Na região metropolitana de São Paulo, por exemplo, embora representem 33% da população, os afrodescendentes ocupam apenas 4,4% desses cargos. Em Salvador, cidade que tem 81,8% da sua população negra, apenas 10,3% ocupam cargos de chefia. Empresas com bons salários não tem o hábito de contratar negros e, quando o fazem, é para funções menos qualificadas e remunerações inferiores.
Quando conseguem furar as barreiras de acesso, os negros ganham menos – em média, a metade de um trabalhador não-negro. Dados do DIEESE mostram que apenas 54,5% do salário de um trabalhador não-negro.
Outra pesquisa, esta do Instituto Sindical Interamericano pela Igualdade Racial (INSPIR) encomendada pelo Sindicato dos Comerciários de São Paulo, revela que os shoppings praticamente não contratam negros: os afrodescendentes são apenas 15% da mão de obra contra 85% de brancos. Nos cargos de chefia, os negros ocupam só 2% dos postos.
As origens dessas barreiras são históricas. A Abolição da Escravidão, no Brasil se deu sem que o Estado adotasse qualquer política de inclusão e amparo ao povo negro. De uma hora para outra essa gente se viu jogada na rua, sem casa, sem acesso à Educação e sem emprego. Mais do que isso: a elite racista brasileira pretendeu branquear o país e transformou esse objetivo em política de Estado.
Primeiro, com a queima dos arquivos da escravidão, em 1.891; depois estimulando, inclusive com a garantia de terras e trabalho, a vinda de milhões de imigrantes europeus – em especial italianos e alemães. Toda a mão de obra assalariada foi importada da Europa, enquanto que por aqui os negros vagavam de um lugar para outro sem trabalho.
Há ainda quem tente justificar a falta de acesso, pela pouca qualificação ou formação acadêmica. São processos de exclusão concomitantes: é fato que a falta de acesso à educação torna mais difícil, quando não impossível, a entrada no mercado de trabalho. Porém, pesquisa feita pelo DIEESE, em novembro do ano passado, mostrou que as empresas preferem pagar o dobro do salário a um branco a contratar um negro, situação que se agrava no caso das mulheres, até há pouco vítimas do quesito “boa aparência” que, associado ao padrão de beleza único vigente – o tipo loiro escandinavo – as excluía e, em muitos casos, continua excluindo liminarmente de qualquer chance de emprego.
O mais chocante é que o Brasil, além de já dispor de uma vasta legislação de combate à discriminação no mercado de trabalho é signatário de Documentos e Resoluções em Fóruns Internacionais como a Convenção Internacional Sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (Dec. 65.810/69) e da Convenção 111, que trata da discriminação em matéria de emprego e profissão (Dec. 62.150/68), entre outros.
Mesmo assim, empresas continuam adotando mecanismos de exclusão velados, única explicação possível para os inúmeros indicadores. Ao fazê-lo, não apenas se colocam na contramão da história, mas deixam de tirar proveito das enormes possibilidades abertas pelos ambientes que respeitam e valorizam a diversidade racial e étnica.
Universidades americanas e algumas grandes empresas como a IBM, por exemplo, já descobriram que esses ambientes são mais produtivos: “A força de trabalho diversificado é mais forte do que a baseada num padrão único”, afirma a gerente de talentos, Luciana Camargo, em entrevista recente ao Caderno Empregos, do Jornal Folha de São Paulo.
Assim pensam as empresas que começam a firmar acordos coletivos com o Sindicato dos Comerciários de São Paulo, garantindo cotas de 20% nos seus quadros para trabalhadores negros. Empresas como as Camisarias Colombo – pioneira neste tipo de acordo – as Casas Bahia e, mais recentemente, a Rede Marabraz, já entenderam que garantir diversidade no mercado de trabalho, além de legal, é bom para todos.

Dojival Vieira