Rio – O Movimento Umbanda do Amanhã (MUDA) realizou nesta sexta-feira a mesa sobre intolerância religiosa do 2ª Simpósio de Umbanda.  A noite fechou o encontro de dois dias que também discutiu a responsabilidade dos religiosos com a questão ambiental.  O palco deste grande encontro de religiosos e acadêmicos com palestrantes de referência nacional e internacional foi a UERJ. Dessa vez o hino de Umbanda foi entoado pelo ogã João Paulo. 

A vice-presidente do MUDA, Marilena Mattos, abriu o encontro agradecendo pela presença de todos os convidados. "O encontro de hoje é de grande importância. Estamos unidos em nome de um bem maior, de um Deus. A grandiosidade de uma única luz, de um único Deus. Cada um acende essa lâmpada como quiser", ressaltou a umbandista sobre a importância da diversidade religiosa. 

Para o professor de História da Universidade Estácio de Sá,  Rodrigo Rainha, "A religião tem forte aspecto cultural. A maneira como se fala de religião hoje não é a mesma de 30 ou 40 anos atrás. Existe um falso discurso que somos uma democracia racial. Nós somos uma país construído sobre dominação européia. No Brasil tudo que deriva de sua tradição negra deve ser renegada. Nós somos ensinados desde a escola que o que vem da Europa é sociedade e de negros e índios é tratado como tribo", chamou a atenção.

Intolerância religiosa

O advogado e fundador da Associação Nacional de Mídia Afro (ANMA), Márcio de Jagum, disse que nenhum religioso de qualquer matriz pode professar a intolerância religiosa.  "O tema intolerância religiosa é o espinho do nosso sapato. Cada um de nós foi, é ou será alvo de intolerância. Eu não tenho que ouvir pregação para dizer que sou bonzinho. Eu tenho que respeitar o sagrado alheio", refletiu.

De acordo com o professor da escola de Comunicação da UFRJ, Fernando Mansur, "A minha visão da verdade é apenas parcial. A visão dos demais pode nos ajudar muito. Somente o amor nos une e constrói. Se a pessoa não tiver amor que diferenças faz ter uma religião? O Brasil com sua diversidade religiosa é um exemplo para o mundo", afirmou. 

Segundo a socióloga e assessora da Coordenadoria de Direitos Humanos do Município do Rio, Flávia Pinto, "A intolerância religiosa já é cultural. Recebemos denúncia de escolas que demonizam autores e compositores famosos. Professores e pais neopentecostais que tentam impedir a leitura de Jorge Amado e o trabalho regional com Luiz Gonzaga, por exemplo".

"Por isso, temos que rever as concessões públicas de TV, que se utilizam de um espaço para demonizar as religiões afro. É preciso que tenhamos em mente a perseguição que sofremos e o processo de embranquecimento cultural. No coração que habita o preconceito não habita a presença de Deus", afirmou Flávia. 

Homenagem

Durante o evento a policial Militar do Estado do Rio de Janeiro, Flávia Louzada, que foi vítima de intolerância religiosa por ser umbandista e que carrega a imagem de São Jorge, sincretizado pelo orixá Ogum, em sua farda foi homenageada. "O mesmo orgulho que tenho da minha farda tenho do meu terreiro. O que define o caráter de uma pessoa não é sua crença, mas sua atitude", ratificou.

A mesa foi encerrada como agradecimento e parabenização da coordenadora executiva do Programa de Estudos e Pesquisas das Religiões da UERJ, professora Telma Gama, ao MUDA. "Quero dizer que a casa (UERJ) está aberta. O importante sempre é realizar o melhor possível. A escolha dos palestrantes é fundamental. Sei que cada detalhe desse simpósio foi pensado com o maior carinho e responsabilidade. Me sinto feliz de receber vocês aqui. Sou filha carnal de ciganos e sofri na pele a dificuldade de se locomover dentro da sociedade. Sofri intolerância dentro da escola. Então, quero que a universidade acolha todos vocês", emocionou-se. 

O simpósio de Umbanda foi encerrado com a apresentação do cantor Julinho e a performance de balé afro. O presidente do MUDA, Marco Xavier, fez um balanço dos dois e dias e disse anunciou o 3º Simpósio de Umbanda em 2016. A ideia do encontro é bienal e, de acordo com Marco, que seja um encontro nacional. 

Na quinta-feira (27) o encontro foi sobre a responsabilidade dos religiosos com o meio ambiente a contou na mesa com o deputado e ex-ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, a diretora do Instituto de Geografia da UERJ, professora Aureanice de Mello Correa, a coordenadora do projeto Relatório de Avaliação do Direito ao Meio Ambiente (RDMA) e professora de História, Carla Lopes, e o professor do Departamento de Economia da PUC-RJ e ecologista, Sergio Besserman. 

 


 

Da Redacao