É só uma chispa que me passou agora, de raspão. Nenhuma intenção de provocar debate, juro! É só um desabafo.

A alienação relativa da juventude negra militante (principalmente esta mais emergentemente universitária, mais "black is beautifull") com suas bandeirinhas superficiais e cosméticas, talvez seja culpa de nós mesmos, os "mais velhos", da cooptação de nós, os pais – do movimento negro mais veterano, quero dizer – que, de forma geral abdicamos da rebeldia estratégica dos anos 70 ("Abaixo o sistema!") para nos atrelarmos ao canto da sereia petista (que é branca), virando conformistas aparelho do governo ("Viva o sistema!")

É o que me ocorre quando fico lendo posts desta garotada, nesta errática negritude de gibi, a olhar o racismo apenas pelas beiradas mais estéticas, nesta política do "dá cá o meu".

Pode ser coisa de velho, mas sempre achei que num país racista como o Brasil, com uma uma classe dominante evidentemente minoritária e branca, cercada por uma esmagadora maioria negra (ou "não branca") tão espoliada e apartada de tudo quanto é direito, a proposta, mesmo enrustida, de se criar uma classe média, uma "casta negra" fosse uma traição. E não é?

Acho que esta abdicação das bandeiras mais radicais do movimento negro do passado ("Abaixo o sistema!") por estas demandas mais cosméticas e elitistas, que caracteriza as bandeiras mais evidentes do movimento negro oficial hoje (este das Seppirs da vida) é capitulação, um desvio ideológico grave que só pode redundar na perpetuação da exclusão racial, pois é óbvio que a maioria não vai caber nestas políticas afirmativas de casta.

E nada contra as ações afirmativas no geral, claro!

Vejam lá o que ocorre em África agora mesmo, Angola, África do Sul. O assimilacionismo (o sistema cooptando uns poucos, dando-lhes vantagens para que calem a boca) é uma tática de dominação colonial (ou capitalista) eficientíssima, tão antiga quanto a escravidão.

A velha "política do pai joão" pode dar camisa, casa, comida e roupa lavada para estes poucos, mas não vai, de jeito nenhum barrar a onda de violência e indignação que um dia virá do "resto", da negraiada majoritária largada por aí, ao Deus dará.

Pau que bater em chico, baterá em francisco.

É preciso ter aguda consciência social, pois o racismo é tático, é pretexto para se manter a maioria excluída dos direitos e vantagens do sistema. Quer se aliar a quem manda só para ter o seu pirão primeiro? Vá em frente, mas aguente as consequências.

Não adianta falar de quilombolas e amarildos apenas retoricamente, tratando-os de "eles" ou os "outros", como se nos fossem estranhos. É preciso ser quilombola e amarildo de verdade. Pegar na lança, ombrear armas.

Ou as lideranças ditas negras mais proeminentes e bem falantes do Brasil se assumem logo como agentes de mudanças sociais profundas para todos os "não brancos" do país ou assumem logo a sua cara de bunda mal lavada e sua alma branca.

Ficar fingindo que não vê (ou olhando só de longe) a explosiva favelização de nossas grandes cidades, a ditadura militar imposta a estas comunidades, o genocídio da juventude negra, o desemprego estrutural, o desamparo total e absoluto que a maioria da população negra e "não branca" deste país sofre, cada vez mais, só para…eleger a Dilma, vai trazer um preço social. E vai ser caro.

Hora das cartas serem postas na mesa do "quem é quem" nesta história.

Zumbi e Makandal estão olhando.

Nota da Redação

Makandal viveu durante o século XVIII, quando o tráfico de escravos no Atlântico estava no auge. Ele liderou uma revolta na colônia francesa de St. Domingue (Hoje Haiti e República Dominicana, que se tornou um dos principais mercados de exportação de de bens de consumo (especialmente açúcar, tabaco e índigo). Alguns historiadores consideram sua revolta que se deu por volta de 1.750, o ponto de partida da Revolução do Haiti – iniciada em 1.791 e terminada em 1.804 -, a única revolução bem sucedida liderada por escravos negros na história.

Antonio José do Espírito Santo (Spírito Santo)