Isto posto, podemos afirmar também que Dilma mandou às favas, com a nomeação de Crivella, qualquer plurido ideológico em seu governo. O grande mal da reeleição é que quem é eleito já se senta na cadeira pensando na próxima eleição. Foi assim com FHC, foi assim com Lula e não pode ser diferente com Dilma.
Ao nomear Crivella, Dilma está mandando à sociedade brasileira o seguinte recado: a mim interessam os votos dos setores retrógrados, racistas, homofóbicos e direitistas que aí estão. Os que entendem e gostam do pensamento da ministro Eleonora Menicucci; ou aplaudiram a fala de Gilberto de Carvalho, ao ser cristalino na afirmação de que há uma disputa ideológica em questão e esta disputa é com os setores evangélico-pentecostais, agora estão a ver navios, pois Dilma desautorizou Gilberto de Carvalho e até perdão ele pediu à bancada evangélica e Eleonora Menicucci está quietinha para não sobrar para ela.
Alguns podem chamar isto de pragmatismo, mas não é. É mais que isso, é a visão estreita de que política se faz com resultado. É o que diferencia governante de estadista. Infelizmente, o Brasil é vítima de governantes, mas poucas vezes teve estadistas em seu comando.
Sem querer radicalizar no exemplo, a URSS só estava pronta para dar um sacode na Alemanha, na II Grande Guerra, porque Stalin obrigou o povo a comer pão preto por décadas para fortalecer a máquina militar. Ou seja, o estadista, seja ele de esquerda, centro ou direita, tem uma visão de futuro, olha anos, décadas à frente. O simples governante pensa apenas nas próximas eleições.
Outro aspecto interessante da nomeação de Crivella é que Dilma rompe com seu discurso de eficácia administrativa. Os pastores costumam chamar seus fiéis de velhas; quando muito diz-se que deve-se pescar os pecadores, tal como fez Pedro que era pescador; eu de minha parte vejo estes pastores evangélico-pentecostais muito mais como caçadores de patos, portanto, não consigo entender onde está a eficácia administrativa de Crivella para assumir um ministério como da Pesca.
E por mais que alguns não o achem importante, este ministério cuida de rios e mares e atinge diretamente milhões de famílias que vivem da pesca em todo o país. Portanto é um ministério de grande alcance, fala ao Brasil profundo, aquele Brasil que quando aparece nas novelas da Globo traz um bobalhão como o Tonho da Lua e um Alemão como exemplos de pescadores; ou seja, nada a ver com a realidade.
O que nós escrevemos, o que nós pensamos e como agimos, como movimento social, não interessa à presidente Dilma Roussef. Para ela, somos sonhadores, enquanto ela é realista; somos idealistas, enquanto ela é pragmática; somos aqueles sujeitos de quem os burocratas riem quando vão discutir os números, os cortes e a aplicação dos recursos. Foi esta pessoa que elegemos como presidente, agora não adianta reclamar.
Crivella é a face menos truculenta do que representam os berros histéricos do Silas Malafaia, mas faz parte do mesmo barco, tem o mesmo projeto de poder, compoem com Garotinho e, vale sempre lembrar, Crivella foi preparado por seu tio, Edir Macedo, para ser presidente da República 20 anos atrás.
Está escrito, num documento oficial da Igreja Universal que vazou alguns anos e muitos jornalistas tiveram acesso. Não se surpreendam se Crivella já estiver sendo trabalhado para ser o vice de Dilma nas próximas eleições.
Por fim, uma última observação. O movimento de Serra, em São Paulo colocou Aécio Neves pra correr sozinho na raia do PSDB. Aecinho virá como candidato com toda a força de Minas, o viés da juventude e um discurso mais interessante do que têm os paulistas que sempre estiveram à frente do PSDB.
Se Aecinho dialogar bem com os movimentos sociais, aqueles que ficaram órfãos no Governo Dilma; se Aecinho disser que quer um governo moderno e isso é mais fácil fazer com protestantes, católicos, praticantes de religiões de matrizes africanas, judeus, muçulmanos, wiccanos, indígenas, daimistas e tantos outros e não se fechar apenas no universo evangélico-pentecostal, sei não, sem querer fazer trocadilho infame, acho que será a hora de Dilma pôr as barbas de molho.
*O título original do artigo é “Dilma nomeia Crivella para compor com evangélicos”

Marcio Alexandre M. Gualberto