São Paulo, 14 de dezembro de 2013. Era uma noite radiante, com a perspectiva do show daquele que considero um dos maiores ídolos de minha geração: Stevie Wonder. Era também o encerramento de um difícil período de viagens e compromissos relacionados ao Mês da Consciência Negra, que se iniciou em Porto Seguro, na Bahia, e passou pelos subúrbios de Salvador, pela Costa do Sauípe, uma exposição no Fórum de Direitos Humanos em Brasília, outra palestra em Porto Alegre, um Encontros com a Raça em Curitiba e, para completar, até uma passagem por Buenos Aires. Apesar do cansaço e do stress, o último compromisso oficial em Recife parecia mais fácil de encarar, afinal o show estava para acontecer, encerrando em mim décadas de espera.

Ao chegar ao Campo de Marte, em São Paulo, não pude deixar de observar coisas que qualquer negro mais atento perceberia, quanto às questões raciais brasileiras: o número reduzido de afrodescendentes para ver o show de Stevie Wonder ali demonstrava que, mesmo para a tal nova classe media negra brasileira, um ingresso de mais de duzentos reais ainda pesa. Na ponta do lápis, é quase o preço de alguma prestação de nossa endividada classe emergente.

A segunda observação, que já tinha notado pela TV mas se tornou mais impactante ao vivo, é que a equipe de Wonder inteira, incluindo o staff do comando, era composta de negros – algo que pude descobrir apenas ao ter acesso ao backstagem, por conta da minha credencial de jornalista. Sem exceção, sua equipe não tinha brancos – bem o oposto dos artistas negros que conheço por aqui, no maior país negro fora da África.

Após o início eletrizante, com hits que fizeram os 17 mil pagantes irem ao delírio, veio a parte mais emocionante da noite, a música “Keep Our Love Alive”, que Wonder dedicou ao amigo Nelson Mandela. Enquanto o telão mostrava imagens de encontros entre o cantor e o líder sul-africano, o que se via eram milhares de braços brancos erguidos num gesto pela paz entoado pelo artista, numa homenagem ao maior líder contra o racismo que a humanidade já conheceu.

Minha indignação chegava ao limite. Meus questionamentos sobre a obra inacabada de Mandela e sobre a hipocrisia do racismo brasileiro, também. Ali estava um astro negro cantando para uma plateia quase toda branca, fazendo gestos pela paz num cenário que muito lembrava a África do Sul que Mandela lutou para mudar. Quase vinte anos passados, eu podia sentir ali a reprodução do apartheid da África do Sul, baseada numa distribuição de poder econômico que realizava com precisão o que as leis do apartheid pretendiam no século anterior. E justo durante a homenagem de quem mais combateu a exclusão de negros em espaços como aquele.

Apesar disso, foi um dos mais tocantes eventos que pude presenciar em 2013, principalmente pela lembrança de Mandela. Me incomoda que o show intitulado Circuito Banco do Brasil, patrocinado por uma empresa pública que nasceu na época da escravidão e teve em seu capital o sangue dos escravizados brasileiros, reproduza o que há de pior na segregação racial ao usar dinheiro público para subsidiar um show feito para a elite. Talvez a mensagem devesse ser outra: de que o maior país da diáspora africana não precise de um líder da grandeza de Mandela, mas de pessoas que sigam seu exemplo e não reproduzam aqui as atitude que ele tanto combateu em vida.

 

 

 

Maurício Pestana