Brasília – Aconteceu o que já era esperado: a reunião da Presidente Dilma Rousseff com vítimas de agressões racistas nos estádios (os jogadores Tinga, do Cruzeiro, Arouca do Santos, e o árbitro gaúcho Márcio Chagas) e representantes do movimento negro ligado aos partidos da base governista, foi apenas um lance de marketing do Governo para atender as pressões da FIFA preocupada com a repercussão das recentes manifestações de racismo nos estádios.

O Governo, segundo anunciou a Presidente, pretende utilizar a Copa este ano para propagar mensagens contrárias à discriminação racial e a favor da paz. O papel do movimento negro convocado para fazer pano de fundo à ação de marketing, que teria sido sugerida pelo marqueteiro João Santana, também foi o esperado: posou para fotos e cumpriu o papel de legitimador da iniciativa.

Contra o racismo e pela paz ou Pela paz e contra o racismo?

De acordo com Arilson Ventura, da Coordenação Nacional de Quilombos e do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial, órgão de assessoramento da ministra chefe da SEPPIR, Luiza Bairros, a principal proposta apresentada foi a inversão na ordem da mensagem da Copa. Em vez de “Pela paz e contra o racismo”, como pretende o Governo, Ventura quer que seja “Contra o racismo e pela paz”.

“A gente vem sofrendo racismo há mais de 300 anos, no Brasil, e às vezes as pessoas fingem que ele não existe. Essa é uma oportunidade para que as pessoas de todo o mundo vejam que o racismo realmente existe”, avaliou Ventura.

Na mesma linha, a ministra Luiza Bairros disse que o Governo pretende “mobilizar outras instituições, inclusive do Judiciário para que a legislação possa ser utilizada de modo mais efetivo em favor da punição dos crimes de racismo”. "De todo modo, o governo está empenhado numa campanha que será feita na Copa contra o racismo" discursou Bairros.

Arouca

Mesmo ausente, o volante Arouca (foto abaixo), do Santos, conseguiu, na carta que mandou a Presidente, ser mais objetivo do que os coadjuvantes da ação de marketing do Governo: “Aproveito para parabenizar pela iniciativa e pela boa vontade em debater o racismo, não apenas por nós três, que sofremos isso dentro de um campo de futebol, mas também por outros milhares, que, por falta de orientação – e por não terem a mesma visibilidade que nós temos diante das câmeras e dos microfones que cercam o mundo do futebol -, não se manifestam e não têm seus apelos ouvidos todos os dias", escreveu o volante do Santos.

O jogador finalizou fazendo um pedido a Dilma: “Peço, por favor, que não deixe esse assunto cair no esquecimento. Se pode existir uma vitória nisso tudo é a mobilização que criou e a vontade que todos têm demonstrado em colaborar para dar um basta. Mas isso não pode parar por aqui! É preciso levar até as últimas consequências e, repito, punir exemplarmente", completou Arouca, na carta.

Aldo e a miscigenação

Além de Gilberto Carvalho, ministro chefe da Secretaria Geral da Presidência, e de Luiza Bairros da SEPPIR, a reunião contou com a presença do ministro dos Esportes Aldo Rebelo, que repetiu o discurso da miscigenação racial característico das posições que defende, inclusive contrária às cotas para negros no acesso ao ensino superior.

Aldo sugeriu que sejam lidas mensagens pelos capitães das seleções que disputarão a Copa, e a exibição de faixas pelas equipes, além de atos a serem organizados pela FIFA. “Principalmente pela Copa ser no Brasil, um país miscigenado, que tem atitude dura com relação a essa questão. Racismo é inafiançável e imprescritível”, afirmou. Tanto as faixas, quanto a leitura de mensagens racistas ocorreram na última Copa, realizada na África do Sul.

Palavras

A reunião contou com a presença de 20 lideranças negras, que pela manhã tiveram uma prévia com a ministra chefe da SEPPIR Luiza Bairros. Entre os presentes, segundo o diretor executivo da Educafro, Frei David, estavam negros do PC do B, do PT, do PSOL e até do PSDB. Ao contrário do que ele próprio anunciara na véspera, muitos dos presentes na primeira reunião realizada com a Presidente no dia 19 de julho do ano passado, não confirmaram presença. Quem foi convidado tentou manter até o último momento o sigilo da reunião.

Ele destacou a presença de Hélio Santos, um dos fundadores do PSDB e amigo pessoal do ex-presidente Fernando Henrique e do ex-governador José Serra. Afropress não conseguiu falar com Santos. 

Frei David disse ter ficado impressionado com a atitude entusiasmada e pró-ativa da Presidente na abertura da conversa com as lideranças negras. Segundo ele, Dilma garantiu que determinará  a adoção de cotas nos programas do Ministério da Cultura e propôs uma nova reunião o mais breve possível para que sejam apresentadas propostas, especialmente na área da saúde e da cultura. “O problema do negro é de Nação e não de Copa do Mundo. Fiquei positivamente surpreso com os encaminhamentos”, concluiu David.

 

 

Da Redacao