Rio – Passados dois anos desde que saiu de casa em Duque de Caxias, o educador Roberto Delanne continua desaparecido, e o Estado – por intermédio da Secretaria de Segurança Pública do Rio – ainda não concluiu as investigações sobre o seu paradeiro. Oficialmente ninguém sabe se está vivo ou morto, embora, a versão policial mais aceita é de que tenha sido capturado por traficantes por engano e assassinado. Seu corpo, segundo essa versão, teria sido incinerado num micro-ondas (locais utilizados pelo tráfico para desaparecer com cadáveres), com a inicineração do corpo das vítimas, como aconteceu como o jornalista Tim Lopes, da Rede Globo.
Delanne saiu de casa, no bairro de Santa Lúcia, Imbariê, Distrito de Duque de Caxias, por volta das 19h do dia 17 de março de 2006 e nunca mais foi visto. A ocorrência está registrada no 62º DP Policial de Duque de Caixas.
Vigília
Na última sexta-feira, um ato na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), promovido pelo Conselho Municipal de Defesa dos Direitos do Negro, marcou os dois anos do desaparecimento do educador. Durante o ato, coordenado pelo jornalista André Moreau, as lideranças presentes, entre as quais, representantes das Igrejas Metodista e Católica, além de religiões de matriz africana, decidiram cobrar do governador Sérgio Cabral o aparecimento do corpo de Delanne, em um prazo máximo de seis meses.
A Comissão também decidiu realizar atos anuais de Vigília por Delanne na data de seu desaparecimento, independente do desfecho do caso, e quer que o Estado promova a construção de uma escola de alfabetização de adultos, com seu nome, em Ibariê, na Baixada Fluminense, onde o educador morava quando desapareceu.
Logo depois do desaparecimento, chegaram a circular notícias de que Delanne teria sido visto nas ruas do Rio, versão, entretanto, não confirmada pela Polícia. A família, em especial, a filha Cláudia Delanne, já não tem mais esperanças de encontrá-lo com vida, porém, exigem do Estado que, pelo menos, apure o que aconteceu e reconheça a sua morte, expedindo o atestado de óbito.
Segundo José dos Santos Oliveira, do Centro de Pesquisas Criminológicas do Rio de Janeiro – CEPERJ, durante este período de dois anos, o Ceperj vem buscando informações e cobrando solução das autoridades, inclusive junto ao Secretário de Segurança Pública e ao Ministério Público do Rio. “Contudo, até o momento não obtivemos nenhuma resposta de conclusão do inquérito”, afirma Oliveira.
Ana Maria Felippe, do Espaço Memória Lélia Gonzalez e uma das responsáveis pela criação do GT-Delanne, que iniciou as buscas logo após o desaparecimento, disse que a família e os amigos do educador continuarão exigindo uma posição das autoridades e o esclarecimento do que aconteceu com Delanne.
Quem foi
O educador era fundador do Movimento Negro do PDT e tinha intensa atividade política e social. Nascido no Rio, era formado em Letras (Português e Alemão) e Pedagogia (Administração Escolar) pela Uerj. Trabalhou no Egito por contrato com o Governo Egípcio, Suíça e Angola. Foi professor no C.E Professor Carlos Costa Complexo Penitenciário de Bangu(Bangu 3 e Penitenciária Plácido de Sá Carvalho), Orientador Pedagógico no C.E Mário Quintana Complexo Penitenciário da Frei Caneca(Penitenciárias Lemos de Brito, Hélio Gomes, Petrolino de Oliveira e Nelson Hungria) e Professor no C.E Jornalista Barbosa Lima Sobrinho, no CAI Baixada (Coordenadoria de Atendimento Intensivo ao Menor da Baixada).
Também era poeta, tendo publicado o texto poético 2 x 4, Poesias de Raça e, por último Coisas do Brasil
Veja o histórico do desaparecimento do educador, produzido pelo Espaço Memória Lélia Gonzáles e entidades que integram o GT Delanne.
Histórico
1 – 17 de março de 2006 – desaparecimento de Delanne, de sua casa em Imbariê (detalhes e relatos estão nos autos)
2 – Em 30 de março, a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, informada do desaparecimento de Delanne, por companheiros militantes do Movimento Negro, abriu um processo administrativo para averiguar as circunstâncias do desaparecimento do Professor Delanne. O processo tomou o n. 00041.000226/2006-28 e o assessor da Sra. Ministra, Luiz Fernando Martins da Silva, informou que estaria oficiando ao Secretário de Segurança Pública e de Direitos Humanos do RJ, solicitando providências.
3 – 12 de abril de 2006 – após a constatação do real desaparecimento e a necessidade de procedimentos, considerando o desconhecimento por parte de amigos e familiares, amigos e entidades constituíram o Grupo de Trabalho Roberto Delanne, em reunião na sede do Instituto Palmares de Direitos Humanos, sito à Rua Mém de Sá, nº 39, Centro, Rio e Janeiro-RJ
4 – Foi feita divulgação de documento sobre o desenrolar dos fatos, nas listas de discussão étnicas; através das malas diretas dos arquivos pessoais das entidades envolvidas; e aos veículos de comunicação oficiais e alternativos.
5 – Foram mantidos contatos com a Comissão de Direitos Humanos e com a Comissão de Combate às Discriminações e Preconceitos de Raça, da ALERJ – Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, na pessoa da Deputada Jurema Batista, em 18 de abril. Além dos membros do GT-Delanne, participaram da audiência a Chefe de Gabinete, Cida; a jornalista do gabinete e a Coordenadora da Comissão de Direitos Humanos da ALERJ.
A partir dessa audiência, a Deputada Jurema Batista falou em plenário, no dia 18 de abril – sobre o fato.
6 – Em 25 de abril, o GT compareceu à reunião agendada com o Sr. Secretário de Segurança, Roberto Precioso, acompanhado pela Deputada Jurema Batista.
O Delegado responsável pela 62ª DP (que estava acompanhando o caso) estava presente à reunião. O Sr. Secretário disse que colocaria, também, a Delegacia de Homicídios na busca.
7 – Em 26 de abril, o GT compareceu a reunião agendada com Cel. Jorge da Silva – Secretário de Direitos Humanos. Cel. Jorge da Silva recebeu o grupo acompanhado do Corregedor. O Corregedor propôs que alguns depoimentos fossem tomados (alguns novamente, considerando que já foram prestados na 62ª Delegacia). Assim, Cláudia Delanne (filha) prestou depoimento no dia seguinte. Conforme Cel. Jorge, a Secretaria de Direitos Humanos iria trabalhar integrada com a 62ª Delegacia. Além disso, afirmou estar empenhado no caso e que é importante que façamos contato com a Sra. Governadora.
8 – Em 26 de abril, igualmente, o GT compareceu à reunião agendada com Deputada Andréa Zito, na tentativa de conseguir mais acesso à região de Caxias. A deputada informou não poder atender na questão de infra-estrutura para distribuição dos cartazes, em Caxias.
9 – Nesse mesmo dia 26 de abril, o GT foi ao gabinete do Deputado Gilberto Silva, Deputado negro que ficou muito sensibilizado e disse que já havia tomado conhecimento do assunto quando a Deputada Jurema Batista falou em plenário sobre este caso. O Deputado ficou de contatar, em Caxias, pessoas na Prefeitura, para disponibilizarem o carro com combustível e motorista para que o GT pudesse afixar os cartazes informando sobre o desaparecimento.
10 – No dia 03 de maio foi feita reportagem e veiculada pela TV Record sobre o caso. A reportagem foi ao ar às 18h 30m no mesmo 03 de maio e foi veiculada no dia seguinte – 04/05 – 5ª feira, às 8h 30m. O cartaz “Queremos Delanne de volta” foi filmado e apresentado na reportagem.
11 – Ao longo dos trabalhos do GT, “versões” sobre o desaparecimento foram chegando aos membros do GT. “Versões” foram levadas ao conhecimento do Corregedor, junto à Secretaria de Direitos Humanos.
12 – Foi informado ao GT que a Corregedoria iria, com investigadores, conversar com os moradores do entorno onde Roberto Delanne residia e fazer visita à Delegacia – 62ª.
13 – Foi informado ao GT que o Delegado da 62ª passou o assunto para o Comissário Domingos.
14 – Chegou ao conhecimento do GT que haviam 72 mensagens no Disque Denúncia sobre o caso – fato que foi levado ao conhecimento da Corregedoria.
15 – Em 15 de maio, 2ª feira, o GT compareceu a evento promovido pelo CEAP – Centro de Articulação de Populações Marginalizadas, para o lançamento de material didático, na ABI, às 17 horas. O GT falou sobre o trabalho do GT, informou quem é Roberto Delanne, fazendo chamamento às autoridades e solicitando a adesão das entidades negras e de participantes do MN. Foi disponibilizado um abaixo-assinado, para as entidades e pessoas que quisessem aderir ao trabalho do GT. O abaixo-assinado contou com um quantitativo de 60 assinaturas e continuou aberto para novas adesões. Várias autoridades que participaram da mesa de abertura, no Lançamento, fizeram menção ao valor de Roberto Delanne, como ser humano e guerreiro contra o racismo.
16 – Em 23 de maio, o GT compareceu ao lançamento do Prêmio COMDEDINE de Pesquisa Escolar, no teatro Carlos Gomes, onde relatou sobre desaparecimento e o desenrolar do processo. Ressalte-se que Roberto Delanne foi o primeiro Presidente do COMDEDINE.
17 – Foi feito contato com o escritório do Dr. Nilo Batista, para que o GT tivesse orientações jurídicas. O escritório ficou de encaminhar documento ao MP.
18 – Em reunião do GT, de 21 de junho de 2006, companheiros do COMDEDINE informaram que estavam procedendo, autonomamente, algumas investigações e entrevistas com pessoas citadas nos laudos do processo de Roberto Delanne constantes da 62ª DP, bem como do Delegado da referida DP. Informaram não concordar com o fato de a Polícia ainda não ter enviado para a casa de Delanne a Polícia Técnica, para vistoriar, palmo a palmo, a residência. O mesmo com relação ao Serviço Antisequestro.
19 – O GT foi participou de reunião na Chefia da Polícia Civil (Rua da Relação). Foi recebido pelo Dr. Gilberto Dias que não havia conversado com o Delegado de Homicídios. Conversou pelo telefone, no momento da reunião, e solicitou que o Delegado recebesse o GT.
20 – O GT compareceu à Delegacia de Homicídios (Belford Roxo). O delegado Paulo Henrique havia recebido o processo há uma semana e havia tomado depoimento — conforme listado nos autos — de Dona Otília, seu marido, Lula e do Pai de Santo. O delegado Paulo Henrique informou que já havia pedido a quebra do sigilo telefônico e que iria pedir a quebra do sigilo bancário. Informou sobre a necessidade de a filha de Roberto Delanne, Cláudia Delanne, fazer exame de DNA, tão logo o corpo seja encontrado. Informou ainda que não iria abandonar as possibilidades de Delanne estar vivo (junto a pessoas que “moram” na rua, conforme relatado pelos membros do GT presente à reunião, conforme “versões” chegadas ao GT). O advogado informou que iria enviar cartazes para os IMLs. Foi informado a Dr. Paulo Henirque as denúncias no Disque-denúncia e sobre o contato do GT com o escritório do Dr. Nilo Batista.
21 – No dia 21 de setembro, o GT-Delanne entregou ao Subprocurador-Geral de Justiça, no Ministério Público do Estado do RJ, dossiê com todo o histórico sobre o desaparecimento do professor Roberto Delanne, desde março 2006
22 – Em 25 de setembro, o GT esteve em audiência com a Promotora de Caxias, responsável pelo inquérito sobre o desaparecimento do Prof. Roberto Delanne. O que ficou da audiência é que tem sido fundamental o esforço promovido pelo GT. O “caso Delanne” não é referido por um número que precisa ser consultado: é sabido “de memória” pela Promotora. De acordo com os andamentos do processo (em fase avançada) ficamos de retornar o contato em 2 meses (por volta de 25 de novembro).
23-O Grupo de Trabalho Delanne continua em reuniões periódicas buscando resposta definitiva para o paradeiro de nosso amigo. Um última reunião foi em 14 novembro de 2006.
Entidades que participam/apóiam o GT-Delanne:
ACEC – Associação Cultural Embaixada das Caricatas – RJ;
AFROPRESS – Agência Afroétnica de Notícias – SP;
AGBARA DUDU – Bloco Afro Agbara Dudu – RJ;
ASPECAB – Associação de Pesquisa da Cultura Afro-brasileira – RJ;
Casa de Integração da Mulher – CIM – São Gonçalo – RJ;
CCAB YSUN-OKE – Centro Cultural Afro-Brasileiro Ysun-Oke – RJ;
CEAP – Centro de Articulação de Populações Marginalizadas – RJ;
CEDINE – Conselho Estadual dos Direitos do Negro – RJ;
CETRAB – Centro de Tradições Afro-Brasileiras – RJ;
COJIRA – Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial, do Sindicato dos Jornalistas – RJ;
COLYMAR – Círculo Olympio Marques – RJ;
COMDEDINE – Conselho Municipal de Defesa dos Direitos do Negro – RJ;
Comissão de Combate à Discriminação e Preconceito de Raça, Cor, Etnia, Religião e Procedência Nacional da ALERJ – RJ;
É TUDO CENA – Cia. de Teatro – RJ;
Fórum da Cidadania de Mogi das Cruzes – SP;
Fórum de Lutas de Itaguaquecetuba FMLI -SP;
Fórum de Mulheres Negras Cristãs – RJ;
Fórum de Mulheres Negras do Rio de Janeiro – RJ;
GRUMIN/Rede de Comunicação Indígena – RJ;
ICOREDE.DOC – Rede Brasileira de Iconografia e Documentação de Matrizes Africanas no Brasil – RJ;
IPDH – Instituto Palmares de Direitos Humanos – RJ;
IPEAFRO – Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-brasileiros – RJ;
LUB – Liga Urbana de Basquete – RJ;
MARKING – Movimento de Ação e Reflexão Martin Luther King Junior – RJ;
Memória Lélia Gonzalez – RJ;
Ministério AA-AFRO-3ªRE, da Igreja Metodista no Brasil – SP;
MNU RJ – Movimento Negro Unificado – cidade do Rio de Janeiro – RJ;
ONG Estimativa – RJ;
Rede Aiyê Hip-Hop – BA;
Secretaria de Gênero, Raça e Etnia do SINDSPREV – RJ;
SEERJ – Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro – RJ;
Simples Rap’ortagem – BA.

Da Redacao