Porto Alegre/RS – Luiz Carlos de Oliveira, da Coordenação Nacional do Movimento de Clubes Sociais Negros, e vice-presidente da Associação Cultural Floresta Montenegrina – entidade gaúcha fundada em 1.916 – considera que o Movimento Clubista tem cumprido um importante papel na vanguarda do Movimento Negro e tem sido base fundamental para a reconstrução da história dos negros no Brasil.

Oliveira, que disputou, sem sucesso, uma vaga no Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR) – órgão de assessoramento da ministra chefe da SEPPIR, Luiza Bairros – disse ter constatado que a maioria dos conselheiros ainda não conhecem o Movimento Clubista Negro.

“Entendo que um Conselho forte e consolidado deve ter em sua estrutura, entidades de matrizes originárias na história de formação deste país. Sendo imprescindíveis e legítimas as cadeiras permanentes para Quilombolas, Comunidade de Terreiro, Clubes Negros, Capoeira, Samba e  Carnaval”, afirma.

Na entrevista que concedeu à Afropress, ele faz um balanço do Movimento de Clubes Negros no país.

Afropress –  Qual a avaliação que você faz do Movimento Clubista no Brasil?

Luiz Carlos de Oliveira – O Movimento Clubista Negro no Brasil tem assumido um importante papel na vanguarda do Movimento Negro Brasileiro. Constituído de maneira organizada há menos de dez anos, tem contribuído enormemente na reconstrução da história dos negros do Brasil.

A origem dos Clubes Sociais Negrosl, em meados dos anos 1880, nos remete para um período importantíssimo da história dos negros deste país. Muitos destes clubes ainda estão desenvolvendo suas atividades em espaços construídos há mais de 100 anos por seus então abnegados associados.

É fundamental salientar que, na sua origem, estes espaços tiveram importante papel na sociabilização de nossa comunidade, muito antes do caráter recreativo que é uma marca registrada destes espaços, seu compromisso inicial se dava nas aquisições de cartas de alforria, cotização entre os membros para pagamentos de serviços fúnebres e também cotização para pagamentos das despesas médicas dos mais velhos e crianças. Sem falar na alfabetização, que era desenvolvida normalmente por mulheres que já dominavam algum conhecimento das letras.

Esta história, muitos já tinham conhecimento, porém com a organização nacional do Movimento Clubista Negro é que tomaram forma e corpo, dando o direito ao verdadeiro protagonismo de quem exerceu este importante papel na história de nossos negros e negras do Brasil.

Sempre me pergunto: nos dias de hoje, quais seriam as dificuldades de nos organizarmos para a aquisição de uma área de terra e consequentemente, construirmos um espaço comum de associabilidade que tivesse como premissa o desenvolvimento de ações de recorte étnico racial? E como que há mais de 140 anos, nós negros já conseguíamos desenvolver tais ações. Sendo assim, vejo como estratégicas as ações do Movimento Clubista Nacional, nos Estados do RS, SC, PR, SP, RJ e MG.

Com apenas seis anos de atuação, tivemos dois Encontros Nacionais, um no RS e outro em MG, participação e aprovação de suas demandas, já na 2ª Conferencia Nacional da Igualdade Racial, participação na Conferência Nacional de Cultura, participação ativa no encontro Ibero-Americano das Américas em 2011, sem falar no profícuo diálogo com a Secretaria de Especial de Políticas de Promoção de Igualdade Racial (SEPPIR) e Fundação Cultural Palmares.Tendo neste ano de 2012, avançado suas demandas para dentro da Secretaria Nacional de Direitos Humanos.

Afropress –  Quando tem início o Movimento Clubista no Brasil? Em que fase se encontra no seu processo de reorganização?

LCO – O início do Movimento Clubista Negro se dá a partir do I Encontro Nacional de Clubes Sociais Negros, realizado na cidade de Santa Maria/RS no ano de 2006, com apoio fundamental da SEPPIR. Nosso processo de reorganização encontra-se em uma fase crucial, que passa pela institucionalização de nossa entidade nacional com eleição da primeira executiva nacional, seu estatuto e regimento.

Levamos seis anos, trabalhando a visibilidade de nossas ações e fazendo a incursão de nosso seguimento para dentro do Movimento Negro Brasileiro, através de ações, como oficina no fórum social temático em 2011 em Porto Alegre, debates, fóruns, workshops sobre empreendedorismo étnico, entre outros.

Atualmente nossa maior dificuldade tem sido a execução de nosso projeto de mapeamento, que tem a finalidade importantíssima de oficialmente fornecer-nos o registro de nossa existência a fim de que possamos dar sequência ao processo de tombamento de patrimônio imaterial de nossos espaços com objetivo de combater e cessar as fortes pressões da especulação imobiliária e agressões racistas que sofremos em nossos espaços. Este projeto já teve edital aprovado, recurso duas vezes liberados, porém não acontece de fato.

E o pior é que, como o primeiro edital só tem valor para a região sul, não conseguimos viabilizar o lançamento do edital para mapeamento da região sudeste.

Sendo assim torna-se fundamental a instituição de nossa entidade nacional, dando-nos possibilidades de nos articularmos com outros setores com plena autonomia. Encontramo-nos na fase de construir políticas institucionais de Estado, a fim de consolidarmos nossas demandas.

Afropress – Quais as dificuldades enfrentadas pelo Movimento Clubista para se organizar nacionalmente? Quais os Estados em que o Movimento está mais enraizado e organizado?

LCO – As dificuldades são comuns as do Movimento Negro, ou seja, o poder ainda não está em nossas mãos. Para conhecimento, temos no RS, mais de 50 Clubes Sociais Negros com estrutura física própria de, em média, 600 m2 de área construída, mapeados, distribuídos em mais de quarenta cidades.

A maioria destes espaços tem, em média, 80, 90, 100 anos ou mais, enfrentando problemas de todas as ordens, de falta de estrutura física e administrativa, sem falar na ausência de políticas publicas para garantir a manutenção destes redutos de memória viva que ainda temos.

É muito bonito falar em editais de Pontos de Cultura no Brasil, porém, entendo que temos que desenvolver Pontos de Cultura em espaços que já são pontos culturais em sua origem, e não me atenho apenas aos Clubes Negros. Temos muitos outros Pontos de Cultura legítimos em nosso país que não são reconhecidos em sua ancestralidade e por seu notório saber. Isto apenas falando de Pontos de Cultura, sem falar em outros programas nos quais também não somos incluídos.

Em São Paulo, somos mais de 20 Clubes Sociais Negros já mapeados também em situações muito semelhantes. Quem nunca ouviu falar no Clube 220, no Aristocrata Clube, no 28 de Setembro de Jundiaí entre outros? No Rio de Janeiro, temos as pérolas do Palmares, de Volta Redonda, e do Renascença Clube, do Andaraí. Em Minas Gerais, temos mais de 15 organizações mapeadas, cito o Clube Mundo Velho da cidade de Sabará, que sediou o II Encontro Nacional de Clubes. Em Santa Catarina, temos também mais de 15 organizações mapeadas. Cito a Sociedade Novo Horizonte, com sua nova sede social localizada ao lado da casa do governador do Estado em um prédio com cinco andares e estrutura privilegiada. No Paraná temos, até o presente, oito entidades já identificadas. Cito a Sociedade Treze de Maio, de Curitiba, fundada no ano 1888.

Sem falar em outros Estados, onde identificamos entidades com as mesmas características que as nossas, mas que por ausência de informações mais precisas, ainda não conseguimos identificá-las como Clubes Sociais Negros.

Para nos organizarmos nacionalmente, temos que nos enxergarmos, temos que ter condições de apoio logístico por dentro de nossas estruturas e condições de transitarmos por dentro das esferas governamentais e sabemos que isto demanda desembolso financeiro.

Fico pensando nos desdobramentos que podem ser desencadeados a partir destas dificuldades e nas brechas que muitas vezes deixamos para a entrada de oportunistas de plantão que tornam nossas entidades reféns de seus propósitos.

Afropress – Você disputou recentemente assento no CNPIR pelo Movimento Clubista. Quais foram as dificuldades que resultaram na sua não eleição para o CNPIR?

LCO – Quando estive representando o Coletivo de Clubes Sociais Negros do Brasil (Entidade do Movimento Clubista Gaúcho) no evento que organizou o Encontro Íbero-Americano das Américas em Brasília no ano de 2011, constatei que muitos dos nossos conselheiros não reconheciam o Movimento Clubista Negro, tendo dificuldade de nos identificar. Já no RS na primeira audiência que tivemos com a recém então empossada ministra Luiza Bairros, da SEPPIR, em 28 de Março de 2011, entregamos uma carta de intenções onde solicitamos uma vaga de ouvidores junto ao CNPIR, afim de nos apropriarmos das temáticas lá abordadas.

Sendo que a disputa para este assento se dá para nós como uma afirmação de nosso seguimento para dentro deste Conselho de Igualdade Racial, onde a proposta era de fazer dois movimentos, ou seja, o primeiro, buscar a legitimidade por nosso histórico e ancestralidade; e o segundo movimento, o de amadurecimento de nossas entidades no âmbito desenvolvimento de ações nacionais.

Entendo que um Conselho forte e consolidado deve ter em sua estrutura, entidades de matrizes originárias na história de formação deste país, sendo imprescindíveis e legítimas as cadeiras permanentes para Quilombolas, Comunidade de Terreiro, Clubes Negros, Capoeira, Samba e Carnaval.

Se nós desconhecemos estas referências, não podemos nos queixar depois da perda de posições estratégicas nas coordenações destes espaços onde a cultura branca e seu capitalismo entram e se apropriam de toda nossa história e cultura.

Com este entendimento tentei levar a candidatura de um Clube Social Negro para dentro do CNPIR, inscrevi a minha Associação de origem, Associação Cultural Beneficente Floresta Montenegrina, na qual desempenho a função de vice-presidente com muito orgulho, uma entidade fundada em 26 de setembro de 1916, situada em uma região do Estado do RS, colonizada predominantemente por alemães.

Esta entidade tem assento no Conselho Estadual de Participação da Comunidade Negra do RS (CODENE) por duas gestões e vem assumindo seu protagonismo de clube Social Negros por todos os Estados de nossa federação.

Vejo com muito bons olhos o avanço para a democracia na escolha de nossos conselheiros junto ao CNPIR, porém, ainda entendo que devemos ampliar a democratização de acesso à informação do pleito, levar em conta o reconhecimento das entidades históricamente constituídas, ter um critério que amplie o número de Estados lá representados, restringindo a participação de mais de um representante por Estado, e a consolidação de um canal de comunicação com os Conselhos Estaduais de Igualdade Racial.

E, fundamentalmente, que tenhamos um edital bem definido e claro em suas solicitações, sem brechas para subterfúgios jurídicos que maculem a seriedade do processo, com todos os prazos muito bem definidos.

Afropress – Faça as considerações que considerar relevantes.

LCO – A cada dia que passa, tenho mais convicção e entendimento da importância dos espaços dos Clubes Sociais Negros para suas comunidades. Lá discutimos associabilidade, desenvolvemos oficinas diversas, ações culturais, programas educacionais, esporte, lazer entre outros, em um espaço plural, onde circulam todos os outros seguimentos – todos; digo que, para mim, é o espaço mais plural da história do Movimento Negro Brasileiro e de vanguarda.

Estamos na iminência de participar de mais uma Conferencia Nacional de Promoção de Igualdade Racial. Então faço, desde já, um pedido de atenção para com as demandas de nossos redutos de manutenção de Cultura Afro-Brasileira que é assim como defino nossos Clubes Sociais Negros, a fim de entendermos a importância de reafirmamos a manutenção destes espaços.

Quem de nós, não tem uma história de vida fundamentada em um Clube Social Negro? Se não você, mas alguém de sua árvore genealógica? Pergunte a alguem de sua Família.

Sendo assim também quero deixar um compromisso para nossos gestores para que discutam suas demandas com suas comunidades e cidades, que abordem temas de nosso cotidiano, tais como Cultura, Educação, Saúde, Gênero, Empreendedorismo, entre outros. Que possamos nos organizar para aprovar nossas demandas nos Estados e que possamos tirar um número significativo de delegados para juntos homologarmos nossas propostas na Conferencia Nacional com acordos e apoios dos demais membros do Movimento Negro Brasileiro.

Por fim, quero já encaminhar um demanda coletiva: que tenhamos recorte racial e segmentado em todas as outras Conferências organizadas pelas esferas governamentais. Temos que ter o poder de discutir nossas temáticas também nestes outros espaços, afim de realmente ampliarmos o processo de ações afirmativas neste país.

Quero agradecer a Afropress pela grande oportunidade de expressão e desejar a todos os leitores um ano repleto de alegrias, glórias, realizações e muita luta. 

Da Redacao