Vitória/ES – Depois de três dias no inferno do Presídio Feminino de Tucum, em Cariacica, na Grande Vitória, a doméstica negra Elza da Conceição dos Santos, 48 anos, já está em casa, no Jardim Camburi, em Vitória, liberada por um habeas corpus impetrado pela promotora estadual Marlusse Pestana Daher e concedido pelo juiz Paulino José Lourenço. (Veja na sessão Colunistas “Chega de deboche! Soltem a doméstica de Vitória).
Dona Elza foi recebida com festa, em sua casa, na Rua Macanaíba, no Bairro Feu Rosa, na Serra, por volta das 21 horas, pelos filhos Flávio, 12 anos, e Alexandre, 14; a nora Rosângela, os sobrinhos Cláudio e Ozenilson, além de vários vizinhos.
A empregada estava presa, desde segunda-feira, sob a acusação de racismo, porque teria agredido verbalmente o motorista de ônibus Welber Honorato, também negro, numa discussão banal por causa do excesso de lotação do coletivo.
“Estou feliz por ser solta, mas meu coração está ferido”, disse a mulher, mãe de sete filhos, dois dos quais menores de idade, e que sobrevive do salário de R$ 300,00 e de uma pensão de R$ 180,00 paga pelo ex-marido.
Casa humilde
Morando numa casa muito humilde, de apenas dois quartos, em companhia dos filhos Flávio, 12 anos, e Alexandre, 14, há 15 dias dona Elza recebeu em sua casa o sobrinho Claudio de Jesus Santos, 29 anos, mais um baiano de Itamamaraju que, como ela, veio para a Grande Vitória em busca de emprego e dias melhores.
“Gente como nós trabalha, vive com dificuldades. Cuido para os meus filhos serem honestos, e ficar naquele presídio não foi um bom exemplo para eles”, diz ela.
Foi a própria promotora quem levou o alvará de soltura do juiz para livrar Elza dos Santos da cadeia. Presa pelo delegado Márcio Malheiros de Oliveira, a mulher disse que nunca imaginou passar por tamanhos sofrimento e vergonha.
“Colocaram uma algema nos meus braços e me levaram para um lugar onde nunca imaginei que pisaria. As presas me trataram bem, mas aquilo é um inferno, um calorão enorme. Uma delas me cedeu parte da cama”, contou.
Marlusse Daher requereu o habeas-corpus na condição de cidadã. “Qualquer pessoa poderia fazer o que fiz, porque a mulher estava lá, esquecida. O que cometeram contra ela foi uma violência. Elza foi coagida pela sua situação de pobreza, num ônibus superlotado, indigno. O motorista é da cor dela, portanto, o fato de ter usado a palavra preto não os desigualava. Não pode ser admitido que tenha agido com dolo”, argumentou.
Injustiça
Para a promotora Marlusse Daher, qualquer que tenha sido a reação de Elza dos Santos “é resultado de tanto sofrimento pela sua condição, de ver-se privada dos direitos que lhe assistem”. Para ela, “quando ousou recriminar, insurgindo-se contra um ônibus superlotado, colocaram-na no fundo de uma cela”.
Dona Elza disse que só quer levar sua vida em paz, de casa para o trabalho, com idas frequentes à sua igreja evangélica. “Não fui racista. Não podia ser, porque adoro gente da minha cor. Vivo no meio de gente assim”, diz ela.

Da Redacao