Digo isto porque estreou na última segunda-feira dia 01/10 a nova novela da Rede Globo chamada “Duas Caras” onde, segundo as sinopses divulgadas pela emissora, pretende ter como tema central discussões em torno da discriminação racial e social no Brasil.
Contudo, para abordar o tema, observa-se que a emissora utiliza como personagens centrais da trama um personagem favelado interpretado pelo ator Lázaro Ramos (Evilásio) e uma “bela jovem” branca de classe média da zona sul carioca interpretada por Débora Falabella (Júlia).
Adotando a “inédita e original” abordagem de amor impossível a lá Romeu e Julieta, o autor Aguinaldo Silva diz que eles irão se apaixonar e enfrentar todos os obstáculos a que tal relacionamento pode estar sujeito. Ou seja, o jovem negro favelado só tem chances de progresso e ascensão social se for embranquecido. Sua união com a jovem branca (mesmo que os sentimentos de ambos sejam verdadeiros um pelo outro) traz subliminarmente esta mensagem. A jovem, por sua vez, para manter-se ao lado do amado, terá de enfrentar a desaprovação de sua família “tradicional” a esta união.
Isto é, o modelo é exaustivamente repetido nas produções televisivas: o negro proveniente da favela e a jovem branca da classe média alta. Enquanto um indivíduo (no caso o negro) é rotineiramente representado como sendo sempre proveniente dos estratos sociais mais baixos possíveis, o outro (a personagem branca) possui sempre origem bem cuidada, de família conhecida no seio da sociedade e com abundância de recursos de toda ordem.
Ou seja, supõe-se assim que a emissora pretende discutir as relações raciais e sociais do país, porém, verifica-se que o faz sempre por intermédio das mesmas fórmulas. Não há inovação, não há ousadia, não há olhares diferentes. Isto é, nenhum tabu é de fato rompido, nenhuma fronteira é desbravada. Pelo contrário, elas são apenas sutilmente preservadas e reforçadas. Lamentavelmente, como grande parte das pessoas que consomem este produto de entretenimento não possui discernimento suficiente para perceber tais sutilezas, elas apenas introjetam as ideologias que lhes são transmitidas desprovidas de qualquer exercício de reflexão e questionamento.
Conforme exposto por Dennis de Oliveira e Maria Ângela Pavan em sua análise da novela “Da Cor do Pecado”, a telenovela quando aborda a questão das relações raciais e as desigualdades sociais, o faz invariavelmente de forma totalmente rasa e inadequada (neste caso, segundo os autores, a começar pelo título).
Pra completar, a história apresenta também em um dos núcleos secundários, a figura da “negra boasuda” (interpretada pela atriz Adriana Alvez) que esbanja sensualidade e que é desprovida de outros recursos pessoais. Percebe-se assim que estas duas representações (mulata e favelado) correspondem exatamente à materialização de parte dos doze arquétipos típicos do cinema nacional apontados por João Carlos Rodrigues em “O Negro Brasileiro e o Cinema”. De acordo com este autor, as produções cinematográficas nacionais recorrem sempre aos mesmos estereótipos e representações sociais para simbolizar os indivíduos negros.
Realmente, é uma pena verificar que a história continua a se repetir da mesma forma que vem sendo contada há anos e anos. E tão lamentável quanto este fato é verificar que a história é reforçada em nossa sociedade primeiramente pelo gênero de entretenimento mais assistido no país e, em segundo lugar (porém, não menos importante), pela emissora líder absoluta de audiência que atinge a maioria esmagadora dos lares.
Diante disto, surge alguns questionamentos como, até quando teremos de ver histórias contadas sempre da mesma forma? Até quando perdurará esta situação onde a embalagem é renovada, mas o conteúdo permanece inalterado? Até quando será que veremos a perpetuação deste fenômeno? Até quando continuaremos a assistir sempre mais do mesmo?

Luiz Valério de Paula Trindade