Quando você diz que houve um avanço do neopentecostalismo com o governo Lula, você tem razão por um lado e não tem por outro. Lhe explico: o avanço neopentecostal ocorre no Brasil desde o final dos anos de 1970, tendo sua culminância com o surgimento das igrejas eletrônicas – aquelas que passaram a usar o rádio e principalmente a TV como mecanismo de difusão de suas pregações religiosas – no fim dos anos de 1980.
Por outro lado o neopentecostalismo grassa exatamente onde o governo Lula menos investiu: nos espaços onde a população é menos alfabetizada, ou seja, indiretamente, ao não investir pesado em educação – e este é o grande gargalo para o desenvolvimento do Brasil hoje, junto com a infraestrutura – ele deu de certa forma as condições objetivas para que este neopentecostalismo avançasse.
Mas veja bem. Estamos falando de um país de dimensões continentais, com problemas mil e, infelizmente, falamos de uma religiosidade de matriz africana que somente agora e mesmo assim a grandes custos, começa a pôr a cara para fora.
Quantas vezes ouvimos dos nossos mais velhos que não deviamos fazer política? Que candomblé não é pra qualquer um e que nao devemos ficar nos expondo? Ou seja, somos hoje vítimas de um pensamento que, visando proteger preceitos básicos da religião, a engessou em si mesma.
O grau de complexidade desta discussão é tremendo. O que temos hoje em verdade é a emergência da agenda política da direita religiosa – veja meu artigo em Afropresss: https://www.afropress.com/colunistasLer.asp?ID=775 – e a queda feito patos, tanto do PSDB, quanto do PT nesta armadilha, onde, diga-se de passagem, quem cumpriu o grande papel foi Marina Silva.
Seu artigo não aponta uma solução específica. Apenas coloca as questões tanto de um lado quanto de outro. Eu digo que por mais complicada que possa vir a ser a relação daqui para a frente penso que as possibilidades de diálogo com Dilma são muito melhores que com Serra.
E te digo mais, quando hoje tenho como pauta política a criação de um processo que leve à convocação de uma Conferência Nacional Sobre Liberdade Religiosa é porque já vislumbro que, se não agirmos agora, corremos o risco de nos proximos 20 anos ver o Brasil tornar-se um país teocrático onde todas as questões “do mundo”, serão colocadas em segundo plano a favor de um país “de Jesus”, mesmo que o próprio Cristo nunca tenha querido isso para ele.
Outra questão é a seguinte, você num texto anterior aponta a escolha de Sofia entre a Iurd e a Opus Dei. Você se esquece que no meio destas temos a Renovação Carismática e a Teologia da Prosperidade, que é a base fundante do neopentecostalismo das igrejas eletrônicas.
Se a Iurd demoniza as religiões de matrizes africanas ela o faz por uma lógica de mercado: ela quer disputar e ganhar nosso público.
Quer tirar das casas de Axé aqueles e aquelas que não encontram mais ali as respostas para suas angústias.
Mas se você olhar com atenção a fundamentação teológico-doutrinária da Iurd e das igrejas afins, você verá que há até certo avanço em suas pautas.
Não dá pra dizer o mesmo da Renovação Carismática e nem dos grupamentos religiosos liderados por Silas Malafaia e Harolde Oliveira, por exemplo. O que nos salva neste momento é que a dita direita religiosa também não é uniforme. Eles também têm suas divisões e elas não são poucas.
Se tivermos a capacidade política de construir boas pontes de diálogos e conseguirmos estabelecer alianças com as Igrejas Protestantes históricas, com segmentos progressistas da Igreja Católica, com Muçulmanos, Judeus, Wiccas, Baha’is, religiões dos povos das florestas e por aí vai, acho que faremos um contraponto forte.
Para isso e nesse sentido, insisto na proposta da Conferência Nacional Sobre Liberdade Religiosa, muito mais como um processo político do que um evento em si.
Receba meus cumprimentos, que Aganju lhe cubra com suas bênçãos e Orunmila lhe dê bons caminhos.

Marcio Alexandre M. Gualberto