O pressuposto básico para o estabelecimento desse debate é que ele se dá entre os que estão procurando construir uma sociedade com mais segurança, uma sociedade onde os direitos e deveres de cada um sejam respeitados e, que todos, (sejam os que defendem o uso de armas ou sejam os que defendem o desarmamento) não tenham outros interesses senão o de estabelecer as ferramentas necessárias para a elaboração de políticas de intervenção reguladora de um Estado democrático de direito capaz de promover a manutenção da paz social.
No entanto, vale a pena pensar na violência tão comum em nossa sociedade. Sempre é muito divulgada a necessidade da construção de uma cultura da paz, o que de uma maneira geral, toda a população concorda. Mas, como será construída uma cultura da paz se não se consegue admitir que cada um de nós construa e reforce cotidianamente a cultura da violência. Alguns estudiosos apontam como um mito fundador a não-violência essencial da sociedade brasileira. E esse é um mito fundador porque mesmo a despeito de tudo o que ocorre ele perdura e se renova. Esse mito consegue persistir mesmo sob o impacto da violência cotidiana, pois, é amparado por mecanismos ideológicos de conservação da mitologia.
Analisando os argumentos de defesa dos dois grupos envolvidos no debate do desarmamento, podemos detectar vários desses mecanismos. Um mais comum, usado muito pelos que são contra a proibição é o da exclusão. Ouve-se e lê-se muito o termo “homem de bem” e cuja definição assenta-se na certeza de que quem pratica a violência são os “outros”. e trabalha na existência de um nós-cidadãos-brasileiros-não-violentos e outro eles-não-brasileiros-violentos (mesmo que eles e nós tenhamos todos nascido no Brasil). Outro mecanismo (que pode ser identificado nos dois grupos) é o que a violência é acidental no povo brasileiro essencialmente pacífico. A violência é atribuída a alguma causa ou fenômeno datado no tempo e no espaço (crescimento desordenado de uma determinada região, desemprego, pobreza, etc.). A violência é vista como algo episódico e temporário. O mecanismo do jurídico – a incapacidade do estado em punir quem é delinqüente e criminoso – é um outro que dá também sustentação ao mito de um povo pacífico e não-violento. Nesse caso, somente o crime e a delinqüência são considerados violência. E, ainda, pode-se identificar o mecanismo da inversão de valores, que tem como conseqüência à quase inexistência do combate à violência da discriminação contra os negros, a violência contra a mulher e contra homossexuais.
Um fato ilustrativo dessa violência pode ser observado no que ocorreu, nesses dias, numa pequena cidade no interior do Pará. A população insatisfeita com a violência que vinha ocorrendo na cidade (estupros e o seqüestro de uma menina de cinco anos) destruiu ateando fogo, a casa do prefeito, a sede da prefeitura, a secretaria municipal de educação, o quartel da polícia militar e outros prédios públicos e alguns carros particulares. Muitos podem explicar que esse é um fato isolado e que foi feito por pessoas que não podem ser consideradas “homens de bem”, ou, então que foi um fato datado e localizado. Mas, quantas e quantas vezes já ouvimos essa narração? Quantos não já presenciaram chacinas, mortes de mulheres, mortes movidas pela intolerância a homossexuais, a negros, e a mendigos, pela ganância na posse desmedida da terra, quantos ficam sem local de moradia por causas de incêndios criminosos e outras violências que ocorrem no cotidiano das cidades e nas áreas rurais?
Esse é um momento apropriado para implementar ações que visem a desconstrução da cultura da violência, dessa violência tão presente num país que foi o último a abolir a escravidão, que convive com a intolerância à diferença e, que de uma maneira geral, resolve à bala os conflitos interpessoais e sociais.

Miriam Santos Cardoso