O Programa "Fantástico", da Rede Globo, protagonizou momentos de reflexão sobre o racismo que nossas crianças sofrem cotidianamente. Tema este incluso no projeto intitulado “Criança Esperança”, que suscita inúmeros questionamentos, tanto o projeto em si, como a forma como o tema foi abordado. Entretanto, é bastante interessante trazer o tema racismo para o lanche noturno e dominical da sociedade brasileira.

Mas, vou me ater ao tema especificamente. E, para isso, revelo minha inquietude e me questiono se a forma como foi colocada não imputa à vítima o ônus da prova. Melhor dizendo: minha sensação – e espero estar errada – foi de que o problema era exclusivamente dos negros, dos pretos, "dos deslocados numa sociedade de democracia racial", afinal, são "eles que sempre reclamam" – por sinal, verbo usualmente colocado para despotencializar a voz da vítima, como fazem, infelizmente, muitos/as professoras/es que fingem não perceber o racismo; e mesmo as autoridades de segurança pública – delegados, advogados, Ministério Público, Judiciário, que não "entendem" (por conta das grossas lentes do racismo institucional) a extensão da problemática na psiquê e vida de gerações secularmente minorizadas.

Outra questão é a exposição das crianças. Sabemos (na pele) que elas são e serão estigmatizadas se não tiverem um baita apoio pessoal e institucional. Qual a preocupação da indústria midiática com a psiquê dos envolvidos? Lembro do caso do menino-ator que interpretou Cirilo da novela Carrossel do SBT (que não vou citar o nome) teve depressão por conta do racismo que seu personagem sofria.

De acordo com matéria veiculada em 24/07/2012, no site UOL Jogos Forum, "Os médicos do Hospital da Beneficência Portuguesa que assinaram o laudo médico apontam uma íntima relação entre o bullying sofrido pelo personagem com a patologia do ator. O Dr. Henry Silveira Godri em entrevista a esta reportagem afirmou que nesta idade as crianças ainda não possuem filtros eficientes para distinguir ficção de realidade. Não é fácil para uma criança suportar tamanha humilhação. Vale lembrar que na Argentina o ator que viveu o mesmo papel hoje sofre de transtornos mentais e está preso."

E o que fez o SBT? Nada. Nem um psicólogo para acompanhar o menino antes e durante as filmagens, o que configurou uma tortura psicológica. As famílias devem ter muito cuidado com este tipo de exposição.

Voltando para à peça midiática, a intenção é boa, mas fica outro questionamento, por que não colocar representantes da epiderme que atenta contra a criança negra? Seria uma forma de equilibrar a dor? E de novo a imagem da mulher negra sendo aviltada e justamente por crianças negras e mestiças que são discriminadas e têm de repetir as ofensas que sofrem a uma mulher negra. Isto é fazer as pessoas refletirem? Não sei, é uma questão para se refletir. Como lidar com esta representatividade imposta por padrões estéticos que nos colocam ad eternum na subalternidade e numa pseudo-humanidade? E fazer com que os que são açoitados tenham que mostrar para os que seguram o chicote que tais lanhos realmente doem? Estranho… É uma forma pedagógica de avançar nas discussões ou de se mostrar qual o lugar de pertença determinado?

A branquitude tem privilégios quando mantém o racismo vivo. Então nada mais justo e coerente discutirmos estes privilégios: Qual o meu ganho em puxar os cabelos de uma menina negra? Quais as vantagens que tenho quando consigo excluir as crianças negras e afronordestinas das rodas de brincadeiras? Por que ao falar no cuidado dos cabelos de meus alunos eu defino aqueles que devem ser enaltecidos e dos desleixados a partir dos traços fenotípicos? Lembro que os piolhos que insistiam em visitar nossa casa não vinham de carapinhas, muito pelo contrário…

Enfim, só reflexões para que possamos ter produções midiáticas que tratem do combate ao racismo de forma mais adequada em todas as concessionárias de comunicação.

 

Sandra Martins