A construção centenária, localizada no bairro de Neves, no município de São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro, poderia livrar-se de tal fim se a prefeita da cidade o declarasse patrimônio cultural. Simples assim. Como num passe de mágica, todo impasse estaria resolvido.
São Gonçalo tem a segunda maior população do Rio de Janeiro e um dos maiores índices de criminalidade do Estado. Nas últimas semanas, a cidade apareceu em todos os noticiários pelo assassinato de uma juíza que tentava combater a corrupção e o extermínio de jovens, em sua maioria negros, no município.
É também uma cidade marcada por denúncias de intolerância religiosa. Em 2009, o promotor Pedro Rubim, da Procuradoria da Educação do MP Estadual, em um relatório sobre a inconstitucionalidade do ensino religioso confessional, acusou formalmente a administração de duas escolas da cidade de proselitismo e também por discriminar alunos praticantes de religiões afrobrasileiras.
O que mais chama atenção nessa história é a ironia. A cidade que há pouco mais de um século via nascer uma das maiores expressões da religiosidade afrobrasileira, misto do sincretismo entre os santos católicos e os orixás africanos, é hoje administrada por um governo com pretensão teocrática cristã.
A prefeita, Aparecida Panisset, não esconde suas convicções religiosas. É declarada como evangélica, eleita com os votos da Igreja Universal do Reino de Deus e outras denominações neopentecostais. Digo “declarada” porque ser evangélico é completamente diferente de ser neopentecostal, em vários aspectos. Evangélicos tradicionais respeitam outras expressões religiosas e valorizam a diversidade.
De qualquer forma, sabemos que expressar confissão religiosa é, em si, um direito constitucional. E nisso, a prefeita deve ser defendida. O problema é que os religiosos de matriz africana – e também os católicos – desconfiam que a miopia histórico-cultural da chefe do Executivo Municipal – em deixar que um casarão centenário, palco de um dos momentos mais significativos do nascimento da Umbanda, seja demolido – esteja intimamente ligada a sua religiosidade.
Como sabemos, a base da doutrina neopentecostal é a demonização e discriminação dos cultos africanos. Católicos também não são poupados pelos neopentecostais, pois são acusados de idólatras por terem imagens de santos nas igrejas.
Alguns estudiosos dizem que a lógica é simples. Há quem diga que a prefeita está utilizando os mesmos métodos dos donos de escravos que, ao aprisionar milhares de pessoas nos porões dos navios e das senzalas, tentavam extirpar o que há de mais precioso no ser humano, que é a sua memória.
Para eles, fazer com que as pretensas minorias esqueçam o passado é uma das mais cômodas formas de prisão. Encontrei textos que afirmam que a desvalorização cultural e religiosa de judeus e ciganos também foi uma das muitas estratégias utilizadas pelo III Reich, na Alemanha do século passado. Outros, menos afeitos a análises acadêmicas, insistem que o problema da prefeita é, unicamente, uma deformação política.
Não creio que a prefeita do segundo maior município do Estado tenha pretensões escravocratas ou entenda de nazifascismo. Mas, se não repensar suas atitudes pode acabar entrando pela porta dos fundos da história sócio-cultural-religiosa do Rio de Janeiro.
Ou, o que mais deve importar para quem precisa de votos de quatro em quatro anos, acabar saindo pela vala comum desse imenso esgoto, no qual transformou-se a política eleitoral.
*O título original do artigo é “Demolição da memória religiosa – à caminho da teocracia”.

Rosiane Rodrigues