Criticar é fácil, já diz o ditado. Assisti "12 Anos de Escravidão" e no final da projeção minha vontade era de ter uma 12 para furar a tela. Chocante, sim. Chapado, por coincidência ainda com as entradas do cinema no bolso, lí a crítica "16 razões para não assistir 12 anos de Escravidão" de André Forastieri. Não contra, mas se o cara sem ver pode falar tanta asneira a respeito do filme, me sinto no direito de tecer alguns comentários sobre o "bisobeu", segue em vermelho.

Não assistirei. Essas são as razões.

Eu assisti, e lá vamos nós!

JÁ VI ESSE FILME

Eu era criança quando passou na TV a minissérie "Raízes". O mundo parou para assistir a saga de Kunta Kinte, capturado na África, escravo nos EUA. Escravizado. Depois vi outros com tema similar "Amistad", "Queimada" etc., e chega. Isso é o mesmo que dizer que negro é tudo igual, suas histórias, seus lamentos. Eu abriria exceção para ver um filme inteligente sobre a escravidão no Brasil. Mas nunca fizemos e duvido que façamos. 

De onde vem essa certeza? Filme inteligente sobre a escravidão para você é aquele que conseguir alforriar escravizador?

É FILME DE JUDIAÇÃO

Judiação tem uma conotação pejorativa e recomendo desuso. Significa: crime cometido por judeu, ajudou a ideolizar o Nazismo.

Parei de ver filme com tortura quando meu filho nasceu. Não suporto ver gente sendo espancada, maltratada, picada em pedacinhos. Não assisti nenhum desses "Jogos Mortais", e fechei os olhos nas cenas mais horríveis de "Django Livre". Virei um coroa banana. Li sobre as "cenas fortes" de "12 Anos de Escravidão", e não são para o meu estômago.

Ainda bem André, que você tem essa opção. Que bom seria que todos os pais e seus filhos pudessem deixar de assistir a violência nossa de cada dia.

É FILME DE CHORADEIRA

Não vejo filmes lacrimosos, sejam com escravos ou não. "A Cor Púrpura" é o único filme de Steven Spielberg que nunca vi nem verei.

Direito seu optar pelo que deseja ver e definir o critério, por mais controverso que seja. Mas o filme "12 anos de Escravidão" e "A cor Púrpura", não são filmes de escravos, e sim, de seres humanos estupidamente escravizados.

A FOTOGRAFIA É LINDA

Vi no trailer aquela luz dourada, aquele enquadramento épico. Não tem recurso cinematográfico mais repulsivo que fotografar lindamente o horrível.

Deixa eu lhe dizer uma coisa sobre arte, afinal estamos falando de cinema certo? A chamada sétima arte. Oswaldo de Camargo coordenador literário do Museu Afro-Brasil me ensinou: "A arte é representação do belo", bonito é pano de prato, mas a arte se cerca do belo.

O DIRETOR É PSEUDO

Steve McQueen é inglês, negro, mora em Amsterdam. O preconceito agora é com o fato do diretor ser inglês, negro ou morar em Amsterdam? É metido a artista, fotografa, faz esculturas, dirigiu filmes experimentais. Cita como grandes referências Andy Warhol e a Nouvelle Vague. Vai me dizer que o que te incomoda é por ele ser metido a artista? Afinal é um negro, não deveria se intrometer em querer fotografar, esculpir e dirigir filmes… Acostume-se com isso, ele é um homem livre. Deixe-o ser metido ao que quiser e você também pode ser pseudo o que queira, até crítico de arte, se desejar.  É casado com uma crítica de arte. Vi "Shame", filme anterior dele, sobre um viciado em sexo. É lentíssimo, a maneira mais preguiçosa de denotar realismo. Fora que tem o nome errado. O Steve McQueen que eu cresci curtindo era americano, branco, tarado por carangas e casado com Ali McGraw.

Não sir, não é o nome dele que está errado. Se ele fosse o McQueen americano, tarado por carangas e branco estava tudo resolvido? Eis o problema.

É FILME PARA GANHAR OSCAR

Quem vota nos prêmios do Oscar? Já expliquei em detalhes uma vez, leia aqui. Mas o prêmio de melhor filme geralmente vai para histórias de superação. SUPERAÇÃO? Você definitivamente não assistiu ao filme. Nem sabe nada sobre a reparação que nunca chegou. Afinal como se repara 12, ou pior, séculos de escravidão de todo um continente, por gerações? Dramáticas, tocantes, e se tiver minorias envolvidas, as chances aumentam. Minorias? Taí outro equívoco.

É FILME PRA GANHAR DINHEIRO

McQueen sempre fez filme pra ganhar prêmio, e ganhou muitos. Qual o problema? Agora fez um pra ganhar prêmio e dinheiro. Qual o problema? Você escreveu esse texto prá ganhar ibope, eu respondo prá ganhar consciências, todo mundo tem seus interesses. Brad Pitt é o produtor, e espertamente reservou um papel para si mesmo, para turbinar a possibilidade de faturamento. "12 Anos de Escravidão" custou vinte milhões de dólares. A bilheteria já passa dos 130 milhões. Se levar uns Oscars, pode chegar a duzentos milhões.

É BASEADO EM UMA "HISTÓRIA REAL"

Proliferam filmes que se dizem baseados em histórias reais. Verdade! É uma tática marketeira pra fazer o espectador se importar com o filme. Muitas vezes são só ligeiramente inspiradas na realidade. É o caso? Não sabemos. Northrup não escreveu "12 Anos de Escravidão", ou pelo menos não escreveu sozinho. Aparentemente ele contou a história para David Wilson, escritor profissional, que era branco. Northrup foi fiel aos acontecimentos? Wilson foi fiel ao relato de Northrup? Jamais saberemos. O livro vendeu bastante quando lançado, mesma época do sucesso de outro livro sobre a crueldade da escravidão, "A Cabana do Pai Tomás".

Da forma que diz parece que cruéis foram os autores e não a escraidão. Os livros foram sucessos, e mais, foram preças fundamentais para a campanha abolicionistas. "Então, a sra. é a mulherzinha que escreveu o livro que fez a guerra!", disse o presidente Lincoln a Harriet Sowe a autora da "A Cabana do Pai Tomás", responsável através dessa ficção em ajudar a alterar o cenário escravocrata vigente.

Continua…

Nota da Redação: a segunda parte do artigo de Toni C. "Dezesseis razões para não dar ouvidos a um babaca" será postada na edição de terça-feira (04/03).

Toni C.