S. Paulo“Nosotros, Afroperuanos”, documentário que estréia neste sábado (06/04) no Memorial da América Latina, em S. Paulo, mostra um pouco da vida e da história dos negros peruanos que correspondem a entre 7% e 10% da população do país. Segundo a produtora Gabriela Watson, que o co-dirigiu e produziu em parceria com Danielle Almeida, a realidade dos afro-peruanos é muito parecida com a dos negros brasileiros.

“Os problemas como racismo, discriminação, falta de acesso à educação e serviços básicos de saúde, sãos os mesmos enfrentados pelos negros no Brasil, porém, no Peru, a situação é mais grave, apesar da população negra peruana estar entre 7% e 10% do total da população, apenas 27% termina o segundo grau e menos de 2% vão às universidades, devido às condições socioeconômicas das famílias negras”, afirma.

O documentário estreiou no 6º Encontro de Cinema Negro, Brasil, África e Caribe, em novembro de 2012, o único encontro brasileiro que reúne cineastas negros de toda a diáspora, organizado pelo diretor e ator negro Zózimo Bulbul, falecido recentemente. Também foi exibido na 2ª Muestra de Cine Independente de Osorno, no Chile.

A exibição deste sábado, prevista para as 18h30, na Biblioteca Latino-Americana Victor Civita, será seguida de uma conversa sobre o processo de construção do filme com a participação do professor Julio Moracen, da Universidade Federal de S. Paulo (Unifesp) e performance musical de Danielle Almeida e coletivo Insorama, que apresentarão canções do repertório criollo e afro-peruano. Tem o apoio do Consulado do Peru em S. Paulo e da ONG Inti Wasi.

Segundo Gabriela, que trabalha como produtora da Rede Gazeta e é formada em Comunicação Social (Rádio e TV) pela Fundação Cásper Líbero, a intenção é enviar o documentário para seleção de festivais, especialmente no Brasil e na América Latina, e exibí-lo em espaços menores, como ONGs, escolas e centros culturais. "Sempre em ambientes que permitam sempre uma discussão, já que o documentário serve como introdução para debate de questões relacionadas à questão racial, de modo geral", destaca.

Em entrevista ao editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira, Gabriela falou da importância do Brasil voltar-se para a América do Sul e, em particular, ter olhos para a presença negra no continente. “Acredito que neste momento em que a população afro-brasileira está afirmando cada vez mais sua negritude, (vide o último resultado do Censo 2010, que notifica um aumento da população que se auto considera afrodescendente) necessitamos também ampliar nossa percepção da questão racial e entender toda a amplitude do que chamamos de Diáspora africana nas Américas”, afirma.

Leia, na íntegra, a entrevista.

Afropress – Qual a realidade dos negros peruanos e o que pretende mostrar o documentário "Nosotros…"?

Gabriela Watson (foto) – O objetivo do documentário é mostrar um panorama geral da realidade dos negros no Peru, poderíamos dividir o documentário em dois momentos, no primeiro são mostradas algumas das principais influências africanas na cultura peruana, como por exemplo, a dança e a criação de instrumentos musicais e as celebrações religiosas como é a do Señor de Los Milagros, conhecido como o “cristo negro”.

Ainda nesse primeiro momento é contada a trajetória do movimento negro e as ações de organizações que desenvolvem trabalhos em prol da população negra. O segundo momento do documentário registra as viagens que fizemos ao sul de Lima, em visita a cidades e comunidades rurais negras, a cidade de Cañete e o povoado de El Carmen e La Quebrada.

Um dos comentários que ouvi é de que, fora a parte cultural, “este documentário poderia ser de qualquer país latino-americano”, e acredito que esta frase sintetiza como são parecidos os dilemas enfrentados pela população negra em toda a América Latina. Portanto um dos objetivos principais é contribuir para que haja uma aproximação entre os descendentes de africanos na América Latina, mais especificamente, traçar uma ponte entre a realidade dos negros peruanos com nossa realidade afro-brasileira.

Os problemas como racismo, discriminação, falta de acesso à educação e serviços básicos de saúde, sãos os mesmos enfrentados pelos negros no Brasil, porém no Peru a situação é mais grave. Apesar da população negra peruana estar entre 7% e 10% do total da população, apenas 27% termina o segundo grau e menos de 2% vão às universidades, devido às condições socioeconômicas das famílias negras. Não existem disciplinas nas universidades que contemplem a questão afro-peruana, muito menos uma lei como a que temos aqui, que é a 10.639/03, que obriga o ensino de cultura afro-brasileira e africana nas escolas.

O pensamento de que negros devem ser apenas trabalhadores braçais ou então dedicar-se a música, esporte, dança e cozinha ainda é muito forte no Peru. A população afro-peruana enfrenta uma terrível invisibilidade, por exemplo, a maioria dos povoados negros rurais que conhecemos estão no caminho para pontos turísticos, porém carecem de saneamento básico apesar de cidades a menos de 30 minutos contarem com esse serviço.

Apenas a partir do governo de Ollanta Humala, o atual presidente do Peru, é que começaram a serem discutidas políticas públicas governamentais específicas para esta população, todavia, neste momento, é algo embrionário. A lei de injúria racial ainda não foi aprovada pelo Legislativo e recentemente vi um anúncio de emprego que pedia explicitamente recepcionistas de “tez clara” (pele clara), ou seja, ainda há um caminho longo para que os negros no Peru tenham as mesmas condições de vida do restante da população peruana.

Afropress – Quando começou a ser produzido, em que cidades foram feitas tomadas, quem financia o projeto?

GW – O documentário nasceu a partir de registros de entrevistas e viagens feitas no ano de 2011, no Peru, por mim e a outra pesquisadora, Danielle Almeida. 

Viajamos sozinhas em momentos diferentes, o equipamento que utilizamos é semi-profissional, minha viagem foi em março, a de Danielle em outubro de 2011.

Gosto de esclarecer que no momento inicial não tínhamos clara a ideia de que faríamos um documentário, meu objetivo era fazer uma reportagem curta. Porém, ao ver a grande quantidade de material conseguido confirmei que seria possível fazermos disso um produto independente, então comecei a editar o documentário no final de 2011.

Vale mencionar que Danielle Almeida, que é bacharel em Música, está há mais de nove anos estudando sobre cultura negra latino-americana, com foco principal no aspecto musical, sua pesquisa resultou no espetáculo “Me gritaram Negra”, ganhador do prêmio "Ideias Criativas para o dia 20 de novembro – dia da Consciência Negra" – Ministério da Cultura/Fundação Palmares.

No meu caso, desde 2006 alio uma carreira na área de produção em veículos de comunicação com produções independentes ligadas a cultura afro-brasileira, desde 2008 comecei a ampliar meu foco e iniciei minhas visitas a cidades afro-peruanas.

O documentário foi gravado na capital do Peru, Lima, e também cidades localizadas a 200 quilômetros ao sul da capital: a cidade de San Vicente de Cañete e o povoado La Quebrada, que ficam na Província de Cañete, dentro departamento de Lima. (No Peru a divisão geográfica utiliza os termos “poblado”, “província”, e “departamento”, grosso modo poderiam ser equiparados ao que no Brasil designamos como: povoado, município e estado). Visitamos também o povoado de El Carmen que fica na província de Chincha, departamento de Ica.

Este ano, em 2013, eu e Danielle, fizemos algumas oficinas e atividades em comunidades rurais negras no norte do Peru, no povoado de Capote e Zaña, que ficam no departamento de Lambayeque, a, aproximadamente, 800 quilômetros de Lima, trajeto que leva entre 12 e 15 horas de ônibus. Essas oficinas estão dentro do projeto “Pallenque Infantil”, desenvolvido pela ONG Cedet, com o propósito de trabalhar a questão da identidade negra com crianças e jovens, principalmente, os afro-peruanos. Fomos responsáveis por realizar algumas oficinas dentro deste projeto a convite desta instituição.

As viagens e a pesquisa que derivou no documentário e na realização de atividades nas comunidades afro-peruanas foram feitas com nossos próprios recursos financeiros. Recebemos o apoio institucional da Ong Cedet em Lima e, em São Paulo, do Consulado do Peru e da ONG Inti Wasi.

Afropress – Você é filha de peruanos. Como vê a relação entre negros brasileiros e peruanos, e negros de outros países da América do Sul, em geral.

GW – Como filha de imigrantes peruanos que vivem no Brasil há trinta anos, estas duas heranças, a negra e a peruana, sempre moldaram a minha percepção do mundo. Em primeiro lugar analiso que existe uma falta de diálogo entre o Brasil e os demais países da América do Sul e América Central. Apesar do Brasil estar localizado na América Latina, não existe no Brasil a identidade, muitas vezes os próprios brasileiros não se consideram incluídos no que se designa latino-americano. Para dar um exemplo superficial, dentro do que aqui se chama “ritmos latinos” estão considerados a salsa, a cumbia e o merengue, mas não o samba, ou seja, a cultura latina é uma cultura alheia à nossa cultura. Em geral, divulga-se pouco o trabalho de artistas latino-americanos, no Brasil, filmes, por exemplo, estão restritos ao circuito de festivais ou cinemas alternativos.

Músicas desses países são pouco tocadas nas rádios, salvo exceções. Os meios de comunicação dão muito mais espaço para a conjuntura política e sócio-econômica da Europa e Estados Unidos em detrimento da realidade latino-americana. Por conseguinte, em se tratando da questão racial esse lapso continua. Não é divulgada a informação de que a Diáspora Africana abrangeu as Américas em sua totalidade. Existem comunidades negras em todos os países da América Latina, porém existe um desconhecimento muito grande quanto a isso no Brasil. Comunidades afro-descendentes, inclusive com reconhecimento internacional, como, como San Basilio de Palenque, na Colômbia, com uma população de aproximadamente 3500 habitantes ou os garífunas na América Central, no Brasil, em geral, são desconhecidas.

A partir da minha pesquisa, posso dizer que existe uma troca muito maior entre os negros dos demais países da América do Sul e Central do que entre os negros brasileiros e demais países dessa região. Existem mais redes de trabalho formadas por negros da América Latina, que não incluem o Brasil, acredito que o entrave do idioma seja um dos fatores que leva a esse distanciamento. Somos o único país que fala português, todos os demais falam espanhol.  

No Brasil, existe um único congresso internacional que reúne afrodescendentes de todas as Américas, o Encontro afro-latino, porém ele não repercute em ações permanentes e contínuas.  

Portanto se não nos reconhecemos enquanto latino-americanos também não nos reconhecemos enquanto afro-latinos. Essa falta de integração dificulta ainda mais a formação de uma rede de apoio e pulveriza nossa luta pela igualdade de direitos. Acredito que neste momento em que a população afro-brasileira está afirmando cada vez mais sua negritude, (vide o último resultado do Censo 2010, que notifica um aumento da população que se auto considera afrodescendente) necessitamos também ampliar nossa percepção da questão racial e entender toda a amplitude do que chamamos de Diáspora africana nas Américas.

Afropress – Além da apresentação no Memorial, há uma agenda para apresentação do documentário?

GW – O documentário estreou no 6º Encontro de Cinema Negro, Brasil, África e Caribe, em novembro de 2012, o único encontro brasileiro que reúne cineastas negros de toda a diáspora, organizado até então pelo grande diretor e ator negro Zózimo Bulbul, falecido recentemente.  A segunda exibição ocorreu em fevereiro de 2013, na apresentação que organizamos mediante apoio da ONG Cedet, no Centro Cultural da España de Lima, Peru. Em março deste ano “Nosotros, afroperuanos” foi exibido na 2ª Muestra de Cine Independiente de Osorno, no Chile, via seleção oficial da Mostra. O documentário terá sua primeira exibição em São Paulo, no Memorial da América Latina, atividade que estamos realizando com apoio do Consulado do Peru em São Paulo e da ONG Inti Wasi.

Estamos enviando o documentário para seleção de diversos festivais principalmente no Brasil e na América Latina, festivais estes que tenham uma vertente ligada aos direitos humanos e documentário político. Já que “Nosotros, afroperuanos” não é um documentário com linguagem mais jornalística do que “artística”.

Além dos festivais nossa intenção é exibi-lo em espaços menores, como ONGs, escolas e centros culturais em um ambiente que permita sempre uma discussão, já que o documentário serve como introdução para debate de questões relacionadas à questão racial, de modo geral.

Paralelamente as exibições do documentário nossa pesquisa desdobra-se em diferentes tipos de ações: intervenções, performances, debates e espetáculos musicais. Realizamos, em 2011, a Intervenção Afrolatina, no dia da Consciência Negra de 2011, uma performance que intercalava a apresentação musical de Danielle Almeida com alguns trechos do documentário, também em 2011, realizamos uma intervenção e palestra nos Terminais da Petrobrás.

Em 2011 e 2012, apresentamos versões menores do documentário na UNIFESP, na aula do Prof. Julio Moracen, professor de culturas afro-americanas e caribenhas, na Casa das Áfricas e no Memorial Penha de França a convite do Movimento Cultural Penha. Em 2012, o espetáculo “Me gritaram Negra” foi exibido também no Centro Cultural São Paulo, dentro da Mostra Estética da Periferia, o espetáculo além da performance musical conta com projeções audiovisuais, teatralização e dança afro.   

Afropress – Faça as considerações que julgar pertinentes.

GW – Agradeço a possibilidade de divulgar nosso trabalho através do site Afropress que é um dos poucos sites brasileiros como foco na divulgação da realidade afrodescendente. Essa iniciativa é louvável e ficamos muito satisfeitas em poder dar visibilidade ao nosso trabalho.

Aproveito a oportunidade para agradecer aos entrevistados peruanos, pela confiança depositada em nosso trabalho, agradecemos também aos nossos amigos e familiares, que nos ajudaram a finalizar este projeto e demais apresentações e atividades que produzimos.  Muito obrigada. (Crédito das fotos internas: Gabriela Watson e Danielle Almeida).

 

Da Redação