É importante também destacar que essa exclusão, por exemplo, acarreta na já frágil implementação de políticas públicas, em especial ao Povo Negro. Vale lembrar, por exemplo, que com o não ingresso de Nossa Gente, por exemplo, nas Universidades Médicas levam, como tem levado, ao não estudo da Nossas Patologias especialmente pelo só fato de que não temos integrantes no corpo docente ou discente.
É fato incontroverso, por exemplo, que as mulheres negras recebem dosagem menor de anestésicos quando submetidas a procedimentos cirúrgicos a ponto de o Ministro da Saúde Dr. Agenor Alvarez, afirmar em outubro de 2006, que há racismo no SUS. Na área jurídica também restou comprovado que os negros são tratados de maneira mais severa que os não negros, comprovados por antropólogos e pesquisadores da USP, isso pelo fato de que os integrantes dos Nossos Tribunais não são negros e carregam toda a carga de preconceitos imposta ao longo de vários anos de estudos.
Quero lembrar de texto de autoria do Dojival Vieira, intitulado “Rompendo o estarrecedor silêncio dos bondosos”, por meio do qual trouxe dados estatísticos relevantes de onde o Povo Negro está, ou melhor, “onde não está”.
A situação atual não mudou muito e quanto alguém ou instituição pretende fazer algo para diminuir tanta diferença sempre surgem aqueles que agora para tanto até se intitulam de “afrodescendentes”, todavia, não abrem mão dos privilégios que ostentam, sendo esse o norte do Programa de Combate ao Racismo Institucional.
É espantoso que durante muitos séculos o sistema de cotas vige à favor da população branca e, como assevera o Prof. Hélio, ninguém manifestou-se em sentido contrário. Indago: quantos gerentes e diretores de bancos você leitor, conhece? Quantos juízes? Apresentadores de programa de televisão? Personagens principais em novelas ou propagandas? Gerentes de lojas de shopping centeres? Bebês fazendo propaganda na mídia? No alto escalão da administração pública? comentarista esportivo na televisão? Técnicos de futebol? Será que não há profissionais para ocupar esses lugares? Pois é ainda tem gente contra as cotas !
Já tive a oportunidade de escrever aqui, que não se pode esperar que uma Nação cresça se mais da metade de sua população permanece excluída “engessada”. Engesse metade do corpo de alguém e exija que ela ande. No mínimo se arrastará !
Os menos avisados sustentam que a questão das cotas alcança as “cotas sociais”, quando na verdade, também já restou comprovado que um branco e um negro em igualdade de condições vão disputar um emprego na padaria da esquina, adivinhem quem vai ser contratado, ainda que o negro além de curso médio, por exemplo, tenha noções básicas de informática e fale inglês! O BRANCO NATURALMENTE. É ÓBVIO E SÓ NÃO ENXERGA QUEM NÃO QUER ENXERGAR ! Portanto a questão das cotas ainda é para negros.
A Revista Veja além de sensacionalista comprova que são contra as cotas, cabendo indagar: QUANTOS NEGROS ESTÃO A FRENTE DA REVISTA, EM CARGOS DE DIREÇÃO? É muito fácil falar dos outros. E na sua própria casa? A mídia – televisão especificamente é pródiga nisso – recentemente a Rede Record inaugurou uma unidade de jornalismo em Salvador (Bahia ), afirmando que se trata de uma das melhores e dotadas da mais alta tecnologia etc.etc. Nas matérias divulgando o evento, festas e apresentação primeira não havia um negro sequer. Enviei mensagem a emissora indagando que, se em Salvador mais de 80% da população é negra, por que não tinha nenhum negro(a) no quadro de apresentadores, jornalistas redatores? Não recebi qualquer retorno até hoje. O que só confirma a existência de discriminação.
É sabido que há racismo no Brasil, todavia, quando indagamos daquele que confirma o fato se ele é racista, de plano, afirma que não! Daí conclui-se que além de racista é hipócrita.
A matéria abordando a questão da escravidão, por meio da qual o debatedor (Demétrio Mangnoli) afirma que os comerciantes de escravos eram mulatos (negros), extrai-se que o mesmo tenta atribuir ao regime considerado crime contra a humanidade a ato praticado pelo próprio negro? É espantoso !
Essa é uma das razões pela luta para implementação da Lei 10.639/03, que mostrará a verdade e da grande importância dos africanos no âmbito não só do Brasil, mas de Mundo, pois não se divulga os africanos dominavam a mineralogia, a metalurgia, a astronomia, a agricultura, a pecuária; desenvolveram técnicas de cesariana; faziam seleção genética e coleta seletiva de lixo; que a maior biblioteca do mundo fica em África e dirigida por uma mulher isso no Século XV; que descendemos de reis, rainhas, imperadores, chefes tribais, grandes feiticeiros e sacerdotes, e partir daí o Nosso Povo terá mais orgulho e assumirá sua identidade, estrategicamente diminuída, destruída.
Retomando a questão dos imigrantes é bom lembrar que com a chegada deles assumiram as terras prontas e lavradas; as adquiriram em operações de pai para filho; recebiam por serviços prestados; tinham atendimento digno de saúde; seus filhos podiam freqüentar escolas; etc.etc. etc. E ao recém liberto? Absolutamente nada e agora, vêm dizer que não eram tratados a pão-de-ló? É certo que a vida para eles foi muito difícil, imagine-se, então a Nossa !
A meu ver o critério adotado pela UnB é o melhor, pois a questão no Brasil, como diz o Professor Hélio, é de fenótipo. Não basta apregoar que o Neguinho da Beija Flor, Seu Jorge, Pelé, Ministro Joaquim Barbosa têm descendência européia que não serão tratados como se brancos fossem. ISSO TAMBÉM É OBVIO !
O fato ocorrido com os alunos mencionados na Revista e em toda a mídia dá a nítida idéia do que acontece com aquele que tem um pouco mais de melanina; quando o contrário também se verifica na medida em que para obter vantagem o cidadão oportunista lembra que sua hexavó era negra e por conta disso tem direito a cotas ou qualquer outra vantagem, por essa razão a atenção é de grande valia com o fim de evitar mais ainda a perda de oportunidades. Quanto aos candidatos a vaga na UnB indago: será que eles tem noção da condição de negros que agora dizem pertencer? Eles participam de movimento, discussões, debates a respeito do tema? Dão, ou dariam, oportunidade a um irmão(ã) com ou pouco mais de melanina? A resposta que presumo é negativa, pelo simples fato de que ambos asseveram pela implementação de cotas sociais, quando na grande verdade, infelizmente, impõe-se, sim, cotas para negros(as).
Já é hora (ou melhor já passou da hora) de deixarmos de tratar as coisas como fantasia. Devemos enfrentar a situação com muita serenidade, altivez e sabedoria, pois essa idéia de divisão racial só interessa aquele que quer ver conflito e não solução. Devemos sim darmos as mãos e lutar contra esse estado de coisas, contra essa odiosa e descabida exclusão, até porque no banco de sangue – ainda que anotem que aquela bolsa foi fornecida por um negro ou por um branco – ao destinatário não fará diferença alguma.

Eginaldo Marcos Honorio