S. Paulo – Oito meses depois da saída da Educafro, e cinco após fundarem uma nova entidade – a União de Educação Popular para Negros (as) e Classe Trabalhadora -, os dissidentes da maior Rede de Cursinhos Pré-Vestibulares do país – rompem o silêncio e revelam com detalhes as divergências com a liderança do Frei David Raimundo dos Santos, o diretor executivo da entidade, a quem acusam de autoritária e mandonista e com quem dizem ter profundas divergências políticas e ideológicas.
Na entrevista à Afropress, Douglas Belchior, Clayton Borges e Heber Fabundes – respectivamente, Coordenador Político, Coordenador jurídico e Coordenador Geral da Educafro – contaram que as divergências vinham ocorrendo desde 1.998, e que a gota dágua aconteceu no Retiro de Guararema, em julho de 2.008, na Escola Nacional Florestan Fernandes, mantida pelo MST, quando decidiram que a Educafro deveria se tornar um movimento social, rompendo as limitações impostas até então pelo Frei. “A partir daí nossa vida virou um inferno”, afirmam.
Tensão máxima
Um mês antes do racha se tornar público, disseram que a tensão chegou ao ponto máximo e procuraram o Frei para fazer um pedido. “Nós não concordamos com a linha que o senhor quer impor, vamos sair. Mas, quando for perguntado sobre a nossa saída diga a verdade. Quando retornamos no dia seguinte, no mural de entrada, estava fixado o aviso: que tínhamos sido demitidos”, afirmam.
A partir daí, contam os jovens dirigentes, passaram a enfrentar uma campanha de calúnia, injúria e difamação, que passou, inclusive, por terem suas vidas e privacidade vasculhadas, e pressões sobre os estudantes que simpatizavam com suas teses de que perderiam suas bolsas na Universidade S. Francisco.
Em março, eles criaram a Uneafro, hoje organizada em 14 municípios do Estado, em 42 Núcleos, incluindo a capital. Segundo os ex-dirigentes da Educafro, a nova entidade tem cerca de 550 filiados – entre ativistas e simpatizantes. “Só não crescemos mais por conta da campanha de difamação contra nós”, acrescentam.
Silêncio
Frei David foi procurado para falar sobre o caso, porém, não deu resposta ao e-mail enviado pela Redação de Afropress, com o pedido de entrevista. Desde que o racha tornou-se público, em janeiro, o Frei sistematicamente se recusa a dar sua versão e ignora pedidos de entrevista de Afropress.
A Uneafro é dirgida por uma Conselho Geral operativo composto por 84 integrantes, e seus ativistas estão espalhados em 12 Grupos de Trabalho. Entre os simpatizantes da nova entidade estão, a Defensora Pública Tatiana Belons e os Freis José Francisco dos Santos, Frade Animador Provincial do Serviço Franciscano de Solidariedade (Sefras) e Frei Antonio Leandro da Silva, ex-coordenador do Fórum SP da Igualdade Racial, responsável pela coleta de 100 mil assinaturas em São Paulo pela aprovação do Estatuto da Igualdade Racial.
A entrevista aconteceu na semana passada, no Sindicato dos Comerciários de S. Paulo e dela participaram Wagner Nascimento, da Regional Uneafro ABC Paulista, e Flávio de Paula, da Regional Uneafro Centro – todos membros do Conselho Geral da nova entidade.
Veja, na íntegra, a versão dos ex-dirigentes da Educafro.
Afropress – Há quanto tempo militavam na Educafro e porque romperam com a entidade e com o Frei David?
Clayton, Douglas e Heber – Nossa militância política não começou na Educafro. Cada um teve sua atuação militante em Pastorais, CEBS, Grêmios estudantis, Associação de moradores de Bairro, Movimentos Sociais, APN´s e setores de juventudes de partidos de esquerda. A militância em núcleos da Educafro veio com o tempo. E foi um grande exercício de aprendizado.
No início de 2009, participantes de vários núcleos (cursinhos comunitários) e membros da sede nacional daquela instituição anunciaram sua saída por dois principais motivos: 1º por discordâncias com o método de trabalho e com o modelo de organização impostos pelo recém reempossado diretor, cravada na prática da centralização das decisões e na negação do espaço de protagonismo das lideranças, dos núcleos e das regionais. 2º pela discordância político-ideológica, uma vez que defendemos que é importante levar com intensidade a causa do negro para todas as dimensões da luta popular, obedecendo à compreensão de que o combate ao racismo e a defesa de cotas e ações afirmativas precisa estar aliada às lutas sociais mais amplas, contra as estruturas que geram as desigualdades do sistema capitalista.
Nossa proposta foi e é de, além de ser intransigente no combate as elites conservadoras e racistas, de pautar a questão étnico-racial também nos setores da esquerda brasileira que, de certa maneira, deve maior atenção às especificidades da população negra. Infelizmente a prática trazida de volta naquele momento apontava para uma atuação mais conciliadora e de parcerias com setor bancário, empresarial e até com figuras tais como o diretor da Faculdade de Direito da USP, João Grandino Rodas que, há dois anos ordenou que a tropa de choque violentasse militantes da própria Educafro durante Ato pacífico no campus do Largo São Francisco.
De nossa parte houve tentativas de conciliação, mas percebemos a incompatibilidade entre os dois modelos. Por isso saímos por nossa livre iniciativa. É importante ressaltar que somos a favor da pluralidade e do respeito mútuo entre as diferentes formas de lutas do povo organizado. Orgulhamos-nos de cada conquista alcançada pela entidade durante todo esse tempo uma vez que, ao lado de milhares de sonhadores, ajudamos a construí-la. Não há como esconder a história e a luta dos cursinhos comunitários na questão étnico-racial. Esta é uma causa linda, digna e justa que ainda vai trazer grandes ganhos para a população negra.
Afropress – Vocês, à época denunciaram, que o Frei David encarna um estilo de liderança, com o qual vocês passaram a fazer profundo questionamento. Como é que esse estilo se dá na prática?
Clayton, Douglas e Heber – O principal ponto de desacordo se dá na leitura do mundo e do papel enquanto organização que se propõe congregar negras, negros e pobres em geral. O movimento de cursinhos comunitários urbanos mobiliza muitas comunidades e milhares de pessoas. Nós achamos que uma organização precisa ser dirigida pelo povo que a compõe.
A lógica de ONG submete essa população a “atendidos” ou “clientes”. Nós defendemos o protagonismo de negras e negros, da juventude e dos trabalhadores em todos os espaços. Começamos a colocar isso em prática naquela entidade, por meio de encontros deliberativos e congressos, ‘batizados’ de Retiros de Coordenadores de Núcleos.
Com o passar do tempo a Educafro cresceu e se espalhou por várias regiões. Entendemos que o seu crescimento (numérico e qualitativo) e o amadurecimento de que os cursinhos comunitários poderiam se constituir em um grande movimento social urbano, o que, por sua vez exigia mudanças naquele velho modelo.
Nós percebemos que aquele modelo, embora gerasse resultados, não contemplava a proposta que defendemos. Os questionamentos não surgiram da noite para o dia, e nem somente nos últimos meses. Foi um processo de amadurecimento ao longo dos anos, que sempre veio à tona nas discussões internas, de várias formas. Não houve acordo quanto ao modelo de organização. Saímos para provocar a reflexão, para propor algo mais democrático e de luta.
Afropress – Vocês foram acusados pelo Frei ou por gente ligada a ele de serem aventureiros e por termos que não faz jus à história de militantes da Causa. Como se sentiram e como reagiram?
Clayton, Douglas e Heber – A utilização da tática da difamação pessoal visou nos desqualificar enquanto militantes ou coordenadores de núcleos. Alimentar falsas denúncias e questões do plano pessoal e individual é uma forma de fugir do debate das idéias políticas e de um projeto de sociedade.
Preferimos responder com nossa prática. Acreditamos que a prática é ao critério da verdade. Temos realizado um trabalho sério. Aprofundamos nossa relação com os movimentos sociais de luta. Mantemos relações institucionais com importantes universidades e entidades e, acima de tudo, mantivemos a confiança de nossas bases. Hoje são 42 nucleos espalhados por todo o Estado de SP, coordenados por gente do povo, que sonha com a revolução brasileira e que corre atrás desse sonho. Essa é nossa resposta: ações organizadas na periferia, nas escolas públicas e junto a outros movimentos organizados, em defesa da população negra!
Afropress – O que é hoje a Uneafro, quantos núcleos, quantos militantes, como se organiza, quem é a direção?
Clayton, Douglas e Heber – A UNEafro-Brasil é um movimento social negro, de atuação urbana, que tem como eixo norteador o campo da Educação Popular dirigido a questão étnico-racial. Traz no próprio nome sua autodefinição: União de Núcleos de Educação Popular para Negras, Negros e Classe Trabalhadora. Por reunir em sua construção inicial militantes de causas distintas tais como a luta anti-racista, das mulheres, da diversidade sexual, educação libertária, contra a exploração econômica, em defesa da cultura negra, somos um movimento que atua nestas diversas frentes, sempre levando a problemática social do negro em primeiro lugar.
Somos hoje 42 núcleos, em 14 municípios do Estado. Reunimos mais de 550 filiados em diversas Universidades. Quanto aos núcleos, é impossível apresentar um número exato de participantes. Cada núcleo atinge diretamente cerca de 60 pessoas. Em muitos casos o público é rotativo. Sempre há desistências e novas adesões de alunos, assim como de solidários.
Mas, indiretamente a comunidade também participa das ações locais do núcleo. Exemplo: em uma escola pública com duas salas cedidas para a UNEAFRO em que haja agitação positiva as atividades acabam atingindo todas as outras salas de aula, o porteiro da escola a merendeira a faxineira, etc.. Nossa proposta foi e é de nos relacionar com os moradores da favela ao lado da escola dos grupos de Hip-Hop e dos times de futebol. Num protesto organizado em um Posto de Saúde, em São Mateus – por exemplo, quem são os participantes? Os 40 membros do núcleo ou os 400 cidadãos que acompanharam a atividade no bairro? Ou seria os 4 mil que leram o panfleto do protesto? Ou ainda: seriam os milhares que viram a repercussão no jornal e na rádio? Por isso o alcance é imensurável.
O núcleo de base é o pilar de nossa organização. É a célula, o ponto de encontro, a força que nos move enquanto grupo social. Para a UNEAFRO o conceito político de núcleo é mais amplo. O tradicional cursinho comunitário pré-vestibular é um dos modelos possíveis de núcleo. Talvez o mais difundido e que congrega maior vocação popular em nosso meio. Mas há também núcleos focados no ENEM, vestibulares públicos, concursos, artes, cultura e esportes. Alguns destes já estão em atuação: Núcleo de atividades culturais e teatrais em Poá ou no Pq. São Rafael; Núcleo de práticas esportivas com adolescentes negros em Rio Grande da Serra. O que define a atuação de um núcleo é seu caráter comunitário e a formação política, presente em todos.
A direção da UNEafro é composta pelos núcleos, na execução diária das atividades, com autonomia local/regional. Dois representantes de cada núcleo são indicados para o CGU (Conselho Geral da Uneafro) que define e cobra a linha política e social do movimento. Os momentos de deliberações são as Assembléias Gerais, sendo que a primeira aconteceu nos dias 26 e 26 de julho/09.
Afropress – Qual é a proposta política e ideológica da nova entidade, tendo em vista que vocês no Manifesto de fundação anunciaram o rompimento com o onguismo? O que significa na prática isso? Ao privilegiar a relação e convênios com instituições que mantém bolsas de estudo, na prática, vocês não estão reeditando o mesmo modelo da Educafro? A Uneafro é a Educafro do B?
Clayton, Douglas e Heber – Neste caso específico, o termo “onguismo” se refere àquelas organizações não governamentais que se utilizam da prática assistencialista para manter sob sua tutela o público que a procura. Há uma contradição enorme na existência da Educafro e nunca a escondemos enquanto dela participamos. São as contradições que nos movem. Ao mesmo tempo em que, em seu discurso, ela propõe a organização e a busca de autonomia pelo povo negro e pobre a partir principalmente do acesso à educação, ao mesmo tempo trata essa população como “assistida” ou “cliente”.
A própria Igreja em seu trabalho pastoral social há muitos anos abandonou esse modelo. Ao contrário, os setores progressistas da Igreja católica, através de várias frentes tais como as CEB’s, CPT, Grito dos Excluídos Sefras e várias Pastorais Populares de luta buscam uma integração com sua comunidade no sentido de despertá-la para o protagonismo e para a formação política.
O que tentamos fazer na Educafro foi isso: dar lugar e espaço de protagonismo ao povo que a compõe. Provocar e legitimar a formação de novas lideranças. Para isso é preciso equilibrar a tática de fortalecimento de uma figura pública, com o protagonismo de jovens, mulheres, pessoas da periferia que levam a frente o movimento. Até mesmo para fortalecer as causas locais e regionais.
Isso não tem nada a ver com a busca por oportunidades para a população negra através da cooperação entre a entidade e algumas Universidades que reconhecidamente apresentam compromisso social. O problema não está em oferecer o benefício e sim em manter a tutela das pessoas a partir deste vínculo e a relação hierárquica estabelecida. Outras duas diferenças são na construção das parcerias, que a nosso ver devem ser propostas pelos núcleos de base, a partir de realidade local.
A segunda diferença é quanto a participação dos filiados ao movimento, que não será como uma “obrigação contratual”, mas por conseqüência da formação política permanente e a partir de convites à exercerem sua militância junto à periferia que o ajudou. A tática de empoderamento via acesso às universidades, não pode ser confundia com a estratégia maior de construção de uma nova sociedade.
Afropress – Quais são as prioridades da Uneafro? Por que não participaram de forma organizada das Conferências e como vêem o CONNEB?
Clayton, Douglas e Heber – Estamos em plena fase de estruturação interna. Está em nosso projeto de curso prazo a participação ativa e combativa junto às pautas do movimento negro geral. Quando anunciamos o surgimento de uma nova organização do movimento negro, a demanda de trabalho aumentou. Durante o processo, foi avaliado que precisávamos fortalecer a organização internamente. Todos nós retornamos para as bases para fundar novos núcleos e para reestruturar aqueles que nos acompanharam. Ainda assim, participamos das Conferências da Igualdade Racial em 3 regiões.
Cada organização do Movimento Negro geral tem sua importância histórica. Estamos dispostos a amadurecer nossa relação com todas as organizações do movimento negro que entendam a luta anti-racista como potencializadora da luta anti-capitalista e vice versa.
Afropress – A Uneafro estaria disposta a recompor a Frente que formou como Brasil Afirmativo e Sindicato dos Comerciários, CONAD/OAB etc, visando pressionar o Congresso a votar o Estatuto?
Clayton, Douglas e Heber – Para combater o capitalismo escolhemos lutar contra o racismo que, acreditamos, é a mais perversa das várias dimensões da luta de classes no Brasil. Tomamos como tarefa provocar todos os setores para a questão do negro. Lutar contra o racismo inclui cobrar e responsabilizar o Estado Brasileiro pela barbárie a qual foi condenada historicamente a população negra.
A cada momento da conjuntura avaliaremos e estaremos ao lado das organizações que se proporem a esse combate. Se esse for o caso do Movimento Brasil Afirmativo, do Sindicato dos Comerciários e do CONAD/OAB, estaremos juntos nessa luta.
Afropress – Qual a posição da entidade em face das eleições 2010? A Uneafro tende mais para Serra ou para Dilma, ou se manterá equidistante da disputa eleitoral?
Clayton, Douglas e Heber – Em primeiro lugar é preciso reconhecer que, tanto os processos eleitorais quanto os grupos que têm ocupado os espaços de poder em nosso país não estão conseguindo atender os anseios e as necessidades da nossa população. Ainda assim, não existe força social ou projeto de superação desde modelo de organização e disputa de poder.
Mas, de qualquer maneira, nos alinhamos a idéia de que é preciso construir uma nova alternativa para esse país. Essa alternativa política passa necessariamente pela organização cada vez maior dos movimentos sociais. Nesse contexto, a população negra ganha importância uma vez que compomos mais da metade da população brasileira e somos maioria absoluta entre os oprimidos. Enquanto esse momento não chega, nos cabe a discussão eleitoral. Não nos ateremos a nomes de pessoas ou a partidos. Valorizaremos um projeto a ser defendido.
Que projeto de país defende a Sra. Dilma? Que projeto de país defende o Sr. Serra? Serão apenas esses dois projetos em debate? Não há alternativas a eles? De qualquer maneira, estamos em constante debate. Teremos uma nova Assembléia Geral entre os meses de Janeiro/Fevereiro onde essa questão será aprofundada, afinal priorizamos os debates em cada núcleo de base.
Afropress – Façam as considerações finais.
Clayton, Douglas e Heber – A força necessária para a derrota do sistema hegemônico será alcançada na medida em que as diferentes frentes de mobilização social estiverem unidas. Daí a importância em valorizar as bandeiras específicas de luta. Quanto a luta de negras e negros, a UNEafro acredita que a revolução brasileira virá a partir do comando da classe majoritária, pobre e duplamente oprimida, social e racialmente. E quando por fim, os setores mais explorados, encabeçados pelas/os negras/os levantarem a bandeira do socialismo, o triunfo estará próximo.
Queremos destruir todas as formas de exploração e discriminações que movem o mundo capitalista. Essa é a esperança: ao reviver na prática cotidiana o exemplo revolucionário da República Comunista de Palmares, construir um país independente, justo e humanizado, onde não mais haja espaço para o racismo.
Tudo isso só será possível se as diversas organizações do Movimento Social e Negro, construírem e mantiverem uma relação de respeito mútuo e compromisso efetivo com as causas sociais.

Da Redacao