Demóstenes Torres, senador eleito pelo Partido Democratas, de Goiás, se notabilizou pelo estridente enfrentamento a toda e qualquer política pública que diminua a secular discriminação racial da nossa sociedade.
Tentou impedir a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial, entrou no Supremo contra as cotas, procura reverter a titulação de terras de quilombolas e já tem garantido o seu lugar na história como um dos maiores racistas do Brasil por afirmar que durante a escravidão as mulheres negras não foram estupradas e mantinham relações consensuais com os senhores.
Talvez não consigamos mandar Demóstenes para a lata de lixo da história devido a sua militância racista. Contudo, é possível que o cenário político brasileiro se livre desse arauto do obscurantismo a partir de prováveis crimes que praticou, segundo reportagens recentes, que até mesmo a grande imprensa, sua mais fiel aliada, foi obrigada publicar.
Famoso por “combater” a corrupção, este senador terá que explicar ao Ministério público Federal qual a razão de ter trocado nada menos do que 298 telefonemas entre fevereiro e agosto de 2011 com o mega bicheiro Carlos Augusto Ramos.
Carlinhos Cachoeira, como é conhecido, foi preso com mais 34 comparsas em 29 de fevereiro passado pela Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, concomitantemente à sua condenação a oito anos de cadeia pela 29ª. Vara Criminal do Rio de Janeiro, por crimes anteriormente praticados.
Se fossem apenas os telefonemas, já seria altamente suspeito que um senador da República, ex-delegado de polícia, ex-secretário de segurança pública do seu estado, mantivesse amizade tão íntima com um notório criminoso. No entanto, evidenciando que a relação não para por aí, o famoso contraventor presenteou Demóstenes, na ocasião do seu casamento em 13 de julho do ano passado, com uma luxuosíssima cozinha importada dos Estados Unidos pela bagatela de 27 mil dólares.
Lançando mão das explicações mais prosaicas, como a que estaria mediando um conflito conjugal ou sua suposição de que Cachoeira agora “se dedicasse apenas a negócios legais” a grande estrela da direita racista utiliza da mesma desfaçatez com que negou a história e agrediu todas as nossas ancestrais para justificar o injustificável.
Esse mais novo escândalo, que a grande mídia se esforça por fazer cair no esquecimento (haja vista a descarada reportagem/abafa da Folha de São Paulo de 17/03) precisa ser divulgado nas redes sociais e espaços independentes como esse. É a grande oportunidade de o movimento negro e seus aliados evidenciarem o conluio entre as corruptas e arcaicas estruturas de poder que – desde sempre – mandam nesse país, com a ideologia racista que insiste em impedir que a colossal dívida do Estado e das elites brasileiras com os descendentes de africanos seja paga através de políticas afirmativas e compensatórias.
Demóstenes Torres e seu partido, o Demo, viraram símbolos do atraso e da arrogância das elites herdeiras do escravismo. Derrotá-los, ainda que não seja pelos seus crimes maiores, contribuirá com a existência de um Congresso respeitador da pluralidade étnica do Brasil, portanto, para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.
Al Capone morreu na prisão, louco, pobre e esquecido. Se trabalharmos para isso, Demóstenes morrerá politicamente, esquecido no interior da demência racista e preconceituosa da qual se tornou prisioneiro por opção.

Ramatis Jacino