Todos se cumprimentavam como se conhecessem há tempos e já falavam sobre a festa, que traziam filhos, sobrinhos, tias e amigos desde o ônibus, carros e pelo caminho até a festa. Esta foi à primeira impressão que tive. Entretanto houve muitas controvérsias, como sempre terá de haver pois a festa era feita em uma praça ao lado de outra onde ocorria a procissão. Só que o som da festa profana era bem alto e abafava o da sacra. Era o brado negro falando mais alto! Sempre foi assim e, por mais que houvesse reclamações das instituições (Igreja e Estado) em prol da cerimônia sacra, o profano sempre vicejava com maior gosto e graça. 2005 mudou a história de Tietê e sua festa de homenagem a São Benedito. Muitas pessoas me disseram que realmente a festa era bem melhor e que ultimamente tinha descambado para algo bem próximo do hedonismo onde ninguém era de ninguém e todo mundo era de todo mundo. Mas, no fundo foi uma atitude política onde o santo venceu o profano e a cultura eurocentrista-judaico-cristã venceu mais uma vez a africana. A festa de confraternização que ocorria até a procissão (e em todas às vezes se estendia junto a ela) foi parar no alto do morro num espaço destinado a exposições, junto ao estacionamento dos ônibus de excursão que vem deste Brasil afora para a grande festa. Bem, isso realmente teve um motivo e esta pode ter sido uma avaliação bem simplista da questão, pois foi ato tomado fruto de uma série de desavenças que houve em festas anteriores envolvendo até mesmo mortes.Eu vejo que a festa sempre foi fundamentada em conceitos brancos – o Santo da Igreja Católica, que é classista e preconceituosa, haja vista que desde os primórdios abençoava a embarcação e não estava nem aí para a carga – os negros… Desta instituição que forjou através da catequese uma cultura de poder não se pode esperar muita coisa apesar de ter perdido perdão, mas não ter negros em seu alto escalão mundo afora. E mais, a Instituição sempre foi e será atrelada ao Estado e ao capital.
Bem, fora isso eu vi muita coisa bonita lá que foi a negrada com orgulho de ser negra e toda unida, se confraternizando. Meu, negro é isso e é lindo todo mundo junto, negros que não se viam a milanos, pais, filhos, avós, tios e tias. Meu, muita energia positiva. Houve retrocesso? É possível, mas tava linda mesmo assim. Nunca vi tanta negrada junta e linda com sorriso de satisfação por estar ali! Eu amei demais esta parte da festa, a alegria e o sorriso de marfimem faces de ébano!
Mas o que vi foi…
Chuva – que venha!
Sol – que brilhe!
Lama – fonte da vida!
Negro – é tudo de bom!
Negritude – é alegria, paz e amor sem limites!

Chorei copiosamente (com direito a soluços e tudo) depois de ver o formigueiro gerado pela peregrinação da negrada do centro (quando soube que a festa era no morro) até o pico do morro com o som inundando toda a cidade e arredores, fazendo valer o tom destes nobres guerreiros filhos de Zumbi por todo o vale!
Irmãos, a cidade toda ficou embalada no ritmo da festa dos negros que tentaram colocar na senzala mas foi mais nobre e destruiu a Casa Grande!
PS: soube que no final da procissão, por volta das 15-16h a pressão popular venceu a opressão estatal e a praça pode ser liberada para que o povo voltasse à praça da cidade! Parte do povo quilombola desceu e enfeitou cada recanto da cidade entre o morro e a praça e Zambi abençoou a festa interrompendo a chuva que teimava em cair desde o dia anterior como nunca dantes havia sido feito. Foram lágrimas de repúdio que foram substituídas pelo sorriso ameno de maleme e ago do sol do entardecer! Nosso povo foi abençoado com o mais gostoso ASÈ dos Orixás!

Paulo Artur