S. Paulo – Publicamente desmentido pelo pró-reitor comunitário da Universidade S. Francisco, Evandro Luis Amaral Ribeiro, que recusou as pressões para que os alunos da Educafro só mantivessem as Bolsas de Estudos caso permanecessem vinculados à entidade, o Frei David Raimundo dos Santos, diretor executivo da Rede de Cursinhos resolveu partir para o ataque: numa reunião com os estudantes, na semana passada, anunciou já ter pedido a direção da Mantenedora exoneração e a destituição do reitor comunitário e acusou a USF “de estar vendida à Unip” – a Universidade Paulista, que pertence ao poderoso empresário do ensino João Carlos Di Gênio.
Na versão do religioso o convênio da USF com a Educafro teria sido rompido porque a Universidade teria sido vendida “pelos franciscanos para a UNIP e que o dono da UNIP (Di Gênio) teria colocado como condição a não concessão de bolsas para a Educafro”. Segundo a versão do Frei, a USF estaria em crise financeira e em processo de mudança de sua direção.
Afropress não conseguiu falar com a direção da USF, nem com o reitor Ribeiro, porém, pessoas ligadas à instituição consideraram a versão do Frei “fantasiosa e destituída de fundamento”.
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A reunião em que deu sua versão para o rompimento do convênio com a USF aconteceu na sede central da Rua Riachuelo, centro, e foi aberta apenas aos alunos da Educafro, coordenadores de grupos e bolsistas, representantes de cada faculdade. Fontes presentes ao encontro revelaram, sob a condição de não divulgação de seus nomes, que o Frei ficou particularmente irado com o comunicado do reitor.
No comunicado Ribeiro havia denunciado e lamentado a manipulação da imagem e política institucionais da Universidade como instrumento de pressão aos alunos que pretendiam se desfiliar da Educafro e aderir a nova entidade – a União de Núcleos de Educação Popular para Negros e Negras e Classe Trabalhadora – liderada pelos dissidentes.
A Universidade pertence a Ordem Franciscana, a mesma do Frei, e é dirigida por dois religiosos – o Frei Gilberto, o reitor, e o Frei José Antonio Cruz Duarte, o vice-reitor.
A campanha do Frei David para desacreditar os dissidentes, segundo pessoas presentes à reunião, também incluiu declarações públicas de que não passam de aventureiros, sem maturidade ou profissionalismo.
Os dirigentes que romperam com a Educafro denunciando os métodos autoritários do religioso, são exatamente os mesmos que até o final do ano passado integravam a direção política da entidade: o coordenador geral Heber Fagundes e os coordenadores político e jurídico, respectivamente, Douglas Belchior e Clayton Borges.
Além deles, dezenas de núcleos aderiram a nova entidade, descontentes com os métodos de Frei David. Segundo avaliações feitas por um dissidente que falou a Afropress sob a condição de anonimato, no interior do Estado cerca de 70% dos Núcleos da Educafro se desfiliaram “para aderir à Uneafro e esse movimento só tem crescido com as ameaças e as reações destemperadas do Frei David”.
Pressões
Desde o início da crise, Frei David tem sido procurado pela Afropress, por telefone e ou por e-mail, porém, não respondeu a nenhum dos pedidos de entrevista e nem retorna às ligações telefônicas.
A disputa na Educafro começou no início do ano quando 95% dos dirigentes da entidade – a maioria composta por jovens ativistas – lançaram manifesto denunciando os métodos autoritários do Frei e anunciando a saída. Posteriormente, em março, foi lançada a nova entidade que reúne os dissidentes que se propõe a construção de um novo movimento negro, avesso ao “onguismo” e disposto a incluir na sua agenda temas como a luta anti-capitalista.

Da Redacao