No dia 8 deste mês, comunicadores(as) negro(s) e jornalistas, que atuam com mídias negras ou a pauta racial, participaram de uma coletiva com a ministra Nilma Lino Gomes da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. O tema foi a abertura de um diálogo para a construção de uma política pública de comunicação etnorracial.

A transmissão em tempo real permitiu que profissionais de todo o país enviassem seus questionamentos. Entre eles, a dificuldade de acesso às verbas publicitárias da União; apoio às iniciativas midiáticas alternativas, em especial, às negras; políticas públicas para a mídia etnorracial como forma de combate ao racismo nos meios de comunicação, de maneira a garantir diversidade e pluralidade – valores fundamentais em uma democracia.

Tais reivindicações não são novidade; e, sim seculares. As primeiras denúncias de racismo e sobre a forma estereotipada com que o negro era retratado na grande imprensa foram publicadas pelo editor Francisco de Paula Brito em seu jornal O Homem de Cor (1833).

A produção midiática negra ampliou-se com o tempo: novos títulos, questões, debates sobre a eficácia ou não de determinadas propostas para o combate ao racismo. Assim como se exige o reconhecimento do papel importante dos(as) profissionais e dos veículos de comunicação comprometidos com a diversidade racial e a efetiva democratização da comunicação no Brasil.

Nossas demandas pretas foram arduamente defendidas em importantes momentos e produziram-se documentos de alta relevância, nem sempre considerados pelo próprio Estado Brasileiro. Entre eles, o Plano de Durban, da 3º Conferência Mundial de Combate ao Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata, com um capítulo específico sobre Comunicação; a Conferência Nacional de Comunicação (I CONFECOM).

Outro palco importante conquistado a duras penas pelos(as) profissionais de comunicação foi a inserção da temática racial junto às entidades sindicais de jornalistas, por meio das Comissões de Jornalistas pela Igualdade Racial e Núcleo de Jornalistas Afro-brasileiros – Rede Cojira/Núcleo. Estas comissões pautaram a ausência de conteúdos na imprensa que promovessem a igualdade racial e discutissem o racismo contemporâneo. Entre as estratégias intervencionistas na produção de conteúdo do mercado jornalístico foi a concepção do Prêmio Nacional Jornalista Abdias Nascimento; e a criação de agências de notícias, como a Afropress, os sites das comunidades quilombolas, e por aí vai.

Essas são algumas contribuições que não podem e não devem ficar no eterno campo do ativismo, sem que haja comprometimentos governamentais. Ou seja, há iniciativas comunicacionais que retratam um outro Brasil que não o mostrado pela mídia hegemônica – de inspiração eurocêntrica ou norte americanista. Certamente, esse legado deve embasar as políticas públicas de comunicação etnorracial proposta pela ministra Nilma, que devem ser levadas a frente como política de Estado.

Segundo salientou a ministra Nilma, a existência da SEPPIR mostra que houve reconhecimento do Estado brasileiro para com as demandas pretas, já que ela é fruto da luta do Movimento Negro. Entretanto, pela mesma razão, tem dificuldades para sensibilizar e desconstruir pré-concepções arraigadas.

Daí solicitou aos(às) comunicadores(as) e jornalistas que continuassem a apoiar e a fortalecer a secretaria para que ela efetivamente pudesse ampliar os diálogos e parcerias com os demais ministérios na busca do fortalecimento da pauta.

Acreditar, apoiar, ter esperanças, continuar na luta, são os verbos que os(as) comunicadoras(es) negras(os) e jornalistas comprometidos(as) com a comunicação democrática sempre conjugaram. Apesar de todas as restrições que nos são impostas pelo poder econômico, sempre desenvolvemos e compartilhamos nossas iniciativas, discussões, atividades, projetos em prol do combate ao racismo e promoção do respeito à diversidade.

O que se quer é que haja comprometimento do Estado brasileiro para a implantação de ações afirmativas no campo da comunicação e respeito, pois o legado construído  foi praticamente apartado de um Brasil que detém recursos para outras mídias.

 

Sandra Martins