Fui ao Maraca assistir a Alemanha x França. Frequento o estádio desde garoto, me sinto em casa ali.

Nesse dia, me senti um intruso. O jogo era deles, a arquibancada era deles.

Eu era apenas um espião, um agente secreto espreitando o futuro inimigo. O Maracanã estava vestido com roupa de gala. Irreconhecível.

Placas bilingues, filas organizadas, policiais vestidos de Robocop. A trilha sonora soava esquisita. Por que tanta música estrangeira num país tão rico musicalmente? Por que não ouvimos nosso samba? Por que não Benjor ou Criolo e, sim, Pitbull?

É quando a gente se toca que a Copa é um circo que por acaso se instalou no Brasil. Não somos os donos da festa, mas, sim, convidados, tanto quanto qualquer outro torcedor estrangeiro. O público do estádio é mais parecido com o que frequenta o Corcovado ou o Pão de Açúcar.

Até nós nos sentimos um pouco gringos. Fazemos "selfie" com o velho e bom gramado ao fundo. Sentamos no lugar marcado. Fazemos questão de levar pra casa o copo de cerveja com a inscrição da partida. Temos de nos lembrar que não estamos no exterior. Aquele espetáculo está acontecendo a 40 minutos da nossa casa!

Durante o Mundial, o sujeito põe a camisa da sua seleção e se torna um embaixador do seu país. Seu comportamento vai moldar a ideia que formaremos do seu povo.

O japonês que limpou o estádio elevou o conceito do seu país. O chileno que invadiu e quebrou o centro de imprensa do Maracanã enlameou a imagem dos seus inocentes conterrâneos.

Mesmo nós fizemos muito estardalhaço sobre o que podia não funcionar, preocupados com o que iam pensar da gente lá fora. Tentamos ajudar o turista perdido, traduzir seu pedido no bar em troca de levarem uma boa impressão do brasileiro. Praticamente falamos "fique àvontade, não repare a bagunça".

O carioca, que se achava cosmopolita, vê sua cidade ser invadida por forasteiros e se sente meio jeca. Na falta do batuque, tentamos entoar os gritos de guerra dos alienígenas: "Allez, les Bleus!", "Si se puede!". Engolimos o "hei, juiz, vai tomar…"

E, pra não dar na vista, batemos palma com vontade, fazendo de conta que somos turistas. O jogo é mero detalhe. Nos interessa é ver a festa colorida, a profusão de idiomas exóticos que se misturam nas arquibancadas.

Nota da Redação: o artigo é postado em Afropress com autorização expressa do autor.

Hélio de La Peña