De dentro dele ouve-se uma voz que faz qualquer inocente tremer, “Se você deve, eu vou pegar a sua alma”. O blindado tornou-se o bicho-papão de crianças e adultos. Segundo o tenente-coronel Aristeu Leonardo Tavares, chefe do setor de Relações Públicas da Polícia Militar do Rio de Janeiro, “O blindado visa trazer maior segurança para os policiais militares. Quem está assustado está devendo”.
Mas por que a população teme tanto à polícia? Por que a população teme tanto quem tem por dever zelar por sua vida e segurança? Nas comunidades periféricas, a figura do bandido, do traficante, é venerada, enquanto da polícia vista com medo e desconfiança. Será que está havendo inversão de papéis?
A Ouvidoria da Polícia de São Paulo, registrou que nos primeiros meses de 2003, a polícia foi responsável pela morte de 464 pessoas, número muito próximo do que foi registrado em todo ano de 2002, em que foram registradas 574 mortes.
Talvez o “medo nacional” (ou pelo menos paulista e carioca), possa ser traduzido pelos seguintes dados: o número de mortos por agentes da lei, no Brasil, é equivalente ao de vítimas da guerrilha colombiana; em 2003, a PM paulista matou 868 pessoas (recorde desde 1992, quando houve o massacre do Carandiru) e a do Rio, 1.195 (média de 1 civil a cada 8 horas); um levantamento feito pela Ouvidoria de São Paulo mostrou que, em 2003, 17% das vítimas da polícia tinham tiros nas costas e 25% na cabeça – mais da metade dos mortos não tinham antecedentes criminais.
Fazendo um recorde racial: Uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo mostrou que 51% dos negros entrevistados já sofreram algum tipo de discriminação da polícia; mais de 4% disseram que já foram forçados a assumir delitos que não tinham cometido.
Será que as atuações de alguns policiais estão voltadas para um grupo específico? O que sabemos é que a violência policial tem raça (75% são negros), sexo (a maioria são homens) e idade (entre 18 e 25 anos).
Caso real de um Brasil desigual: Em Fevereiro de 2004, em São Paulo, um jovem negro, recém formado em Odontologia, é confundido pela polícia e morto. Trata-se de Flávio Santana. Flávio faz parte de uma triste estatística onde são contabilizados às vítimas do racismo e da violência policial em nossa sociedade. O caso tornou-se público, e as denúncias feitas há anos pelo movimento negro e entidades sociais de direitos humanos, vieram à tona.
O julgamento dos policiais acusados pelo assassinato, foi remarcado – pela terceira vez – para o dia, 17 de Outubro, às 9h, no Fórum de Santana – SP. Diversas entidades negras, religiosas e dos direitos humanos, estão se organizando para realizar uma grande mobilização pela punição dos culpados. Juntam-se às entidades, familiares de vítimas de outras chacinas ocorridas no Estado.
O grande desejo dos manifestantes, que deve ser de todo cidadão, é que a Justiça seja feita, que os culpados sejam punidos, e que uma parcela da polícia entenda que a índole não está estampada no rosto e muito menos na cor da pele.
Fontes: Fundação Perseu Abramo, Folha de São Paulo e Revista Época.

Eloísa Helena