Na última década, a sociedade brasileira que parecia deitada eternamente em berço esplêndido, acordou de maneira geral, com relação a um mito que apesar de desmascarado já nos anos 50 do século passado, na trilha do famoso trabalho da UNESCO, realizado por importantes cientistas sociais nacionais e estrangeiros (entre eles os grandes Oracy Nogueira, Florestan Fernandes, Thales de Azevedo, L. A. Costa Pinto, Roger Bastide e Marvin Harris), habitava e ainda habita no imaginário de muitos brasileiros, o mito da “Democracia Racial”; racismo e desigualdade eram assuntos tabu, presentes apenas nas discussões do Movimento Negro (MN), nos trabalhos acadêmicos de um número reduzido de pesquisadores, ou relegados à dados dos Institutos de pesquisa e estatística até então pouco divulgados e conhecidos.
Porém, tal situação mudou com o advento da Internet no Brasil e com a proposição nas casas legislativas, de leis e políticas de Ação Afirmativa (AA), que poderiam efetivamente alterar o “status quo” das relações de raça e classe no Brasil.
Juntamente com o acesso facilitado à informação, a capacidade ampliada de articulação dos movimentos sociais (entre eles o MN) e o início dos processos de reivindicação legal de AAs, surgiu uma verdadeira onda reacionária formada por políticos, catedráticos até então desconhecidos do grande público, artistas “controversos”, jornalistas, internautas e estudantes de classe alta/média, além de veículos de comunicação alinhados com a mentalidade neo-liberal, em tal frente se alistaram até mesmo sindicalistas obscuros e marxistas ortodoxos que teimam em enxergar tudo como “questão de classe”, remetendo as respectivas soluções sempre a um universalismo utópico e plenamente socialista; como manda as regras do meta-racismo até movimentos “anti-racistas fakes” contrários as AA apareceram do nada para “apoiar” os que defendem a idéia de que vivemos uma “democracia racial” ou que reconhecendo não existir tal “democracia” enxergam as AA com recorte racial como um “perigo ainda maior” para a democracia e relações sociais.
É interessante perceber, que nomes nunca antes ouvidos nas discussões ou citados em estudos sobre a temática étnico-racial brasileira, começaram a pulular na mídia conservadora e “embasar” a argumentação dos que apaixonadamente reinventam o velho discurso da democracia racial brasileira, a quem me refiro como NEO-DEMOCRATAS-RACIAIS; com suas desastradas tentativas de ocultar ou distorcer o obvio…, “desqualificando” ou ignorando trabalhos sérios e metódicos elaborados desde muito antes das AA começarem a se materializar, ou ao fazer “re-engenharias mirabolantes” com as claras estatísticas, “provando” que absolutamente todos os institutos estão “errados” e apenas eles certos… .
È impressionante observar as falácias primárias em sua argumentação, bem como o cinismo meta-racista com que tentam travestir de “anti-racistas e pró-democráticas” suas ações e argumentações, chegando ao cúmulo de tentar “inverter os papéis” acusando conhecidos combatentes históricos do racismo de “racistas”, ou de forma alarmista anunciando “divisões”, ódios, preconceitos e discriminações que no seu entendimento nunca existiram nem existem…. , mas que se tornariam realidade justamente pelas políticas criadas para coibi-las…, o que por analogia seria algo como dizer que instalar um maior número de semáforos e radares em uma cidade fará surgir um sentimento geral de aversão às leis de trânsito, estimulando assim as transgressões, aumentando a violência no trânsito, o número de acidentes e de multas, coisas que antes “não existiam” porque todos já “andavam na linha” .
Um detalhe irônico é que as “estrelas” neo-democratas-racias, que afirmam ser o Brasil um ” país mestiço” (quando na realidade é multi-racial ), que “não somos racistas”, que “não é possível” dizer quem é branco e quem é negro no país…(chegando ao cúmulo de promover pesquisas para “provar geneticamente” que nossos mais famosos e óbvios negros são na realidade mais “europeus” que africanos…, só esqueceram de fazer um teste de africanicidade com os mais famosos e poderosos brancos do país…, será que o resultado seria assim tão “misturado”?), que todos, independente da cor ou origem tem direitos e oportunidades iguais de atingir o patamar em que eles mesmos se encontram…(apesar dos negros serem obviamente uma raridade no patamar em que estão); se colocados em uma relação apenas com seus sobrenomes mais conhecidos, relação esta lida com entusiasmo por um narrador esportivo, daria a impressão de se estar falando de uma seleção esportiva européia completa (e não é a portuguesa…), já no “segundo time” até que aparecem alguns nomes tipicamente brasileiros…; é importante deixar claro que esta observação não tem nada de “xenofóbica”, mas dá bem a dimensão de quem é, de onde vem e de “onde fala” a “elite de intelectuais brasileiros” que se arvora em “defender” o país de “perigos” iminentes à democracia e igualdade .
Começando em dizer que “não somos racistas”, depois alardeando em uníssono “divisões perigosas” e por fim “descobrindo” na “cabeça do brasileiro” que as elites são “boazinhas” e progressistas, a mentalidade reacionária e tacanha estaria pasmem, em maior parte “na cabeça” dos analfabetos…, que seriam então os “grandes vilões” do pensamento brasileiro.
Quando ouvi a chamada de matéria que falava em bombásticas revelações em livro sobre “a cabeça do brasileiro” em importante telejornal (por sinal comandado por um neo-democrata-racial), desconfiei que “vinha coisa”; ao ouvir que pesquisa demonstrava que era “erro” imputar “à elite” de maneira geral a pecha de reacionária, já que há diversas “elites” e a de que trata a pesquisa é a elite educacional (como se não houvesse qualquer relação entre elite educacional e econômica…), que os analfabetos é que eram os responsáveis pelas idéias mais reacionárias e que os mais educados eram justamente os mais progressistas, não contive um “risinho irônico”… .
Ainda na matéria surge uma constatação “inédita”…, na pesquisa quando confrontados com fotos de três homens (um mecânico “branco”, outro mecânico pardo e um professor preto) e perguntados sobre qual seria o melhor candidato para casar com a filha do entrevistado, na resposta de 43% a escolha foi o mecânico branco, 27% preferiram o professor preto e apenas 15% o mecânico pardo…; a impressão é que o “recado embutido” seria de que realmente a maioria prefere o branco…, mas que o fato de ser preto ao contrário do esperado não colocou o preto na última posição…, o que teoricamente daria ao pardo uma carga maior de rejeição…, “provando” a não discriminação maior para com os pretos…; uma falácia aparentemente coerente… para os mais desatentos… , não fosse o detalhe do preto ser professor…, portanto do ponto de vista social teoricamente “melhor partido” que os dois mecânicos… e o fato de não ter sido feita (ou pelo menos divulgada) a pesquisa com os 3 na mesma condição (todos professores ou todos mecânicos), aí sim ficaria muito claro a “cabeça do brasileiro” com relação a cor ).
Outro detalhe é que somando os percentuais temos apenas 85%…, o que leva a crer que 15% não responderam…., temos duas possibilidades: ou não se sentiram confortáveis em declarar sua preferência pelo branco (o que aumentaria a preferência pelo branco para 68%… abarcando comparativamente toda população que se auto-declara “branca” (52%) e avançando 16% dentro da população que se auto-declara parda ou preta (47%) e amarela/indigena (1%)…), ou então sendo muito otimistas seriam os “tanto faz” (uma minoria de brasileiros para a qual a cor não faz qualquer diferença…), o que de uma forma ou de outra desmonta a idéia do “não somos racistas”).
A matéria citada segue, quando entra a comentar os resultados da pesquisa que “livra a cara” da elite, por estranha coincidência…, justamente outro famoso neo-democrata-racial e amigo dileto do comandante neo-democrata-racial que controla o telejornal…, aí não foi possível conter as gargalhadas…, patético, era o que faltava para tirar qualquer dúvida sobre a intenção do mais recente libelo da agora “elite boazinha” … .
Vamos aguardar pela próxima trapalhada da tropa de choque neo-democrata-racial…

Juarez C. da Silva Jr.