presidentes de escolas de samba. A verde-rosa não obteve nota máxima nesse quesito. Assim como eu e outros, os jurados também sacaram o lance…

Reginaldo Bessa